Opinião

Ecologia global – os simplismos

Talvez o fundamentalismo, a pobreza e a corrupção política e ideológica da causa ecologista sejam, frequentemente, as maiores ameaças que dificultam a adoção de medidas que realmente funcionem.

Em 1984 ocorreu o maior desastre ecológico industrial em Bhopal, na Índia. Um acidente numa fábrica de pesticidas induziu uma fuga de gás tóxico que, naquela cidade de meio milhão de habitantes, provocou a morte imediata de 4 mil pessoas, número que até hoje, por implicações a prazo, ascende talvez a mais de 12 mil mortos.

Esse drama não só traduz os riscos inerentes à evolução tecnológica da civilização humana como também ilustra o paradoxal facto de, por vezes, serem os avanços que salvam muitas vidas que podem também levar à perda de outras. De facto, a fábrica de Bhopal produzia pesticidas que viabilizaram crescimentos de produtividade agrícola e alimentar que salvaram da morte por fome muitos milhões de seres humanos. No confortável e rico Ocidente gostamos de acreditar que os “produtos biológicos” em moda em estabelecimentos culturalmente chiques, sem uso de pesticidas, deveriam ser a imediata opção da Humanidade. Mas a maioria da população mundial, que aumentou sete vezes nos últimos dois séculos, não tem capacidade para adquirir tais produtos caros, provenientes de pequenas produções. A sobrevivência de milhares de milhões de pessoas só foi possível com alimentos produzidos em quantidades gigantescas, todos os dias, a preços muito baixos, a uma escala que não teria sido possível sem pesticidas. Também subscrevo a preferência por alimentos sem o seu uso. Mas não devemos ignorar que as realidades do mundo são mais complexas.

A dificuldade de equilibrar a modernização com a conservação ambiental e de compatibilizar a sobrevivência das populações com a sustentabilidade representa, infelizmente, um dilema profundo que não conhece respostas lineares ou simples.

O desmatamento das florestas tropicais, para além de interesses internacionais e da corrupção dos governos locais, é também frequentemente efetuado pelas próprias populações. Conheço a Amazónia e sou um ambientalista de longa data, por convicção, não por conveniente moda. Mas, contrariamente àqueles que imaginam que também na Amazónia a desflorestação é obra de tenebrosos interesses económicos (o que é parcialmente verdade), sei que a maioria dos fogos e desflorestações em várias regiões é provocada por grupos “sem-terra”, miseráveis, com fome, em desespero de sobrevivência, sem perspetivas de vida nem de futuro, que veem num pedaço de floresta sem dono, que pode emergir de uma área desmatada como solo agrícola, a sua possibilidade de cultivar um pouco, sobreviver e ter uma vida ainda pobre mas com uma dignidade mínima. Quando a fina camada de terra fértil é erodida, desmatam um pouco mais e assim sucessivamente. Noutras regiões do mundo a situação é comparável. No Brasil vivem dezenas de milhões de pessoas com menos de um dólar por dia. A miséria é uma ameaça ao ambiente.

Essa destruição das florestas tropicais por locais só é evitável com condições alternativas de sobrevivência sustentável, que são financeira, económica e logisticamente complexas. A pura ganância não é exclusiva de longínquas empresas demoníacas mas, isso sim, dos homens em geral, e atinge também muitos habitantes locais que, subitamente, compreendem que o abate da floresta pode render-lhes receitas que nunca imaginaram ser-lhes possíveis.

Hoje preocupamo-nos com a preservação das florestas tropicais após as florestas da Europa, que praticamente a cobriam, já terem sido dizimadas para dar lugar ao nosso atual bem-estar económico.

Na Malásia, nas primeiras décadas de explosão económica, existiu alguma tensão entre os interesses de exploração comercial das florestas e uma grande parte da opinião pública da classe média. Mas uma tribo, a dos Orang Asli, adoptava uma forma de atividade agrícola flutuante que ia destruindo a floresta, de uma forma incompatível com a inclusão da sua área numa vasta zona de floresta legalmente declarada protegida pelo governo. Com uma lei especial de 1974 esta tribo foi autorizada a formas sustentáveis de exploração dos recursos da floresta, mas a sua atuação anti-ambiental foi recorrente e tornou-se mais tensa quando esta tribo começou a realizar negócios ilegais de madeira com intermediários externos. O dinheiro é uma tentação para os homens em todo o mundo, mesmo no seio da natureza. Raramente é verdadeira a visão bucólica e romântica de tribos que pretendem permanecer na pureza pré-histórica fora da civilização.

Incontestavelmente, a consciencialização ambiental é hoje muito superior à que existia há apenas três décadas, o que é muito importante. Mas a defesa ambiental não pode ser um ato de fundamentalistas na moda, que usam a imagem simpática dos valores ambientais para entrarem na política ou para se mediatizarem facilmente com demagogias. O fundamentalismo pseudo-ecológico acaba por obstaculizar e sabotar soluções de compromisso que contribuiriam para realistas evoluções incrementais da proteção ambiental.

Para além daqueles que pouco se preocupam com o ambiente e daqueles que exploram esta causa para se promoverem e que julgam que o melhor ambientalista é o que se mostra mais radical e verbalmente fanático, existe um espaço para os verdadeiros ambientalistas que, mais que fazer alarde exibicionista, desejam realmente ajudar a encontrar soluções. A sensatez e a noção interdisciplinar de tudo o que de alguma forma interage com a conservação ambiental são vitais. Por outro lado, não existem soluções perfeitas.

O ambientalismo não pode ser sequestrado pelo universo partidário. Se a defesa ambiental é condicionada por simpatias ou antipatias políticas, por interesses de poder, por alianças e estratégias de votos, eleições, carreiras políticas ou interesses não estritamente ambientais, a causa ecológica perde objetividade e torna-se corrupta. Nesse caso, o ambiente passa a ser não uma verdadeira causa sincera mas uma conveniente bandeira instrumental para ganhar votos, protagonismos políticos e pessoais e poder puro. A hipocrisia instala-se. A corrupção política também.

Com toda a razão, muitos se insurgiram quando o petroleiro Prestige naufragou em 2002 e assim contaminou o oceano e costas ibéricas com petróleo. Foi um acidente, não um ato deliberado. Mas alguns dos que usaram o drama do Prestige por aproveitamento político e por exibicionismo pessoal terão alguma dificuldade em explicar por que motivo não se agitaram com a mesma energia quanto a Saddam Hussein. Este, o maior criminoso ambiental da história da humanidade, após ser expulso do invadido Kuwait incendiou cerca de 700 poços de petróleo que durante oito meses arderam pavorosamente e poluíram gravemente a atmosfera terrestre e cobriram metade do hemisfério norte lançando no ar 3400 toneladas de partículas de carbono por dia. Também aqueles “ecologistas” não se agitaram quando Saddam derramou, fria e deliberadamente, nos frágeis ecossistemas marinhos do Golfo Pérsico, uma quantidade de petróleo muitíssimo superior à que o Prestige derramou (o Prestige por acidente, Saddam por maldade). Foram sabotados outros 46 poços que verteram 350 mil barris de petróleo por dia durante oito meses, criando 300 imensos lagos negros em terra. Este é o criminoso Saddam que seria protegido por muitos que, no Ocidente, cinicamente invocam a paz e a ecologia.

Talvez o fundamentalismo, a pobreza e a corrupção política e ideológica da causa ecologista sejam, frequentemente, as maiores ameaças que dificultam a adoção de medidas que realmente funcionem.

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