A noiva rica e “tímida” que recusou 65 propostas de casamento

The New York Times está a recuperar anúncios e notícias de casamentos que vem publicando desde 1851.

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Mary Landon Baker, em 1922 The New York Times

Mary Landon Baker (1900-1961), uma americana filha de um financeiro rico de Chicago, teve uma infância difícil, com uma doença que a afectou e quase tornou inválida entre os sete e os 12 anos. Mas será que isso explica o facto de, em adulta, se ter tornado famosa por ter abandonado o seu primeiro noivo em pleno altar e ter depois recusado mais de meia centena de pretendentes e propostas de casamento?

A questão atravessou várias décadas da primeira metade do século XX, e foi tema de notícias, artigos e entrevistas jornalísticas, tanto nos Estados Unidos como na Europa, onde Mary Baker viveu os seus últimos 30 anos.

A história desta milionária celibatária é agora recordada pelo The New York Times (NYT) que, com o projecto Comitted [Comprometido], se propõe recuperar, ao longo de um mês, 165 anos da sua história, e com ela parte da história da América, a partir dos anúncios e notícias de casamento que foi publicando desde o seu primeiro número, lançado no dia 18 de Setembro de 1851.

Voltemos a Mary Landon Baker. No dia 2 de Janeiro de 1922, a 4.ª Igreja Presbiteriana de Chicago estava cheia de elegantes e bem vestidos convidados para o seu casamento com Allister McCormick, um ex-membro da Força Aérea americana, recém-chegado da Irlanda. Mas, à hora aprazada para a cerimónia, ainda em casa e já vestida de noiva, a jovem Mary olhou-se ao espelho e exclamou: “Não consigo levar isto por diante”.

Num artigo de 1956 em que recorda o episódio, o Chicago Tribune entrevista Mary Baker na sua casa em Runnymede, a oeste de Londres, que refere o apoio que a mãe então lhe deu: “Só deves fazer o que achares que é melhor para ti, querida”.

Depois de ter devolvido o anel de noivado (uma safira Cartier), e prendas de casamento avaliadas em 100 mil dólares, Mary Baker achou que o melhor era mesmo manter-se solteira e livre.

É verdade que, depois de ter recuperado integralmente da doença que lhe marcou a infância, a jovem herdeira rica, filha do financeiro Alfred Landon Baker, foi coleccionando amizades e pretendentes: um actor, George Swan, ex-membro da Legião Estrangeira em França; Alexander Vlad, um príncipe romeno que era o seu parceiro de bailes; Henry Shanon III, futuro membro do Parlamento inglês; ou Osborne Wood, filho do governador das Filipinas, foram alguns deles.

Mas desde a sua juventude que Allister McCormick, seu conterrâneo de Chicago, foi sempre sendo visto como a sua “sombra”, acompanhando-a a todo o momento. Em Fevereiro de 1921, ficaram noivos; um ano depois, aconteceu o episódio já referido – Allister acabou por casar com uma londrina, mas manteve a sua amizade com Mary ao longo da vida, dizem as crónicas.

Segundo os jornais, foram 65 os candidatos que a herdeira desprezou ao longo da sua vida. A dada altura, foi mesmo apelidada pelos jornais de “a herdeira tímida”, mas também houve quem passasse a utilizar a expressão “Mary Bakered” para designar alguém que tinha faltado a uma festa.

Em 1927, com a morte do pai, Mary Baker solidificou o estatuto de milionária, e os pretendentes continuaram a mostrar-se. Mas aquela que também foi conhecida como “Princesa do dólar” manteve-se irredutível. A imprensa cita várias justificações de Mary Parker para a sua opção de vida. “Antes recusar do que acabar por me divorciar”, disse uma vez, referindo-se a “esses frívolos anos 20”. Noutros momento apresentou justificações mais politicamente correctas, do género: “Nunca estive apaixonada”, ou “Não me casei porque não cheguei a encontrar o homem certo, no momento certo, no lugar certo”.

Retratos da vida real

Na primeira série de artigos recuperados e actualizados pelo NYT, recorda-se a notícia surgida logo no primeiro número do diário, a 18 de Setembro de 1851, quando se chamava The New York Daily Times. O casal protagonista foi Sarah Mullet-John Grant, respectivamente com 23 e 26 anos, numa cerimónia realizada na Igreja Episcopal da Trindade em Fredonia, a oeste de Nova Iorque. Eram ambos originários de famílias proeminentes, sendo John primo de Ulysses S. Grant (1822-1885), futuro Presidente americano.

O NYT foi agora a New Haven a casa de uma descendente do casal, Wendy Grant Haskel, trineta dos Grants. O retrato do casal John-Sara está pendurado na parede, com ambos vestidos de preto e de expressão fechada. “Acho que o retrato foi pintado logo após o casamento, e eles querem mostrar uma imagem de importância, status, prestígio”, disse Wendy ao diário.

Outro casamento de prestígio recordado pelo NYT é o de Eleanor Roosevelt e Franklin Delano Roosevelt (1882-1945) – outro futuro Presidente americano –, na edição de 18 de Março de 1905. Mas há também relatos de personagens menos mediáticos, e da vida real, como a história “Da sepultura para o altar no mesmo dia”: na edição de 5 de Fevereiro de 1906, o NYT conta a história de Alice Sewell, uma senhora de Swainsborough, que num espaço de um mês perdeu o marido, vitimado por doença inesperada. No mesmo dia do funeral, a viúva dirigiu-se ao escritório de um juiz, acompanhado por um amigo de longa data da família, Robert McDaniel, e casaram-se ambos.