Interface cérebro-computador permite que doentes paralisados comuniquem

Pessoas com a síndrome do encarceramento total (sem movimentos oculares) conseguiram responder a perguntas de "sim" e "não" através das ondas cerebrais.

Os pacientes dizem estar felizes, apesar da sua doença
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Os doentes contaram que estavam felizes, apesar da sua doença Reuters

Um grupo de cientistas desenvolveu uma interface cérebro-computador capaz de ler os níveis de oxigénio no sangue, permitindo a comunicação pela descodificação do pensamento dos doentes que estão totalmente paralisados e impossibilitados de falar.

Num teste com quatro doentes com síndrome do encarceramento total – isto é, pessoas que estão completamente incapacitadas de mover os olhos para comunicar –, este sistema ajudou-os a usar as ondas cerebrais enquanto pensavam para responder com “sim” e “não” às perguntas que lhes foram colocadas. Considera-se que as pessoas que estão totalmente paralisadas, mas que ainda mantêm os movimentos oculares (que lhes permitem piscar e mover os olhos para cima e para baixo), têm síndrome do encarceramento. Se todos os tipos de movimento forem perdidos, a síndrome passa a ser de encarceramento total.

Os investigadores que estiveram à frente deste teste perceberam que a interface cérebro-computador, que não é invasiva, podia transformar a vida destes doentes, permitindo que expressassem sentimentos e opiniões aos seus familiares e cuidadores. Contrariamente ao esperado, os investigadores afirmaram que os pacientes diziam estar “felizes” apesar da sua doença.

“Estes resultados surpreendentes derrubam a minha teoria de que as pessoas com síndrome de encarceramento total não são capazes de comunicar”, disse Niels Birbaumer, um neurocientista do Centro Wyss de Bio e Neuroengenharia, na Suíça, um dos líderes do estudo. O teste, publicado na revista PLOS Biology na terça-feira, envolveu quatro doentes com esclerose lateral amiotrófica (ELA) – uma doença neurodegenerativa que destrói parte do sistema nervoso responsável pelo movimento. Dois dos doentes tinham síndrome de encarceramento total e os outros dois estavam a começar a entrar nesse estado, sem qualquer meio de comunicação confiável. 

Os investigadores fizeram perguntas pessoais com respostas conhecidas, como “o nome do seu marido é Joachim?”, e outras questões abertas que requeriam respostas de "sim" e "não", como “está feliz?”.

A técnica da interface cérebro-computador usa tecnologias como a espectroscopia de infravermelhos e a electroencefalografia para medir a oxigenação do cérebro e a sua actividade eléctrica. “Esta máquina regista o fluxo de sangue… Calcula as mudanças durante o 'sim' e o 'não' e o computador desenvolve uma ideia, um padrão”, disse Birbaumer à agência Reuters. “Depois de algum tempo, sabemos o que o doente está a pensar e quando pensa 'sim' ou 'não', e daí conseguimos calcular a resposta.”

As perguntas “conhecidas” suscitaram respostas correctas sete vezes, entre dez. A resposta à questão “está feliz?” resultou numa resposta afirmativa consistente pelas quatro pessoas, repetida ao longo de várias semanas.

John Donoghue, director do Centro Wyss, considerou que o trabalho era “um primeiro passo crucial no desafio de recuperar movimento” para os doentes com síndrome de encarceramento total. Acrescentou que a sua equipa tem planos para trabalhar sobre estes resultados e desenvolver a tecnologia necessária, para que um dia possa estar disponível para as pessoas com paralisia resultante da esclerose lateral amiotrófica, de um AVC ou ferimento na medula espinal.