Crítica Cinema

O conto da vigária

A Criada é uma história passional de vigaristas que é também um ensaio sobre a narrativa e prova da maturidade do coreano Park Chan-wook.

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Desde uma conturbada experiência hollywoodiana com Stoker (2013) que não tínhamos notícias de Park Chan-wook, o estilista que escancarou as portas para o novo cinema coreano com Oldboy (2003).

A Criada parece confirmar que é na sua “terra natal” que esta geração de cineastas se sente mais à vontade – embora adapte um romance da britânica Sarah Waters, este estonteante gótico transgressivo transferiu confidentemente a história original para o período da ocupação japonesa da Coreia e passa as suas duas horas e meia a metamorfosear-se consecutivamente “noutras coisas”.

Ora história de vigaristas em procura do golpe que lhes permita retirar-se, ora woman’s picture delirantemente excessiva, ora drama passional à volta da sede de vingança, ora filme de espionagem, ora titilante erotismo vintage, e não raras vezes tudo isto ao mesmo tempo - A Criada combina tudo isto num ensaio sobre o poder da narrativa cujas perspectivas vão rodando ao longo do filme, à volta de um triângulo amoroso formado por uma esposa-troféu, uma carteirista ambiciosa e um vigarista calculista que passam literalmente o tempo a contar histórias uns aos outros.

É um filme de uma maturidade requintada mas nunca gratuitamente vistosa, onde o virtuosismo da mise en scène quase xadrezística se apaga por trás da sensualidade explosiva que Park torna visível com uma elegância que filmes anteriores talvez não fizessem esperar.