Entrevista

“Único factor escasso que temos é a confiança que depositam em nós”

João Salgueiro acredita nas condições que Portugal tem para crescer e defende mesmo que nem a dívida, nem a dimensão do país ou a sua localização geográfica, nem a falta de recursos são desculpa. A única coisa que falta ao país é fazer e a falta de confiança que têm em nós

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"Devíamos ter chamado a atenção de que termos pago 4,2% é mau. Tem muita importância. Não sei quem é que diz uma coisa e diz outra, mas quem disser que não tem importância não faz bem". Daniel Rocha
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"Se houver alguma crise séria na Europa, suponha que a Itália tem algum problema, ninguém vai aplicar dinheiro em Portugal". Daniel Rocha

João Salgueiro acredita que é possível colocar Portugal num caminho de crescimento económico, o factor verdadeiramente essencial para o país. O economista, que, entre outros cargos, presidiu ao Banco de Fomento Nacional, à Caixa Geral de Depósitos, à Associação Portuguesa de Bancos e foi ministro do Estado, das Finanças e do Plano entre 1981 e 1983 num executivo liderado por Francisco Pinto Balsemão, diz que Portugal tem vivido a defender o passado, em vez de se preocupar com o futuro. No entanto, aponta os casos de sucesso no Turismo e na Agricultura para assegurar que é possível inverter esta situação. Se tal for feito, assegura que o fardo da dívida pública não será um problema, mas alerta que a última emissão de dívida, com taxas de juro acima de 4%, é um sinal preocupante e que devia preocupar os portugueses.

E exemplifica com o que se passa com o futebol nacional: “Sabe-se que uma equipa que quer facilidades não vai muito longe. Também se sabe que a competição é a melhor maneira de melhorar a qualidade das equipas. Mas depois, na vida nacional, no conjunto, não temos esta atitude vencedora.”

Como vê a situação do país?
É muito agradável ser português e viver em Portugal, mas tem custos. Vamos adiando as coisas. É difícil imaginar como é que ainda não se fez um diagnóstico mais correcto da situação em que estamos. Os portugueses, por um lado, tendem a confundir causas com consequências, por outro, tendem a confundir o que acham que devia ser o mundo com aquilo que é. Não fazem um diagnóstico desapaixonado antes de começar a tentar responder aos desafios.

Pode exemplificar?
Ainda acham, por exemplo, que a União Europeia (UE) devia ser mais solidária do que é. Quando aderimos, a UE era muito solidária, mas é difícil imaginar que, tendo caído o Muro de Berlim e tendo-se transformado o mundo, se pense que é possível aplicar, agora, o mesmo tipo de relações que tínhamos antes de 1989. A Alemanha, sozinha, decidiu fazer a integração da República Democrática Alemã (RDA) na UE, não houve negociação nenhuma. A Alemanha afirmou-se como capaz de decidir o que quer dentro da UE. A França não gostou, o Reino Unidos não gostou, os Estados Unidos da América (EUA) não gostaram, mas ninguém interveio. Depois houve o fim da União Soviética (URSS) e o alargamento aos países do Leste. Deixou de haver a ameaça soviética e os alemães deixaram de se preocupar com a solidariedade da retaguarda. Agora vêm dizer que [os alemães] têm de ajudar os países do Sul. Mas porquê? Ajudavam quando não queriam avanços do comunismo, agora não tem importância nenhuma.

Depois, os países emergentes desenvolveram-se muito mais depressa do que os europeus esperavam. A China tornou-se um concorrente directo. A chamada" estratégia de Lisboa" era uma ideia genial. Nós que temos um modelo social caro temos de nos especializar em produtos de valor, produtos caros, para poder pagar salários altos. Os países que têm salários baixos especializam-se em produtos baratos.

Não faz sentido?
Parecia bem, mas foi mau para nós. Porque deixava de interessar à Europa produzir têxteis, vestuário e calçado. Comprávamos à China, e esta abria o mercado para exportarmos TGV, centrais nucleares. Era impecável. O único inconveniente é que os chineses também fizeram isso tudo. Fizeram os TGV, as centrais nucleares... A relativa estagnação da economia europeia, diferente da de outras épocas, é a consequência disto. A Europa não está a conseguir competir eficazmente com os novos países emergentes. Em Marrocos, nos últimos anos, é impressionante. Criaram o Tanger-Med [porto de mercadorias], que ultrapassou Sines rapidamente. Estão a fazer centenas de milhares de automóveis.

Mas Portugal também melhorou neste período, ou não?
Estamos melhor, mas não acompanhámos o que se passou nos outros países. E quando fazemos um diagnóstico da nossa economia, devíamos ter esta noção da dimensão dos desafios.

A globalização é provavelmente inevitável. A maior parte dos países do mundo aderiu à globalização porque aderiu à economia de mercado. Foi uma das consequências do fim da União Soviética, deixou de haver uma alternativa. Há a Coreia do Norte e havia Cuba, mas mesmo Cuba já está a evoluir para a economia de mercado. Esperamos que vá haver menos competição no futuro? Não é provável.

Temos sectores que são competitivos.
Temos, felizmente. Ultimamente, por exemplo, houve um grande avanço na agricultura. Está a criar-se valor, estamos a entrar em segmentos novos, na fruta, na exportação de legumes. Neste momento, o nosso problema central é o crescimento da economia.

Já é há muito tempo. Não conseguimos aumentar o nosso potencial de crescimento.
Essa história do potencial de crescimento é uma graça dos meus colegas economistas, porque potencial de crescimento é a tendência do que se verificou nos últimos anos, mas que pode alterar-se. A Irlanda tinha uma tendência baixíssima e de repente começou a crescer enormemente. Não é uma fatalidade.

O nosso debate sobre política económica nos últimos anos tem sido sobre se houve austeridade de mais ou se houve austeridade de menos. Não faz sentido. Mais austeridade não ajuda a desenvolver. Menos austeridade, também não. Está ao lado da questão. Precisávamos era de uma política para o crescimento.

E como é que se põe a economia a crescer?
Nos últimos meses, quase um ano e meio, o debate tem sido se [se punha a economia a crescer] com mais consumo, mais despesa pública ou privada. Também não é maneira.

Quando aderimos à UE, houve um equívoco que foi pensar que íamos ter os padrões de consumo que tem a UE. Podemos ter, se tivermos dinheiro para gastar. Mas também há padrões de competitividade que não temos. Continuamos ainda com esse problema.

Esse é o diagnóstico, mas como se resolve?
Devíamos fazer o que se faz em qualquer sector. Devíamos fazer benchmarking. Ver os países que têm tido sucesso, porque é que têm tido sucesso, ver os países que não têm tido sucesso e porque é que não têm tido sucesso.

Basta isso? Somos um país pequeno, periférico...
Se há uma coisa que se torna clara é que não é um problema de dimensão. Os países pequenos na Europa foram dos que mais rapidamente cresceram, e na Ásia também e mesmo na América Latina. Não é isso.

Também não somos periféricos. Era o que dizia Morita [japonês co-fundador da Sony]: disseram-lhe que Portugal tinha problemas porque era periférico. "Mas como é que vocês são periféricos? Nós, para chegarmos ao grande mercado dos EUA, temos de dar a volta ao Pacífico, vocês atravessam o Atlântico, é um terço. Nós, para chegarmos à Europa, temos de dar a volta a metade da esfera terrestre. Vocês estão dentro da Europa."

Depois dizemos que não temos recursos. Temos os recursos de que precisamos. Num país que tem 2% da economia europeia, menos até, e que deve representar poucos por mil da economia mundial, não há escassez de capital, não há escassez de iniciativa, não há escassez de competências técnicas. O problema é saber se temos capacidade para atrair novos projectos e capitais. Se tivermos, o problema não existe.

Portanto, podíamos estar melhor?
A economia nos últimos 20 anos tem sido desconfortável para os portugueses. As expectativas que tínhamos não se realizaram. Pensámos que podíamos ter empregos qualificados e estáveis, mas não é muito brilhante o que temos conseguido. Pensávamos que podíamos ter asseguradas reformas melhores para o futuro, ir melhorando as reformas das pessoas que vão passando à reforma, mas também não se confirmou. Pensávamos que o modelo social ia progredir e ia ser mais sofisticado... As expectativas de que a geração seguinte vai viver melhor do que a anterior também não se confirmaram. Agora, podia ser melhor. 

O que devíamos ter feito?
Devíamos ter sido capazes de ser atractivos para a iniciativa e para os capitais. No design e na imaginação temos tido bom desempenho, mas depois na capacidade de organização e produção eficaz é confrangedor. Não estamos a ver a fotografia como ela é. Continuamos a discutir se é mais ou menos austeridade. É melhor erradicar isso e [perguntar] o que é que temos de fazer para ter uma economia que permita ter a vida que queremos e ter um futuro mais assegurado.

Temos instituições que não são favoráveis ao desenvolvimento. Fazemos a lista e depois falamos de reformas desses sectores. É a burocracia, que trava muito, ainda hoje é assim. Temos a justiça, que também leva muito tempo. Depois temos um sistema bancário que está muito fragilizado. Temos intervenções dos governos que são sempre contra o Governo anterior e, portanto, é uma insegurança enorme. Uma grande parte do país acha que o mercado é mau, que o capitalismo é mau, porque o mundo deveria ser diferente. Também acho, mas não vamos mudá-lo e o melhor é fazer o que depende de nós para tirarmos partido da realidade que já existe e tentar corrigir os vícios que encontramos à nossa volta.

Estamos sempre a falar dessas reformas...
É confrangedor. São as mesmas reformas de que Mota Pinto falava quando esteve no Governo em 1978. Eram estas reformas todas, justiça, burocracia, fiscalidade. Ele, que não tinha nenhum apoio no Parlamento porque foi nomeado pelo Presidente da República, disse aos partidos: "Temos de fazer isto, isto é impopular, mas como não tenho de ter eleições, eu faço e vocês deixam passar." Não deixaram, portanto, continuam a ser as mesmas reformas. É uma pena que não aproveitemos a cultura sofisticada que temos em relação ao futebol, porque aqui sabem-se várias coisas que depois não praticamos no resto. No futebol sabe-se que uma equipa que quer facilidades não vai muito longe. Também se sabe que a competição é a melhor maneira de melhorar a qualidade das equipas. Mas depois, na vida nacional, no conjunto, não temos esta atitude vencedora.

Pensou-se que essa incapacidade de fazer reformas seria ultrapassada pelas imposições da troika entre 2011 e 2014. Falhámos?
Não se fez tanto quanto se devia fazer, ao contrário do que se diz. Aliás, diz-se que foi um período de muita austeridade, não sei como é que se mede a austeridade, porque continuámos a endividar-nos, estivemos a gastar mais do que o que produzimos. Não se diz que uma pessoa tem um orçamento muito austero se continua a comprar coisas só a crédito e sabe que não pode pagar facilmente. O foco esteve posto nas dificuldades que as pessoas sentiam, e é uma pena que tivesse sido assim.

Mas foram feitas reformas e ainda não vemos o resultado dessas mudanças, ou não foram feitas reformas?
Algumas foram, mas agora estamos a fazer reversões. Temos vivido a defender o passado em vez de pôr a nossa esperança na construção de um futuro melhor, porque as pessoas pensam que um futuro melhor é conseguir mais benesses da UE ou mais facilidades em Portugal. Isso não é uma estratégia que tenha credibilidade. Por exemplo, quando atraímos a Autoeuropa, foi um avanço importante. Quando veio a Embraer, também foi importante. Essa deveria ser a nossa atitude em geral. 

É um problema cultural. Como é que se conseguem vender produtos? Os criativos sabem. Também devem saber como se deve vender uma estratégia vencedora para a nossa economia, porque o crescimento é a única maneira de termos salários mais altos e empregos mais qualificados. O crescimento também é a única maneira de reduzir a carga fiscal em função do PIB e de suportar a dívida e o défice. Também é o crescimento que há-de permitir termos padrões sociais mais exigentes.

Não há condicionantes externas?
É verdade. A Europa está muito menos competitiva em relação aos países emergentes mais avançados do que se imaginava possível, mas há países que, dentro da Europa, têm tido mais sucesso do que outros. Quando dizemos que o agravamento do custo da nossa dívida é um problema internacional, não é verdade, porque a maior parte dos países que estão na nossa situação teve uma descida do custo da dívida.

São os mercados a aperceber-se de que a capacidade de crescimento é diminuta no curto prazo.
O que temos de escasso é a confiança que depositam em nós. É o único factor escasso, porque falta de capitais no mundo não há. Porque é que não vêm para cá mais? Porque não têm confiança.

Mesmo que agora se fizesse tudo bem, a economia não ia crescer de um dia para o outro.
Pode crescer, como cresceu o turismo. Porque é que estamos na moda com o turismo? Basicamente, alguém espantou os investidores. Não vieram todos para cá, mas veio uma grande percentagem. Porque é que vieram para aqui alguns residentes franceses? Porque a nossa fiscalidade para as famílias é melhor. Eles tiram as conclusões. Porque é que crescemos tanto entre os anos 60 a 73, não foi por razões políticas. Embora fosse um regime político que não era bem visto na Europa, os empresários sentiam que tinham condições para trabalhar e tinham uma grande confiança na moeda portuguesa, por exemplo. 

Podemos dar essa volta, mesmo com o fardo de dívida que temos?
A dívida não é um problema. Se tivéssemos crescimento, nem era preciso ser igual ao espanhol, [bastava] 80% do espanhol, isso não era um problema. 

Mas não temos.
Não temos. Estamos numa época muito complicada, porque estamos a ser optimistas. Emitir dívida a 4,2% numa altura que todos emitiram com taxas de juro mais baixas, e nós subimos, já é muito complicado. Significa que os mercados não estão a confiar, logo há menos gente a querer investir em Portugal. Em próximos leilões já vai ser mais difícil, não quer dizer que não consigamos baixar alguma coisa, mas vai ser mais difícil, é uma espiral de desconfiança. É claro que a nossa economia neste momento não está a degradar-se, mas não estamos a aproveitar a dimensão que tínhamos de dar um salto. O que se deu no turismo ou nalgumas culturas agrícolas poderia dar-se em geral na nossa economia.

Estamos com taxas de 4% e beneficiamos do efeito do Banco Central Europeu (BCE). Não melhorámos em relação a 2011?
Se houver alguma crise séria na Europa, suponha que a Itália tem algum problema, ninguém vai aplicar dinheiro em Portugal. Não é um problema de juros, se calhar nem há quem queira comprar dívida portuguesa. Não digo que isso vá acontecer, mas estaria na nossa mão ter a garantia de que não iria acontecer, e não estamos a fazer o necessário para ter essa garantia.

Estamos a ter uma atitude que é explicável, mas não é defensável. Estamos a dizer que estamos melhor do que estávamos há um ano. O país está mais descontraído, é verdade. Mas estamos a ter progressos mais rápidos do que os outros países com que competimos, dentro da Europa e fora da Europa? Não estamos.

É uma estratégia errada a do primeiro-ministro e do Presidente da República?
Teve o seu papel. Aliás, um dos problemas que o anterior Governo teve é que não teve política de relações públicas.

Ainda há dias ouvimos uma entrevista do Presidente da República em que dava sinais de optimismo.
Não acho mal que seja optimista, o que acho mal é que não se ajude os portugueses a perceberem de que o caminho de saída tem de ser vencendo os desafios, não é fugindo deles.

É o que se está a fazer?
Devíamos ter chamado a atenção de que termos pago 4,2% é mau. Tem muita importância. Não sei quem é que diz uma coisa e diz outra, mas quem disser que não tem importância não faz bem.