Crítica

O melhor de La La Land é o pior de nós

La La Land semeia posters e paredes pintadas com “filmes antigos”. Mostra salas de cinema “antigas” que fecham. É toda uma fachada de nostalgia que é um confortável programa de esquecimento.

<i>La La Land</i>: um programa de nostalgia que se alimenta do esquecimento
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La La Land: um programa de nostalgia que se alimenta do esquecimento
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Há um momento revelador — como quando alguém se despe — do raquitismo de La La Land: a dado momento, um pedaço de Fúria de Viver (1955), de Nicholas Ray, a sequência em que James Dean entra no Observatório de Griffith Park e uma voz anuncia nova estrela no céu, é exibido na colecção vintage e de posters do passado que forma o filme de Damien Chazelle. O realizador vê-se aflito para responder ao que desencadeou. O melhor que consegue, perante a promessa de explosão cósmica que o Fúria de Viver pedia, é recortar as silhuetas dos esforçados mas pobrezinhos Ryan Gosling e Emma Stone no céu estrelado de Griffith Park: é audiovisual rétro, como um envergonhado Baz Lurhmann (sim, para o chic chunga já houve Strictly Ballroom, 1992).

Ryan é músico de jazz, Emma aspirante a actriz. Chocam entre cenários e estúdios de cinema enquanto tentam furar para chegar lá acima, e toda a gente percebe como acaba. Lembrem-se de Robert de Niro e de Liza Minnelli no New York, New York, de Martin Scorsese... Mas será que alguém se lembra da turbulência dessa conjugalidade, da violência da união entre realismo e artifício, do cinema com que ali, nos idos de 70, se violentava o espectador e este se aguentava? Se alguém se lembra ou se interessa pela memória, como é possível suportar a afectação de ingenuidade de La La Land, ou será que ela só se aguenta, e o filme só se aguenta, quando nos esquecemos?

La La Land vai semeando posters e paredes pintadas com “filmes antigos”. Mostra salas de cinema “antigas” que fecham. Calcula nos diálogos o espaço para o name-dropping (de jazz, para ele; da Hollywood clássica, para ela). Toda esta fachada de nostalgia é um confortável programa de esquecimento. O filme só é o “melhor” com o nosso “pior” de espectadores.

La La Land é o filme de que se fala, pelo menos desde Setembro quando, destacado para abrir Veneza, os programadores do festival anunciavam um novo horizonte de possibilidades para o musical. (“La La Land não é apenas um filme que reinventa o género musical, coloca-o num novo ponto de partida”, disse Alberto Barbera). Barbera & Ca, paroquiais, foram encandeados pelos posters e esqueceram-se de muita coisa, por exemplo do One from the Heart, de Coppola, filme que mesmo ferido de morte olhava para o futuro, acreditando de forma suicidária no início de uma coisa “nova”, musical ou não, e não fazia turismo pelo passado.

La La Land é o filme de que se continua a falar, agora que até é alvo de um efeito de backlash, porque, nomeado aos Óscares, a sua proposta é vista como refractária aos desígnios de integração expressos nas nomeações de filmes como Elementos Secretos, Moonlight ou Vedações. Aquele seria o filme com nostalgia do “antigo”, estes os filmes com vibração de realidade e do “actual”. Depois de contabilidades várias — sendo a personagem principal um músico de jazz, perguntou-se, como é possível ser um filme de maioria branca? –, La La Land começa a ser chumbado por algumas opiniões. Mais um pouco — ainda, o facto de ser sempre ele, Gosling, que estabelece o programa dela, Stone, logo aí seria também reaccionário — e quase arvorado a porta-estandarte da América de Trump. Pobrezinho filme, pobres argumentos e pobres de nós espectadores, confusos, amedrontados, perdidos e de olhar pouco liberto das convenções. Afinal, e se não contarmos com a contabilidade, Moonlight, Vedações ou Elementos Secretos são tão vergados a uma fórmula como La La Land. O que é irónico nisto — e talvez não... — é que estando todos satisfeitos pela diversidade das cores incluídas, o conjunto não podia ser menos diverso, não podia ser mais conformista. Não há por onde escapar nestes Óscares.