Retrato do marxista enquanto jovem de sangue na guelra

O Jovem Karl Marx quer retirar o ideólogo do pedestal para explicar o homem a um mundo que dele só conhece o “ismo”.

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“Ora até que enfim que alguém me faz uma pergunta sobre cinema!”, ria-se Raoul Peck logo ao início de mais uma mesa-redonda de perguntas e respostas com jornalistas num dos foyers do Berlinale Palast. A gargalhada tinha razão de ser – o cineasta haitiano esteve este ano na berlinda no Festival de Berlim com dois filmes que parecem convocar questões mais propriamente políticas do que artísticas. Um foi o seu ensaio-documentário a partir de escritos de James Baldwin, I Am Not Your Negro, que chegará às salas portuguesas daqui a um mês, depois de encerrar o IndieLisboa. O outro é O Jovem Karl Marx, uma ficção narrativa sobre o encontro entre Karl Marx e Friedrich Engels nos idos de 1838, e sobre o que Peck define como “a criação da classe trabalhadora”, esta semana nos cinemas portugueses.

Peck pode rir-se, mas não por se sentir surpreendido, pois sabe que o cinema passa sempre para segundo plano quando se fala dos seus filmes: “Cheguei ao cinema através da política, e o cinema foi sempre para mim um meio de estar engajado na sociedade, quer eu viva no Congo, no Haiti, na Europa ou na América.” Nascido em 1953, filho de um alto funcionário das Nações Unidas, é um verdadeiro cidadão do mundo que cresceu no Congo e estudou em Nova Iorque, Paris e Berlim. Formou-se em engenharia e economia antes de tirar o curso de cinema na Academia de Cinema e Televisão de Berlim, foi taxista em Nova Iorque, jornalista e fotógrafo, ministro da cultura do Haiti durante nove meses, e é autor de uma quinzena de filmes para o grande e o pequeno écrã, entre documentários e ficções, abertamente engajados em questões políticas ou sociais. Mas o seu filme sobre James Baldwin, que caíu de sopetão em plena convulsão sociopolítica à volta da divisão de raça na América, deu-lhe a visibilidade que nunca teve em 30 anos de carreira.

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Para não confundir as coisas, Peck separa em Berlim as entrevistas que dá para I Am Not Your Negro das que dá para O Jovem Karl Marx, filmes que são muito diferentes em termos formais (um documentário ensaístico, outro drama de época clássico) mas, curiosamente, desenvolvidos em paralelo. “Tanto o projecto Baldwin como o projecto Marx começaram comigo numa posição fantástica,” diz em resposta a uma jornalista escandinava. “Tive a possibilidade de escolher se queria fazer um documentário, uma ficção ou um híbrido dos dois. Com Karl Marx trabalhei durante dois anos numa forma híbrida mas, às tantas, decidi que tinha de contar esta história como uma narrativa: três jovens do século XIX que viram a miséria à sua volta e decidiram fazer alguma coisa, que não se limitaram a ir para a rua manifestar-se.” O filme usa como centro de gravidade, precisamente, o encontro entre Marx (August Diehl, que rodou com Tarantino ou Glawogger) e Engels (Stefan Konarske), que começam por antipatizar antes de encontrarem uma alma gémea no outro, e o modo como Jenny von Westphalen, a esposa de Marx, se torna num “fiel da balança” entre os dois homens.

O Jovem Karl Marx, então, é um “buddy movie político”, como diz Peck, ou uma espécie de Downton Abbey à volta da emergência do Manifesto Comunista. São definições que podem ser restritivas, mas a verdade é que o filme, escrito por Peck com o crítico, realizador e argumentista Pascal Bonitzer (seu colaborador de longa data), segue fielmente todas as convenções do filme de época de impecável reconstituição formal. Tudo se passa entre salões, tertúlias, cafés, tabernas, noitadas e copos, encontros políticos e sessões de leitura, só que aqui o foco se desloca muito mais para a dimensão ética da separação entre o “andar de cima” dos aristocratas intelectuais e endinheirados e o “andar de baixo” da criadagem e dos operários. E, já agora, também para as paixões sólidas entre os filhos-família de posses – Jenny von Westphalen, a esposa de Marx, que vinha de uma família conservadora e com ligações às altas instâncias prussianas, e Engels, filho de um rico industrial com fábricas na Alemanha e na Grã-Bretanha - e os “inferiores” sem estatuto - Marx, judeu alemão “que foi expulso duas vezes do seu país antes de chegar aos 30 anos”, e Mary Burns, a namorada de Engels, operária irlandesa despedida de uma das fábricas do pai.

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“O cinema tem convenções tão fortes que as pessoas acham sempre que é tudo inventado,” ri-se Peck, “mas este filme é absolutamente realista. Colocámos de lado todas as grandes biografias de Marx e Engels, e fomos directamente à correspondência, que está toda publicada, porque era aí que entendíamos a verdade. Por exemplo, há uma frase de Jenny numa das cenas, onde ela diz que quer destruir a sociedade, que lhe quer deitar fogo – e isso é uma frase que ela efectivamente escreveu, que fomos buscar a uma carta.”

Em vez de mostrar o Marx patriarcal, radicado em Londres, Peck mostra-o jovem, ainda antes de chegar aos 30 anos, combativo, provocador, iluminado, com sangue na guelra. “Ele era verdadeiramente um génio: alguém que tinha a capacidade de ler tudo, perceber tudo. Marx queria ler os livros na língua de origem, aprendeu inglês e depois russo, começava a escrever uma frase em francês e de repente passava para o alemão… Quis mostrar o entusiasmo destes jovens que viam a miséria à sua volta e a repressão que os rodeava, que eram espíritos livres que não queriam apenas construir uma utopia mas ancorá-la na realidade. É por isso que Jenny é uma personagem tão importante no filme, porque ela era parte da vida de Marx, era o seu braço direito, desafiava a ideia de que a política era só para os homens. Se nos tivéssemos baseado na literatura que existe sobre Marx, teria sido muito difícil saber sequer onde ela estava na altura, porque os grandes teóricos do marxismo nem sequer falam dela.” Peck sorri. “É um pouco o mesmo problema que tínhamos nos anos 1960: queríamos uma revolução, uma mudança, mas as mulheres continuavam a ser apenas quem fazia o café enquanto os homens é que decidiam tudo. «Ah, tratamos do estatuto da mulher depois da revolução e tal...», era sempre a mesma história!”

Está aqui, então, a verdadeira “agenda” de O Jovem Karl Marx, que é menos ideológica do que humanista: devolver tridimensionalidade, complexidade, em suma, humanidade a figuras que a história esvaziou de espessura para se tornarem simples caricaturas de si próprias. Peck fala do marxismo-leninismo cristalizado pelo regime socialista soviético como “o maior rapto teórico da história da humanidade”, explicando que “transformaram o que Marx escreveu em algo que não era de todo a intenção do seu conteúdo. O grosso do trabalho de Marx consistiu na análise da sociedade capitalista, e o que ele nos deixou foi essa abordagem, essa metodologia que podemos usar para analisar a sociedade em que vivemos – ele desconstruiu o sistema para atingir uma fórmula que tornasse as coisas compreensíveis. Não tinha nada a ver com Deus ou com bondade ou com maldade. Ele entendeu que a sociedade estava construída de modo muito específico, definido, e analisou-a cientificamente, estruturalmente. Foi isso que, por exemplo, Thomas Piketty fez: voltou aos números e analisou-os, porque é aí que estão as respostas.”

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Testemunha do modo como as mais bem-intencionadas utopias políticas descambaram ao longo do último meio século, Peck não tem ilusões sobre o que aconteceria se Marx e Engels tivessem assistido à revolução que realmente teve lugar. “Teriam sido mortos assim que ela chegasse, porque eram mentes livres, abertas, críticas. Como Trotsky, penso. Marx e Engels defendiam que a emancipação da sociedade teria sempre de passar pela emancipação do indivíduo, e nunca entenderam isso como uma contradição, mas foi exactamente isso que os países da Europa de leste, ou Pol Pot, ou os chineses fizeram: subjugar o indivíduo à sociedade. Isso não tem nada a ver com Marx.”

Para Raoul Peck, tentar mostrar o homem por trás do mito acaba por ser uma coisa perfeitamente natural – uma tentativa de alargar o tipo de histórias que se contam. “Quando eu era miúdo no Haiti, nunca via histórias como a minha no cinema. Sempre soube que tinha de lutar para garantir que essa história era mostrada – e todos os meus filmes, de um modo ou de outro, falam disso. Quando faço O Jovem Karl Marx, faço-o por uma razão. Quando eu era miúdo, compreendia o mundo de uma maneira menos confusa – não havia Twitter, Facebook, iPhones, tinha tempo para ler um livro, ir às aulas, estudar… Hoje há demasiadas coisas a acontecer ao mesmo tempo, demasiadas escolhas. Parece que vivemos num reality show permanente em que basta fazer as ligações certas e ficamos ricos ou famosos. Isso não é a realidade. Enquanto cineasta, quero mostrar que há alternativas, explicar às pessoas porque é que as coisas são como são e dizer-lhes que podemos mudá-las. Se estivermos dispostos a trabalhar para isso.”