Quarenta edições do Portugal Fashion em quatro momentos

Do nariz empinado de Claudia Schiffer ao nascimento dos jovens do Bloom, histórias do evento portuense que cresceu para além do Norte.

Foto
Portugal Fashion de 2007 nFACTOS / Fernando Veludo

O 40.º Portugal Fashion começa esta quarta-feira em Lisboa. Começou no Porto com um pé na indústria e outro no espectáculo, das top models internacionais às tentativas de internacionalizar os criadores portugueses. Nos últimos anos estendeu-se a Lisboa e tanto tenta criar uma incubadora de jovens talentos quanto engrossar o seu cartaz.

1995 - Claudia Schiffer über alles

Era uma estreia caseira, mas a apelar ao mundo: nos jardins da sede da Associação Nacional dos Jovens Empresários (ANJE), que agora com a Associação Têxtil e Vestuário de Portugal organiza o Portugal Fashion, desfilavam as amazonas. Claudia Schiffer über alles, a top model alemã que cobrou mais de cem mil euros (em moeda actual), para desfilar no primeiro Portugal Fashion, à qual se juntariam nessa e nas estações seguintes Elle McPherson, Linda Evangelista, Carla Bruni ou Mark Vanderloo. O objectivo de convidar tais superestrelas para um evento emergente no Porto era evidente. Na década em que as modelos valiam mais do que os designers ou as estrelas de Hollywood, queria-se fazer falar de Portugal no estrangeiro, mostrar a indústria à boleia de um evento de moda. Quatro anos antes, tinha nascido a ModaLisboa, mais ligada à cultura de moda autoral e às comunidades artísticas. As top vieram ser “cabeças de cartaz” do Portugal Fashion, identificadas assim pela imprensa como se de um festival de música se tratasse — e o Portugal Fashion terminou mesmo com uma actuação de La Toya Jackson. Na 2.ª edição, um incêndio no Coliseu do Porto suspendeu o evento durante um mês e ele regressou depois com Eva Herzigova ou a “simpática” Valeria Mazza – por oposição a Schiffer, descrita à época como carrancuda e dona de “exigências patéticas como desfilar de saltos altos”, como escreveu o Diário de Notícias. Anos mais tarde, o então presidente da ANJE, Armindo Monteiro, constatava que tantas top models "desfocavam o restante evento" do seu fim — a moda.

PÚBLICO -
Foto
Claudia Schiffer com Nuno Gama em 1996 no final de um desfile no Portugal Fashion FERNANDO VELUDO

1999 – O sonho da internacionalização

“Com o Portugal Fashion, mais holofotes iluminavam ainda mais a moda portuguesa, projectando-a além fronteiras”, escreve Tó Romano, director da Central Models, a propósito de duas décadas de moda em Portugal desde o final dos anos 1980. Foi em 1999 que o evento começou a tentar a difícil afirmação da moda portuguesa no mercado internacional, sobretudo através dos expedientes que usa até hoje – desfiles em eventos periféricos dos calendários oficiais das grandes semanas de moda (Paris, Londres, Milão, Nova Iorque), em semanas de moda de países estratégicos (Barcelona, Madrid, São Paulo), convites à imprensa local e a alguns potenciais compradores e, agora, o regresso ao apoio à presença de alguns designers em feiras do sector através do programa NextStep. Apoia-se agora no programa Compete do quadro comunitário Portugal 2020 e na década anterior dependia em 75% do programa estatal Prime. Esse é, aliás, um dos chamarizes criadores que, ano após ano, têm dado exclusividade ao evento da ANJE. O resultado dessas iniciativas não é quantificado, sendo que, segundo a ANJE disse ao PÚBLICO, a operação no estrangeiro tem um milhão de euros alocado por semestre. E se muitas vezes o impacto junto dos media e do mercado internacional é residual, como escrevia o Expresso em 2006, o Portugal Fashion associou-se a duas lanças portuguesas em Paris, integradas no calendário oficial daquela cidade — Felipe Oliveira Baptista (pronto-a-vestir e alta-costura), actual director criativo da Lacoste, e Fátima Lopes (pronto-a-vestir) que já não estão ligados ao evento.

PÚBLICO -
Foto
Colecção alta-costura de Felipe Oliveira Baptista em Paris, Junho de 2008 PIERRE VERDY/AFP

2007 – Porto, Lisboa, e agora?

Com a idade, o Portugal Fashion não cresceu só para o estrangeiro. Começou também a tactear o território da capital, trazendo a certa altura Felipe Oliveira Baptista ao Pavilhão Atlântico ou começando, pela primeira vez em Março de 2012 os seus dias de moda em Lisboa. Num país com a dimensão de Portugal e com uma cultura de moda ainda em fase de afirmação, a existência de dois eventos de moda distintos, um com mais espaço para a indústria do vestuário e calçado a par de alguns autores e outro eminentemente autoral, causou sempre alguma estranheza nos observadores internacionais e mesmo nos portugueses. Em 2007 tentou-se uma abordagem diferente e o ICEP-Instituto das Empresas para os Mercados Externos criou uma Fashion Week2 Porto-Lisboa que unia ModaLisboa e Portugal Fashion. Durou essa semana, em Março, notou-se sobretudo no papel e não teve continuidade. Nos tempos seguintes, os dois eventos falavam de abertura à colaboração, mas desde 2014 a situação inverteu-se: vários criadores do elenco mais conhecido da moda portuguesa (primeiro Nuno Baltazar e Luís Buchinho — que em 2004 tinham por seu turno abandonado o Portugal Fashion queixando-se das exigências da organização para voltarem anos depois —, seguidos de Miguel Vieira, Alexandra Moura, Pedro Pedro e Carlos Gil) remeteram-se exclusivamente ao evento nortenho que continua a arrancar em Lisboa.  

PÚBLICO -
Foto
Preparativos da Fashion Week2 Porto-Lisboa, em Lisboa PAULO PIMENTA

2010 – Jovens que fazem Bloom

O espaço Bloom tem um valor consensual no evento e, na estação passada, autonomizou-se mesmo com um dia próprio no calendário. Miguel Flor, designer, professor e nos últimos anos um mentor de alguns dos mais interessantes novos talentos da moda feita em Portugal, coordenou desde 2010 o Bloom no Portugal Fashion. Descreveu-se ao PÚBLICO como “curador” destes recém-licenciados ou iniciados que ajudou a desfilar, encenar e também pensar em gestão ou posicionamento no mercado. Agora, passou o testemunho ao também designer e professor Paulo Cravo, depois de ter nascido numa altura em que outras plataformas ou concursos do género estavam congelados. O Bloom é um trampolim para designers se mostrarem à imprensa nacional e internacional em Portugal e ao público estrangeiro ao alcance do qual o Bloom tenta colocar os designers mais adequados – Hugo Costa e Daniela Barros são alguns dos jovens designers que já ganharam dimensão em eventos fora de Portugal, e se graduaram do Bloom. 

PÚBLICO -
Foto
Hugo Costa e modelos com a sua colecção no Portugal Fashion de Outubro de 2011 FERNANDO VELUDO