Opinião

Para que serve um mestrado?

Conhecemos ainda muito pouco acerca dos benefícios da massificação do acesso a cursos de pós-graduação.

Nas últimas semanas foram muitos os alunos que nos bateram à porta do gabinete pedindo cartas de recomendação para candidaturas a mestrados. Nunca como agora foi tão evidente a motivação dos recém-licenciados por prosseguirem os seus estudos para uma pós-graduação ou mestrado.

Apesar de Portugal ainda apresentar uma percentagem inferior à média dos países da OCDE no que diz respeito à percentagem de jovens adultos que se espera que iniciem uma licenciatura ao longo da sua vida (54% vs. 59%), a mesma percentagem quanto aos que se espera que iniciem um mestrado para Portugal (36%) é significativamente superior à média dos países da OCDE (23%). Estes valores indiciam uma procura crescente por cursos de pós-graduação, procura essa que acelerou significativamente após as alterações no sistema ocorridas na sequência do processo de Bolonha, em 2006. No entanto, conhecemos ainda muito pouco acerca dos benefícios derivados desta massificação do acesso a cursos de pós-graduação, nomeadamente quanto à sua rendibilidade em termos salariais ou de empregabilidade.

Um estudo recente, realizado pelos autores e por investigadores das universidades de Aveiro, Minho e Porto (Almeida, Figueiredo, Cerejeira, Portela, Sá e Teixeira, Returns to Postgraduate Education in Portugal: Holding on to a Higher Ground?, IZA DP No. 10676), financiado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, pretendeu dar um contributo para esse conhecimento. Usando os microdados dos Quadros de Pessoal disponibilizados pelo Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, este trabalho comparou os salários e o emprego dos trabalhadores não diplomados, licenciados e diplomados com mestrado, com idades compreendidas entre 18 e 34 anos, no período de 2006 até 2012.

O primeiro conjunto de resultados não surpreendeu: ficou confirmada a tendência de diminuição do prémio salarial associada à conclusão de uma licenciatura, relativamente aos trabalhadores com o ensino secundário completo, passando a diferença na mediana da distribuição salarial de 62%, em 2006, para 53% em 2012. Esta tendência é, essencialmente, o resultado conjugado da diminuição do emprego observada nesse período, em cerca de 530 mil trabalhadores, e da expansão da população ativa com ensino superior, em quase 300 mil trabalhadores. Já o segundo conjunto de resultados mereceu uma maior atenção e reflexão: o prémio salarial associado à conclusão do mestrado face à conclusão do ensino secundário aumentou em quatro pontos percentuais (de 68% para 72%), aumentando ainda a diferença salarial de um mestre face a um licenciado de 10% em 2006 para 36% em 2012.

Apesar de haver inúmeras razões que poderão explicar este aumento do prémio associado à conclusão de uma pós-graduação relativamente a níveis de educação mais baixos, o estudo centrou-se na relevância da distribuição dos graduados e pós-graduados por diferentes tipos de ocupação ou profissões. Em primeiro lugar, foi analisado até que ponto os pós-graduados partilham o mesmo tipo de ocupações com licenciados e, se for este o caso, se os primeiros vão substituindo os segundos, à medida que aumenta o seu número. Este movimento de substituição descendente poderá significar algum tipo de desperdício de recursos em formação pois, mantendo-se o mesmo tipo de ocupações, a melhoria dos níveis de educação teria um impacto reduzido na produtividade. Em alternativa, foi analisado se os pós-graduados estão a preencher postos de trabalho de um tipo novo, devido à evolução tecnológica recente, com tarefas menos rotineiras, mais complexas e mais exigentes. Deste modo, a pós-graduação seria o nível de formação adequado para dar resposta a estas novas necessidades do mercado de trabalho.

Os resultados sugerem que foram as primeiras razões as mais relevantes. Há evidência de que um diploma de pós-graduação vai-se tornando num instrumento cada vez mais significativo para evitar o risco de um trabalhador ocupar postos de trabalho pior remunerados e menos atrativos. Ritmos distintos de mudança estrutural da economia e da oferta de competências para o mercado de trabalho levaram a efeitos significativos de deslocação na hierarquia profissional, com os diplomados com mestrado a ocuparem progressivamente os lugares dos licenciados e estes, por sua vez, a deslocarem os não-graduados para empregos de menor qualidade e menos exigentes.

Num país que ainda tem níveis relativamente baixos de escolaridade entre a sua força de trabalho e onde os graus de ensino superior têm sido tradicionalmente associados com elevados retornos, estas tendências podem levar a uma frustração crescente das expectativas, comprometendo o processo de massificação do ensino superior entre os mais jovens. Mais importante ainda, a procura por graus de pós-graduação pode igualmente derivar da sua capacidade de sinalizar as competências e capacidades, posicionando os pós-graduados em diferentes esferas competitivas, independentemente do seu valor intrínseco ou qualidade. No entanto, convém referir que, por vezes, a melhoria do capital humano precede a transformação tecnológica. A presença de pós-graduados e de licenciados em ocupações anteriormente menos exigentes poderá contribuir para a adoção de novas tecnologias a um ritmo mais rápido, retirando maior partido das suas potencialidades e, por conseguinte, contribuindo positivamente para o aumento da produtividade e da qualidade do emprego. Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho

Os autores escrevem segundo as normas do novo Acordo Ortográfico

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