A enxada salta do campo para a cidade para nos fazer parar (e pensar)

E-nxada é a nova criação da Erva Daninha e da Binaural/Nodar que vem falar de ruralidade ao meio urbano e está a partir desta quarta-feira em cena no Teatro Carlos Alberto, no Porto.

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projecto resulta de um desafio da Pegada Cultural – Circus Lab à Erva Daninha para desenvolver um trabalho com um grupo de jovens de uma escola de São Pedro do Sul Adriano Miranda
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É um objecto ancestral associado aos trabalhos rudimentares do meio agrícola, por isso não é assim tão comum avistá-la nas cidades. A enxada carrega a árdua e repetitiva rotina das gentes do campo e sobe agora a palco em E-nxada, o novo espectáculo de circo contemporâneo da companhia portuense Erva Daninha e da Binaural/Nodar, estrutura artística de São Pedro do Sul. A peça está em cena entre esta quarta-feira e domingo no Teatro Carlos Alberto, no Porto, e conta com direcção artística e concepção plástica de Vasco Gomes e Julieta Guimarães. “Tentámos não cair numa coisa muito poética sobre o mundo rural e quisemos manter o ciclo agrícola tal como ele é, com todo o trabalho, a força e o tempo que implicam”, começa por explicar Vasco Gomes, sublinhando a necessidade de olhar para “a questão do tempo, o não estarmos habituados a esperar e de repente precisarmos que as sementes germinem”.

Mais do que um instrumento agrícola, a enxada é aqui um simultâneo ponto de encontro e desencontro entre a aceleração caótica do mundo contemporâneo e o ritmo pachorrento das paisagens rurais. O projecto resulta de um desafio da Pegada Cultural – Circus Lab à Erva Daninha para desenvolver um trabalho com um grupo de jovens de uma escola de São Pedro do Sul e junta duas instituições artísticas inseridas em contextos sociais, económicos e políticos distintos para pôr em confronto a ruralidade e o urbanismo e o passado e o presente. “Não fizemos residências para aprender a cavar nem andámos a mexer na terra e isso é propositado – foi mesmo para que tivéssemos uma visão urbana de tudo isto”, justifica Vasco Gomes.

O espectáculo é caracterizado como “uma visão inocente e quase infantil do trabalho rural” e, de facto, é essa a impressão que passa quando assistimos à dança coordenada dos actores e manipuladores que recriam o fastidioso labor exigido pelas diferentes fases do ciclo agrícola. Vemo-los cavar a terra ininterruptamente, passando as enxadas entre uns e outros como se estas fossem uma extensão dos seus corpos, um testemunho dos calos que nascem da terra e habitam as bocas, as mãos e as costas dos malabaristas. As sementes são bolas brancas atiradas ao ar em gestos cúmplices que lembram a meninez e nos levam a um mundo que corre mais devagar. “Aqui [na cidade] compramos tudo feito, as saladas vêm todas empacotadas. Ligamo-nos com a natureza para vir [a um jardim] tomar café, mas não estamos ligados à natureza [e à noção] de que as coisas são semeadas e exigem cuidado”, acrescenta Julieta Guimarães.

Regressar às origens não significa, no entanto, querer anular a tecnologia. Prova disso é o próprio nome da peça, que remete não só para a enxada como uma tecnologia do seu tempo como para o mundo digital do e-mail, do e-learning e das restantes variações de prefixo “e”. O próprio mundo do espectáculo vive da tecnologia e de tudo o que esta pode acrescentar à concepção de uma performance. “A tecnologia faz parte da vida e não queremos anulá-la, até porque nós usamos muitas luzes e muitos aparelhos de som. Não recusamos isso de todo”, reitera a criadora. O som de E-nxada é também ele fruto do casamento entre o antigo e o moderno, pois resulta de uma investigação profunda feita pela Binaural/Nodar que visou captar sons verdadeiros da actividade rural que pudessem acompanhar os malabarismos.

Os criadores pretendem romper com a ideia romantizada que o espectador possa ter sobre um mundo rural esquecido, pouco habitado e alheio às novas tecnologias. “O mundo rural já é muito contemporâneo, está muito afastado da agricultura e os trabalhos são muito à volta da indústria”, refere Julieta Guimarães, que identifica o processo de criação como “uma grande dose de realidade”. Já Vasco Gomes reconhece que este não é um retrato criterioso da actividade rural, mas antes “uma visão de manipulação e desconstrução do objecto e do próprio trabalho agrícola” que quer pôr a cidade a pensar sobre o campo.

E-nxada é uma peça para todos os públicos que mostra que a distância entre o rural e o urbano não é tão grande quanto se possa pensar. A começar pelo circo contemporâneo, é preciso tempo para conceber os projectos, desenhar as coreografias e seguir metodicamente uma série de passos que, em última instância, darão vida a um espectáculo. Só é preciso trabalho, dedicação e paciência – os mesmos ingredientes necessários para poder colher os frutos das sementes plantadas.