Há 18 anos a lançar frases que “desesperam” os escritores

Correntes d’ Escritas realizou-se esta semana na Póvoa de Varzim. Mais uma edição a aproximar quem escreve de quem lê. Imaginou-se Hélia Correia de vassoura na mão a correr atrás de metáforas e cantou-se Sérgio Godinho, que tem um verso que salva crianças. Mas não sabia

A Póvoa de Varzim voltou encher-se de público para sorver, ouvir e debater literatura
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A Póvoa de Varzim voltou encher-se de público para sorver, ouvir e debater literatura DR

Encontro literário internacional pioneiro no país, as Correntes d’Escritas têm por tradição organizar as mesas à volta de frases que os convidados invariavelmente consideram “enigmáticas” e “angustiantes”. Os escritores chegam a suspeitar de que é uma forma de a organização os “castigar”.

Álvaro Laborinho Lúcio criou mesmo para esta edição um texto a que chamou “A pequena história de uma grande angústia”, depois de receber o mote para a mesa em que iria participar: “A única ciência é a realidade que as imagens inventam.” Mas foi esta citação a “culpada” de um Cine-Teatro Garrett completamente cheio poder desfrutar, na sexta-feira à noite, de uma comunicação brilhante, em que o ex-ministro da Justiça descreveu o seu percurso de construção/desconstrução da frase proposta, pois queria chegar às Correntes d’Escritas com algo legível. E conseguiu.

As frases escolhidas pretendem ser “uma provocação e um estímulo”, diz ao PÚBLICO Manuela Ribeiro, da organização do encontro há 18 anos, e a verdade é que o “esforço” e “desespero” dos autores para corresponder ao que lhes é pedido leva a que “surjam textos e pensamentos muito interessantes”.

Não se ofende “com as reclamações” e explica: “Se eu os orientar demasiado, vão dizer todos a mesma coisa. O público vai achar uma chatice e esse não é o objectivo. Queremos que seja de tal forma enigmático que cada um encontre uma forma de sair dali. Tal como na literatura, que não se faz toda da mesma forma.”

O jogo e as palavras

Este ano houve oito frases retiradas dos oito livros finalistas do prémio, os outros temas foram inventados pela equipa que organiza as Correntes. “Quisemos trabalhar as citações, o jogo e as palavras. Porque o Casino da Póvoa nos patrocina há 18 anos”, recorda e justifica dessa forma a presença de uma máquina do Casino no palco do cine-teatro.

Quando os convidados perguntam o que é que as frases significam, responde: “Aquilo que entenderem.” É apenas o mote. “Se o autor estiver no Porto, lhe apetecer ir até à China para depois virar para a Póvoa de Varzim, é com ele. Não me interessa o percurso, desde que chegue lá. Pode ter demorado 20 ou 50 horas a fazê-lo, mas se depois puder contar o percurso em dez ou 12 minutos, é bom. Mas isto obriga-o a trabalhar”, diz Manuela Ribeiro.

O mesmo para os lançamentos de livros, que têm de ser apresentados entre oito e dez minutos: “Temos de nos preparar. Podemos lançar um livro em duas horas e não dizer nada. Se o tiverem de sintetizar em oito minutos, têm de saber muito bem o que têm para dizer. É como na publicidade. Só funciona se for rápida, apelativa, eficaz, imediata. Se estiverem a falar duas horas sobre o livro, eu já me cansei do livro e ainda não o li.”

A fórmula tem resultado e a organizadora considera até que os “protestos” acabam por ser uma forma de lhe darem razão no final.

David Machado, por exemplo, contou durante a sua sessão que começou por ficar zangado com o tema que lhe caíra em sorte: “Sempre tudo esteve escrito desde sempre.” No entanto, ao terminar, agradeceu a provocação. Foi este desafio que o levou, ao fim de muito tempo, “a conseguir transformar uma pessoa [da sua infância] em personagem”, o Joca.

O autor de Índice Médio de Felicidade afirmou ainda, ancorado no mote, que “graças à escrita é possível mudar o passado”, lembrando que “o que estava escrito deixa de estar” e até se propôs a um dia “contar a história de um Joca diferente, a querer alterar o seu destino”.

Laborinho Lúcio — que publicou dois livros de ficção, O Chamador e O Homem Que Escrevia Azulejos, tem dificuldade em considerar-se escritor, mas grande vontade de o ser — não terá ido “à China antes de virar para a Póvoa”, mas deu largas voltas até descodificar a frase de partida.

Das janelas de Lisboa, que “não existiriam antes da Maluda”, ao “nevoeiro de Londres”, que só terá surgido “depois de o pintor [James] Whistler o ter retratado em tela”, e mesmo “o romantismo, que não existia antes dos romances de amor”, relatou a sua (agora) perplexidade em entender a definição de Michel Foucault para o invisível, depois de se debruçar sobre as imagens de Blanchot. Ei-la: “A ficção consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer ver como é invisível a invisibilidade do visível.”

O momento da leitura desta explicação do filósofo e historiador Foucault foi um dos mais hilariantes, com o conferencista a recordar o que pensou enquanto preparava a comunicação: “Eu hei-de perceber o que isto quer dizer até às Correntes d’Escritas.”

Gedeão e o Código Civil

O também jurista gostou de ter recuperado a ideia de que “aquilo que hoje está provado foi ontem imaginado”, falou da “ascensão social da ignorância”, comparou-a com “a do tamboril”, onde a importância maior provém “do arroz”, e, numa alucinação, contou ter visto, “de vassoura na mão, Hélia Correia a correr atrás da metáfora”.

Seguiu depois para os Açores, onde “as baratas voam e têm cor de ouro velho” e pensou que “as metáforas eram lugares para onde voavam as palavras”. Decidiu então que era preciso “combater os ladrões das palavras e os violadores das metáforas”.

Ainda passou pela Calçada de Carriche, misturando, num modo divertido e crítico, as palavras de António Gedeão (“Luísa sobe, sobe a calçada, sobe e não pode que vai cansada…”) ao texto do Código Civil (artigo de casamento: “Contrato celebrado entre duas pessoas…”).

E seguiu ainda com Gedeão: “Inútil seguir vizinhos,/ querer ser depois ou ser antes./ Cada um é seus caminhos./ Onde Sancho vê moinhos/ D. Quixote vê gigantes./ Vê moinhos? São moinhos./ Vê gigantes? São gigantes.” Para concluir que este poema é absolutamente igual a dizer que “a única ciência é a realidade que as imagens inventam”. O mote de onde foi obrigado a partir pelas Correntes d’Escritas.

Nesta mesa participaram também Alexandra Lucas Coelho, Clara Ferreira Alves, Jordi Llobregat e José Manuel Fajardo, moderados por Francisco José Viegas.

Fé e literatura

“Apenas a certeza de que nenhum verso salvará ninguém” foi o texto retirado do livro Animais Feridos, da autoria de António Carlos Cortez. Serviu para pôr João de Melo, Miguel-Manso, Ondjaki e Sérgio Godinho a pensar, com moderação de Anabela Mota Ribeiro.

Para João de Melo, “ainda estamos no tempo do romantismo e acreditamos na salvação pela linguagem”, sobretudo através “da poesia”. O autor açoriano contou que a literatura veio substituir-lhe a religião, porque perdeu a fé. A literatura permite-lhe “pegar na primeira religião e subvertê-la, contestá-la e ridicularizá-la, numa esperança total de, pela palavra e pela linguagem, chegar a algum lado”.

Miguel-Manso, impreparado para a sessão, teve de ser “salvo” pelo seu poema Anti mundo. Ali se explora um episódio passado com uma criança que ao abrir um caixote de lixo é surpreendida com a ascensão de um balão branco que não consegue deter. Uma alegria efémera, seguida de tristeza, que um poema talvez pudesse remediar. O poema foi criado a pedido dessa criança, enteada do autor.

Ondjaki fez o que sabe fazer, contar histórias. Lembrou ter já sido salvo por muitas palavras e valorizou os textos que aparecem “cheios de amigos”.

Disse que “as pessoas são como canoas, mas ao contrário: limpa-se muito a parte de fora e o caruncho cresce na parte de dentro” e ainda que “contar não é apenas lembrar nem reviver, é uma homenagem que se presta à relação entre a vida e as pessoas”. Aplauso para a história final, a de um coveiro que não enterrava mortos. O que fazia era ler-lhes livros trazidos pelas famílias. Isto porque “as histórias são maiores do que a morte”.

Sérgio Godinho contou que, no seu processo criativo, começa “pela música e depois a palavra já se vem deitar numa cama musical”. Desconfia da salvação pela palavra, “a Boa Nova”, e diz ter aprendido que “ninguém salva ninguém, nenhum verso”. Ainda assim, acabou por ler um seu poema, Corpo à tona, que parece caminhar noutro sentido: “Algum verso salvou alguém, nem que esse alguém tenha sido eu mesmo.”

O autor da frase que serviu de mote a esta mesa estava presente na audiência, interveio, agradeceu a escolha, leu um poema e ainda pôs a sala a cantar Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida, de Sérgio Godinho.

Na plateia, uma médica pediatra usou da palavra para informar que tratava de crianças com obesidade: “Quando elas chegam ao consultório, digo-lhes: ‘O peso que tinhas antes não interessa. Hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.’” Se elas ficarem mais leves, foram salvas por um poema.

O Correntes d’Escritas 2017 tem ainda nesta segunda-feira uma mesa no Instituto Cervantes em Lisboa, às 18h, com a participação de Alberto Barrera Tyszka (Venezuela), Claudia Piñeiro (Argentina), Jordi Llobregat (Espanha) Ondjaki (Angola) e Teolinda Gersão (Portugal). Tema: “Escrevo nomeando tudo e tudo transcende o nome que tem.” Seja.