Entrevista

“Tivemos doentes internados três anos por não terem para onde ir”

O presidente do Hospital Fernando da Fonseca reconhece que o estabelecimento é um "patinho feio" pela "má fama" das urgências e promete alterar essa realidade. Começou, por exemplo, por arranjar camas fora do hospital para os casos sociais. Mas é o hospital que tem de pagar.

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Rui Gaudêncio

O Hospital Fernando da Fonseca foi criado para servir 350 mil pessoas e dá resposta a 600 mil. Também conhecido como Amadora-Sintra, aparece frequentemente nas notícias pelo caos nas urgências. Começou como hospital público, passou a parceria público privada (PPP) e regressou em 2009 à gestão pública. Francisco Velez Roxo tem 64 anos e chegou há um ano ao hospital. Em Junho subiu a presidente do conselho de administração.

O gestor reconhece que a má fama desta unidade de saúde vem da urgência e admite que a missão é difícil, pela falta de recursos humanos, financeiros e de instalações. Porém, em entrevista ao PÚBLICO, promete que em três anos o Amadora-Sintra vai passar “de patinho feio a gaivota”.

O que traz alguém que já passou pela SIBS, que gere os pagamentos por multibanco, e pela Agência Nacional das Compras Públicas, para o sector da saúde?
A saúde é, para mim, o sector mais complexo, em que o desafio está em dar esperança às pessoas mesmo quando estão muito doentes. Passei por sectores muito mais atraentes em termos de remuneração, mas a saúde é que me complementava como pessoa e como profissional.

Esteve em hospitais mais pequenos, como Leiria e Santiago do Cacém. Porque veio para o Amadora-Sintra?
Este hospital é um case-study nacional. Começou como público, passou a ser a primeira PPP e depois voltou a ser público. Se vamos para um grande hospital somos uma peça, num hospital médio como este somos um elemento importante de uma engrenagem.

O que é que o chocou mais quando chegou?
É doloroso ver, em alguns dias, doentes a não terem a rapidez de assistência. Mas este hospital está finalmente numa fase de ressuscitar. Não vai ressuscitar ao fim do terceiro dia, mas vai ressuscitar ao fim do terceiro ano.

Que população servem?
Este hospital foi calculado para 350 mil pessoas e serve 600 mil. Servimos o concelho de Sintra e da Amadora, com gente muito pobre e envelhecida.

Quantos médicos, enfermeiros e assistentes operacionais faltam?
Precisamos de uns 50 médicos e mais 50 enfermeiros. Nos assistentes operacionais, o problema é também estarem sempre a rodar. Precisávamos de uns 100. Mas não temos a facilidade de contratação de uma PPP, que fica com quem podia vir para aqui porque lá têm melhor remuneração.

O que sente que mudou com a passagem de PPP para hospital público de novo?
Perdeu-se a flexibilidade da gestão. No privado podia-se contratar facilmente. A travessia do deserto tem sido grande, porque pelo meio veio a troika. Mas há do ponto de vista estratégico uma visão e uma vontade de transformar este hospital.

Vão abrir em 2019 um novo pólo hospitalar em Sintra. Esta solução é a melhor ou preferia expandir o hospital?
Um pólo é melhor, porque depende na mesma do HFF e podemos evitar que as pessoas venham aqui à urgência. Lá vamos fazer cirurgia de ambulatório, consultas externas, ter meios complementares de diagnóstico e terapêutica e camas de convalescença.

Quantas camas têm agora?
Temos 802 camas. Para uma população de quase 600 mil pessoas não é um número adequado. A idade média das pessoas internadas é de 75 ou 80 anos e com condições sociais muito graves. Em 2015 e 2016 tivemos, em média, 60 a 70 doentes por dia [que eram casos] sociais aqui internados por não terem para onde ir. Nos últimos três meses isso foi completamente arrumado. Neste momento, somos o único hospital dos quatro grandes de Lisboa (Lisboa Norte, Lisboa Central e Lisboa Ocidental) que tem camas no exterior. Temos 58 camas em unidades privadas em que estão doentes nossos, alguns sem condições de ir para casa, outros que aguardam vaga nos cuidados continuados.

Como fazem quando não têm onde internar?
O senhor ministro tem uma directiva de dizer não às macas. Queremos os doentes bem tratados e temos acordos com privados para onde os doentes são derivados, o que é um grande custo para o hospital. No ano passado, só pelos casos sociais e pessoas ainda sem vaga na rede de cuidados continuados, pagámos 1,5 milhões de euros. Os grandes hospitais abrem mais camas e nós não conseguimos.

E recebem por esses doentes que estão em camas fora?
Não. Por exemplo, as PPP, como o Hospital de Cascais, recebem dinheiro por estes doentes se os colocarem em algum lado antes da vaga da rede — e acho muito bem —, mas nós não recebemos. Temos 28 doentes que deviam ter resposta de lar ou de família e que não têm. São os idosos que não têm quem cuide deles e que não podem viver sozinhos. Tivemos em 2016 cinco doentes que estiveram o ano inteiro nestas camas e dois doentes que vêm desde 2012. Estão num lar no Vimeiro pago por nós. Em 2016 saíram daqui do hospital os casos não clínicos mais antigos. Estavam havia dois e três anos aqui dentro.

E há dinheiro? Tiveram um corte de orçamento…
Num orçamento de 150 milhões, 60% são para remunerações e 30% para medicamentos. Ficamos com 20 milhões para o resto… Tivemos um corte de cinco milhões em 2016, mas este ano deram-nos mais dois milhões. Isto apesar de termos aberto mais 32 camas, de termos reforçado o serviço de urgência básica, de termos aberto uma Viatura Médica de Emergência e Reanimação. Em Setembro, conseguimos instalar uma TAC e uma ressonância que estavam penduradas havia três anos. Vamos também melhorar o circuito do medicamento.

Tiveram um alerta da Inspecção-Geral das Actividades em Saúde sobre insegurança e desvios no vosso circuito do medicamento. Não se sabia o que se passava?
Sabia-se antes. Um dos problemas era a própria falta de espaço da farmácia e de pessoal. Vamos chegar a meio deste ano com tudo a funcionar. Não tínhamos sequer um software para gerir o medicamento de forma integrada. Com a troika não havia dinheiro.

Agora as grandes despesas passam todas pelo Ministério da Saúde [que tem de autorizar]. Não se sente limitado?
Temos tido aquilo a que chamo o “QB”. Este ano vamos investir seis milhões para renovar a parte do medicamento e as condições técnicas da consulta externa, bloco operatório e cuidados intermédios.

Mas tudo isso com um grande prejuízo. Fecharam 2015 com um prejuízo de 13 milhões. E 2016?
Deverá ser um resultado negativo ligeiramente superior.

Como se compatibiliza um buraco assim com uma decisão sobre um tratamento caro e que dita a vida ou a morte?
Temos capacidade técnica e bom senso, também da tutela. O doente é do SNS. Este hospital precisava de 15 e 20 milhões de euros só de investimento para ser um hospital com dignidade. Precisávamos não de 146 milhões, mas de 165 milhões. Nunca deixaremos de apontar à tutela que temos necessidade de mais dinheiro, o que não deve ser visto como um gasto, mas sim como investimento na qualidade do serviço. Tenho uma imagem interessante: queremos ser o hospital gaivota e não o patinho feio. O Fernão Capelo Gaivota foi um filme que me marcou.