Jornal colombiano recruta leitores para travar difusão de notícias falsas no WhatsApp

Quer verificar os factos de uma cadeia de mensagens do WhatsApp? Primeiro, o “Detector WhatsApp” do La Silla Vacía quer que se comprometa a partilhar a verificação de factos com os seus amigos.

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WhatsApp é usado para partilhar mensagens ao estilo das cadeias de emails dos anos 1990 Nacho Doce/Reuters

Em 2016, os jornalistas colombianos enfrentaram o desafio de relatar uma das notícias mais importantes da história do país: ao fim de mais de 50 anos, o Governo colombiano e as FARC chegaram a um acordo de paz para pôr fim ao conflito que dura há várias décadas e que provocou mais de oito milhões de vítimas. Foi um momento crítico para os media, que tiveram de encontrar maneiras de explicar com clareza um processo que envolvia vários interesses políticos e que iria determinar o futuro de milhões de pessoas que exigiam verdade, justiça e indemnizações.

No entanto, os meios de comunicação tinham outro desafio: acompanhar as várias conversas que circulavam nas redes sociais, especialmente através do WhatsApp, onde se propagavam todo o tipo de histórias virais sobre as negociações. Os utilizadores partilhavam cadeias de mensagens (“cadenas”) sem compreender se as notícias que estavam a partilhar eram verdadeiras – um problema crítico, porque estas mensagens podiam mudar o sentido do voto no referendo sobre o acordo de paz entre o Governo e os rebeldes das FARC, que se realizou no país no Outono do ano passado.

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“Apercebemo-nos de que a informação que as pessoas usam para tomar decisões não é necessariamente aquela que é publicada pelos meios de comunicação,” disse Juanita León, directora do site de notícias de política colombiano La Silla Vacía. (León é uma antiga bolseira Nieman.) O La Silla Vacía tem 550 mil visitantes individuais todos os meses e é muito lido por pessoas influentes no país. “Verificar as cadeias de mensagens do WhatsApp é uma forma de nos envolvermos nas conversas em que as pessoas reais participam e de lhes dar instrumentos para formarem opiniões baseadas em factos e não em falsidades.”

Assim, o La Silla Vacía lançou o “Detector de WhatsApp”, um serviço que verifica as cadeiras de mensagens virais que circulam nesta plataforma.

Cerca de 60% dos colombianos usam o WhatsApp regularmente, de acordo com um inquérito feito pelo Ministério das Tecnologias da Informação e das Comunicações do país, e este é a segunda plataforma social mais utilizada, apenas atrás do Facebook (que, claro, é dono do WhatsApp). É difícil contabilizar o número preciso de mensagens virais que circulam na plataforma, mas conversar e fazer partilhas através do WhatsApp é uma parte habitual das vidas de muitos colombianos, que fazem circular informações entre amigos, colegas de trabalho e familiares. Todos os dias, difundem-se cadeias de mensagens que especulam sobre as vidas íntimas de celebridades, recomendam rituais mágicos ou milagrosos, anunciam catástrofes ou epidemias iminentes, ou fingem ser comunicações oficiais das autoridades. Todas estas mensagens têm uma coisa em comum: incluem um pedido urgente para o receptor partilhar a mensagem com os seus contactos, senão irá acontecer-lhe qualquer coisa de mal (vide: aqueles emails em cadeia que existiam nos anos 90 e início dos anos 2000).

Desde 30 de Janeiro, o La Silla Vacía tem uma conta no WhatsApp para onde qualquer pessoa pode enviar uma mensagem em cadeia que recebeu e que quer que seja verificada. O La Silla Vacía recebe cerca de 15 destas cadeias todas as semanas. O serviço de WhatsApp é uma extensão do “Detector de Mentiras”, que existe há vários anos no site para verificar alegações feitas por figuras poderosas da Colômbia.

Todos os dias, normalmente à noite, Juanita Vélez – a repórter do La Silla Vacía que teve a ideia de criar o Detector de WhatsApp – lê as submissões e decide quais vão ser verificadas. Os utilizadores que submetem uma cadeia para verificação dos factos têm de enviar uma captura de ecrã desta, para confirmar que a mensagem anda efectivamente a circular na rede do WhatsApp.

Qualquer pessoa pode submeter uma cadeia para verificação de factos, mas esta precisa de cumprir outros critérios antes de ser analisada pelo La Silla Vacía:

  1. Ser um assunto de interesse público: o La Silla Vacía não verifica factos de informações relacionadas com a vida de cidadãos privados;
  2. Ser sobre tópicos cobertos pelo La Silla Vacía: tem de estar relacionada com assuntos relativos ao governo e ao poder na Colômbia;
  3. A mensagem em cadeia tem de ser verificável e não apenas previsões ou teorias da conspiração.

O La Silla Vacía escolhe as mensagens que vai verificar de acordo com estes critérios e com a relevância política dos seus conteúdos (o objectivo é verificar pelo menos uma história por semana). Primeiro, seleccionam as secções da mensagem que são verificáveis, ou seja, as alegações que podem efectivamente ser comparadas com outras fontes de informação. O que se segue é a prática jornalística normal: revisão de dados, consulta de documentos, contactos a fontes que podem ajudar a verificar certas partes.

O Detector de WhatsApp baseia-se no mesmo sistema de classificação que foi desenvolvido para o Detector de Mentiras do La Silla Vacía: as secções são classificadas como “Verdadeiro”, “Falso”, “Verdadeiro, mas…”, “Discutível”, “Apressado”, “Exagerado” ou “Enganador”.

Assim que a verificação de factos fica pronta, chega o passo seguinte crucial: o La Silla Vacía envia-o ao leitor que fez o pedido e solicita-lhe que lhes envie uma captura de ecrã para provar que enviou a mensagem verificada aos contactos – tratando o “vírus” com a mesma ferramenta usada para o propagar. O La Silla Vacía orgulha-se da sua comunidade activa de leitores e pedir este tipo de compromisso está de acordo com os esforços mais generalizados do site para elevar o nível do discurso público na Colômbia.

O La Silla Vacía também publica as histórias verificadas no seu site. Já publicou histórias sobre as zonas de desmobilização das FARC, os impostos na cidade colombiana de Cúcuta, a senadora colombiana Claudia López (do partido Aliança Verde), uma greve de camionistas e a suposta promulgação da lei “Roy Barreras”. Por exemplo, a cadeia de mensagens sobre uma alegada greve que estava programada demonstra bem como certas informações começaram a circular entre utilizadores do WhatsApp antes de os meios de comunicação conseguirem lidar com elas. Portanto, para o La Silla Vacía, o trabalho também tem servido para detectar tendências e assuntos antes de os incidentes acontecerem.

Segundo León, 90% do conteúdo que verificaram acaba por se revelar falso, o que sugere que as pessoas partilham informação no WhatsApp com base nas suas emoções e interesses, e não no que sabem ser factual. Por agora, o Detector de WhatsApp só se foca nestas cadeias de mensagens, mas a equipa está a começar a estudar cadeias de vídeos e está a avaliar como poderá aplicar procedimentos semelhantes a informação que é disseminada através de mensagens áudio ou memes, outros formatos populares que se partilham no WhatsApp.

Velez acredita que o Detector de WhatsApp vai ter um impacto nos comportamentos de partilha das pessoas no dia-a-dia. “Como jornalistas, lemos estas cadeias e percebemos como são absurdas, mas isso não chega: precisamos de dizer às pessoas que essa informação é falsa”, acrescenta. “O que é óbvio para o jornalista nem sempre é óbvio para outras pessoas.”

Como a experiência do Detector de WhatsApp é relativamente recente, ainda é cedo para identificar tendências específicas ou padrões que se repetem, que possam ajudar a determinar o que cria estas cadeias e como é que elas se transmitem. Até agora, o La Silla Vacía observou uma paranóia face ao poder e às autoridades. Mas, para além disso, dentro de alguns meses a equipa espera começar a identificar características que os ajudem a determinar quem está por trás destas cadeias de mensagens e compreender como e por que razão elas são criadas.

Ainda assim, com a ascensão das fake news, a realidade, infelizmente, é que mesmo quando uma organização se esforça para verificar a informação, muitas vezes o mal já está feito e a dúvida já foi semeada.

“Não conseguimos controlar isso – no fim de contas, cada pessoa é que decide aquilo em que acredita”, disse León. “Mas estamos confiantes de que, se enviarmos uma cadeia verificada a alguém, essa pessoa vai pelo menos ter mais elementos para fazer um juízo de valor. Vai pensar duas vezes antes de continuar a circular informação falsa.”

Tradução de Rita Monteiro