Editorial

O pedregulho no sapato

Os que querem à força destruir a União Europeia e celebram o "Brexit" como uma vitória estrutural farão bem em analisar a polémica sobre Gibraltar – bastou um alerta sobre negociações comerciais para fazer surgir ameaças veladas de guerra, neste caso contra um membro da União Europeia.

É verdade que Gibraltar é pouco mais que um rochedo cheio de macacos, onde por acaso vivem 30 mil pessoas e subsiste uma praça financeira com uma operação interessante para o Reino Unido. Enquanto território, não é grande conquista, mas as dúvidas sobre o seu futuro foram mais do que suficientes para ressuscitar problemas velhos. Os nacionalismos do continente estão a tentar despertar, mas para isso precisam de destruir a UE. Convém lembrar que a seguir a eles vêm as guerras e as disputas territoriais, que fizeram a história do continente durante séculos e que só a União conteve.

Gibraltar pode ser um exemplo anedótico, mas há muitos mais na lista. Nem é preciso ir muito longe: as tensões regionais em Espanha estão contidas, em grande medida, pelo projecto europeu em que todos estão empenhados. Na Bélgica o cenário é o mesmo. E basta saltar Itália para chegar à base de tantos problemas étnicos no velho continente: os balcãs. Uma dissolução da União levaria em poucos anos ao mesmo desfecho em Espanha, na Bélgica e talvez até em Itália – conduziria a vários conflitos no leste do continente. Para mais, o recrudescimento dos nacionalismos iria inevitavelmente conduzir a fenómenos xenófobos graves – e convém recordar que há dezenas de milhões de muçulmanos no continente.

 É verdade que o Reino Unido sempre pensou de maneira diferente do resto do continente. E as raízes disso estão na ciência, mais concretamente na geologia. Como o PÚBLICO conta aqui, o "Brexit" original aconteceu graças ao transbordo de um lago gigante que abriu caminho ao estreito de Dover. Para este não foi preciso votar, nem sequer discutir as consequências socio-económicas. Mas foi ele que ditou a autonomia de um arquipélago que sempre vincou a diferença face ao continente. Depois de séculos de guerras e alianças, encontros e desencontros, a segunda guerra mundial e a União Europeia serviram para estabilizar uma relação muitas vezes tumultuosa. Para os próximos anos será preciso voltar a conceber políticas de vizinhança pacíficas, que evitem problemas como os de Gibraltar. Mas tudo ainda vai piorar antes de melhorar.