Entrevista

“É quase certo que o S. José não fecha quando abrir o novo hospital”

Em seis anos, os hospitais do Centro Hospitalar de Lisboa Central vão integrar uma nova unidade. O que é gerir instituições, como a Maternidade Alfredo da Costa e a Estefânia, neste processo? Grandes obras não se fazem. Aposta-se em equipamentos que possam ser levados quando a mudança acontecer.

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Ana Escoval no Hospital S. José, em Lisboa Enric Vives Rubio

Pouco mais de um ano depois de ter sido nomeada presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar de Lisboa Central (CHLC), Ana Escoval reconhece que tem a tarefa dificultada. Repete, quase como mantra, “o nosso hospital” ou “o nosso centro”. Mas, na verdade, o CHLC soma seis hospitais com culturas muito diferentes: S. José, Santa Marta, Sto. António dos Capuchos, Dona Estefânia e Maternidade Alfredo da Costa (MAC).

A economista de 65 anos tem de circular entre as seis instituições – o que dificulta a agenda e aumenta a despesa, com os doentes a andarem de ambulância entre as unidades. O PÚBLICO passou um dia com Ana Escoval para acompanhar a gestão deste centro dividido e no qual não podem ser feitas grandes obras, visto que dentro de seis anos os hospitais vão todos para um novo espaço.

O novo Centro Hospitalar de Lisboa Oriental, prometido há vários anos, tem agora uma nota data para arrancar que o Ministério da Saúde assegura ser definitiva. O concurso será lançado em Julho e tem de estar pronto em 2023. Ficará em Chelas. Ana Escoval diz que tudo indica que só o S. José continue aberto, mas com menos especialidades, funcionando como um hospital para dar uma resposta mais próxima e rápida a quem ali mora. Escoval assume-se, assim, como uma gestora “em transição”.

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Este centro agrega seis hospitais. O que é mais difícil nas concentrações que tem de fazer?
O nosso centro hospitalar já sofreu várias agregações. Foi Hospitais Civis de Lisboa, Hospitais da Zona de Lisboa… O Hospital Curry Cabral e a MAC foram os últimos a entrar. Mas nesse percurso perdeu-se Arroios e Desterro. Há culturas que são diferentes e trazem atrás de si grupos de defesa de cada um dos hospitais. O nosso centro ainda não conseguiu ganhar verdadeiramente a sua identidade, porque cada um dos pilares é muito forte. É visto como uma agregação de hospitais e cada hospital sente-se com uma personalidade e cultura superior ao ganho da agregação.

O que tentou fazer neste primeiro ano à frente do hospital?
O primeiro ano foi sobretudo de concentração, consolidação, trabalho em equipa, confiança… É preciso criar laços de confiança com as pessoas, até porque nestes processos há riscos. 

Mas as resistências não complicam a mudança para o novo hospital em 2023?
Quando dizemos que temos de criar uma cultura de centro visando uma transição para um novo hospital, as pessoas ouvem, entendem e até concordam. Mas por detrás têm a sua história e acham que é essa cultura que vai vencer. O que tenho tentado fazer é trabalhar nesta imagem de um centro em transição para um novo hospital.

Vão os seis hospitais para o novo local?
O que está estipulado com a Assembleia Municipal de Lisboa é que haverá um hospital de proximidade que terá de ficar a servir aqui a colina [onde está localizado hoje o Hospital de S. José]. O S. José é o que tem emergido pela sua localização e história, mas ainda não foi tomada a decisão política formal sobre isso.

Quando haverá certezas?
A muito curto prazo, porque o concurso para o novo hospital será lançado em Julho deste ano, mas é quase certo que seja o S. José a não fechar quando abrir o novo hospital. O nosso esforço é para agregar, concentrar e valorizar competências e áreas de conhecimento com o objectivo de serem facilmente transponíveis para esse novo hospital, levando atrás de si um lastro de cultura, de competência, de inovação e de rejuvenescimento já agregado.

Quais as áreas mais difíceis de agregar?
Por exemplo a área da Mulher, da Criança e do Adolescente. As culturas da MAC e da Estefânia são distintas e muito fortes e havia competências e unidades repetidas que estamos a trabalhar para concentrar. Foi preciso colocar estas pessoas a trabalhar em conjunto com culturas e escolas diferentes.

Em termos de gestão, a ideia é no novo hospital trabalharem por grandes áreas?
A mudança não é propriamente essa. No novo hospital o que queremos é uma gestão integrada de camas. Vão ser 875 camas mais 360 que se podem abrir se necessário. Só haverá fatias de camas para casos muito especiais, como os cuidados intensivos ou transplantados. Não haverá fatias para as especialidades. O internamento será feito de acordo com a disponibilidade e isso consegue-se deslocando os profissionais do tradicional serviço para a área do hospital onde são precisos, sendo que há muitas doenças comuns.

E como é que as equipas vêem a mudança para o novo hospital, se já têm dificuldade em encarar as agregações?
Um novo hospital trará sempre um alento muito significativo para os profissionais. Há muitos anos que esperam por um local novo, com condições físicas, materiais e tecnológicas para desenvolver um melhor trabalho.

Não sente muito limitada por estar sempre a preparar outro caminho que não o actual e não poder fazer grandes investimentos?
Acho que não [risos]. Mas de facto os nossos investimentos têm sido muito cuidados. Grandes obras não fazemos. Fazemos obras em áreas críticas, fundamentais para manter a qualidade e segurança. Não gostaria muito de ter de acudir a uma queda de um tecto, gostaria de prevenir. E por isso temos equipas de manutenção em todos os pólos. Fazemos obras para adequação de espaço e não de fundo. Este ano queremos reformular a urgência e o bloco operatório aqui em S. José. Estamos a apostar mais em equipamentos médicos e em tecnologia que podem ser transportadas para o novo espaço.

O que ficará em S. José como hospital de proximidade?
O novo hospital terá 875 camas, mais 368 camas que podem abrir, se necessário. O hospital que ficará para servir em proximidade terá de ter alguma urgência e pequena cirurgia e no máximo 300 camas. Será um hospital que drenará tudo o que é uma especialização para o novo hospital, que será super-especializado.

Não se livram das ambulâncias a transportar doentes entre hospitais, como têm agora.
Não nos livraremos das ambulâncias, mas se estabelecermos bem os critérios conseguiremos fazer isso muito melhor. E vamos poder finalmente ter radioterapia. Agora temos de encaminhar os doentes todos para o IPO.

O que mais a impressionou quando aqui chegou?
Uma é o envelhecimento do corpo médico, que dificulta muito a gestão da urgência e consolidação de equipas para um novo hospital. A outra é que nos últimos nove anos quase não houve investimento em equipamentos. Houve uma ideia, do meu ponto de vista difícil de aceitar, de que indo para um novo hospital depois tudo aconteceria. Mas em medicina não é assim. Precisamos de equipamentos modernos. O hospital tinha um projecto para captar recursos para tecnologias que rondava os 30 milhões de euros mas que foi sendo adiado.

E nos recursos humanos que falhas tem?
Ao nível dos médicos foi feita alguma renovação, mas ainda precisava de mais 50.

É difícil atrair pessoas pelas condições obsoletas?
Claro. Temos em marcha um processo de renovação da tecnologia médica. Entre o nosso investimento e os fundos europeus vamos investir mais de 30 milhões para que os profissionais ganhem mão e que se motivem. Há o risco do êxodo dos profissionais jovens também pela falta de investimento. Temos de ser capazes de lhes garantir um projecto de futuro. Se não renovo a equipa humana e a tecnologia, o que é que me espera?