João Araújo, músico e físico, lança um disco onde fala de cultura e corrupção

Compositor e investigador pernambucano lança em Portugal o seu CD comemorativo Rival do Destino. A pensar no Brasil.

João Araújo aprendeu a misturar ciência e arte
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João Araújo aprendeu a misturar ciência e arte Daniel Rocha

Na sua música misturam-se poesia, samba, bossa, frevo e jazz. Brasileiro, investigador científico em Física, na Alemanha, João Araújo é músico e também autor de livros de poesia, contos, ensaios. Está em Portugal a apresentar o seu disco Rival do Destino, com que assinala 20 anos de carreira artística.

Nascido no Recife, Pernambuco, em 1975, João Araújo começou por ser atraído pela poesia, lendo os poemas e crónicas de Vinicius de Moraes. Só depois o conheceu como autor de canções e foi nessa altura que também descobriu Tom Jobim e Chico Buarque. Os pais dele não tinham ligação directa à música mas ouviam muita (Chico, Caetano, o Roberto Carlos pós-Jovem Guarda). Entre os 13 e os 15 anos, foi lendo vários poetas: Drummond, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, a par dos portugueses Camões, Bocage, Florbela Espanca, Pessoa e heterónimos. Isso enquanto aprendia a tocar violão. “Mexendo nos acordes, nas harmonias.” Esteve no Conservatório Pernambucano um ano e, em seguida, começou “a interagir com músicos e compositores da terra, na noite”. Descobriu, aí, a cultura de raiz: frevo, maracatu, caboclinho, embolada, forró. “Essa parte mais regionalista do Brasil.” E ia muito “ao bar do Pina”, onde nasceu o manguebit, movimento que integrava Chico Science, Fred 04, Mundo Livre S/A.

Outro João, na Alemanha

Embora tenha começado pelo violão, João Araújo acabou por enveredar pela percussão, vindo a especializar-se no pandeiro (escreveu, até, um método básico para o instrumento, que publicou). E integrou-se no movimento do chorinho do Recife. “Cheguei, nessa época, a ter um trio, composto por Bozó no violão de sete cordas e Adalberto Cavalcanti no bandolim.” Correram o Brasil.

Até que resolveu tirar um mestrado em Criações Literárias Contemporâneas, na Universidade de Évora, e rumou a Portugal. Estudava Física, mas continuava apaixonado pela arte. “Resolvi misturar as duas coisas, arte e ciência, ciência e arte.” E conseguiu-o em Évora, onde as cadeiras tinham nomes que lhe agradaram: “Física e Literatura, Biologia e Literatura, tudo jogava com literatura!” Defendeu a tese e entretanto arranjou trabalho como investigador científico em Física quântica. Mudou-se então para Lisboa, já com a mulher, que entretanto também viera para Portugal. Mas a música não o largou. “Conheci alguns músicos e comecei a voltar à actividade mais artística.” Foi por essa altura, morava ele na Madragoa, que o CD Rival do Destino começou a ser gravado. Em viagens ao Brasil produziria ainda dois discos de frevo. Até que, em 2012, se muda para a Alemanha.

João tinha família na Alemanha e uma oportunidade para trabalhar em análise de dados, primeiro em Kassel, depois em Munique. O que não o afastou da música. Manteve parceiros musicais em Lisboa, no Rio, em São Paulo, no Ceará, em Minas Gerais, e continua a compor e a tocar ao vivo. Na Alemanha, por exemplo, encontrou um parceiro musical com um nome igual ao seu mas de outro estado: João Araújo, de Belo Horizonte, Minas Gerais, tocador de viola de dez cordas. Em Lisboa, planeia formar um trio (ou um duo) com um contrabaixista português, Pedro F. Sousa, que aliás já assina juntamente com ele Meu tom, uma das faixas do disco Rival do Destino. “Este trabalho é a comemoração dos meus 20 anos de carreira como compositor. É um projecto complexo para se apresentar em palco como está. Já está disponível em formato digital, em várias plataformas, e em formato físico foi editado no Brasil e é agora distribuído em Portugal.”

No alvo, a corrupção

Com 18 temas, Rival do Destino tem canções compostas em Portugal, quando João aqui morou, homenageia músicos do Recife (De boteco em boteco) ou grandes compositores como Noel Rosa (Descendo o morro), mas também fala da corrupção no Brasil, num tema que ele escreveu em Portugal, em 2010, e que baptizou de Ratazana de paletó (corrupção). Não é, diz João, dirigido a alguém em particular, mas sim a uma “sociedade política degradada”. Diz assim: “Carcará insaciável/ Infeliz humanização/ Criatura imprestável/ Vergonhosa criação/ Carrega tua mesada/ Mendiga o teu milhão/ Ó Judas do Planalto/ Teu assalto é deserção”. Ontem como hoje.

Rival do Destino começa agora a ser apresentado por João Araújo (voz e violão, talvez com Pedro F. Sousa) nas lojas Fnac da Grande Lisboa. Esta sexta-feira no Cascais Shopping (22h), sábado em Alfragide (15h) e Oeiras (18h30) e domingo no Vasco da Gama, no Parque das Nações (17h).