Opinião

A nova PPP: Parceria Presidente Primeiro-ministro

A grande questão sobre a sua primeira pequena entrevista é esta: por que aceita Marcelo desempenhar o papel de ventríloquo de António Costa?

O problema da entrevista de Marcelo Rebelo de Sousa à SIC é muito simples: se ele tivesse trocado de cabeça com o primeiro-ministro, ninguém teria dado pela diferença. António Costa poderia ter dito, sem retirar uma vírgula, tudo aquilo que o Presidente da República disse sobre o crescimento, sobre os bancos, sobre a dívida, sobre o défice, sobre a inflação, sobre a TSU, sobre a estabilidade, sobre a situação económica e sobre a situação política. Não houve uma única palavra proferida por Marcelo que se estranhasse na boca de António Costa, e até o único vestígio de crítica ao governo – a insuficiência do crescimento – já foi admitido pelo primeiro-ministro. Donde, a grande questão sobre a sua primeira pequena entrevista é esta: por que aceita Marcelo desempenhar o papel de ventríloquo de António Costa?

Será porque gosta muito de Costa? Porque odeia Passos? Porque acha que é o melhor para o país? Porque não quer chatices? Não tenho uma boa resposta – sei apenas que esta osmose é absurda e perigosa. Uma coisa é o Presidente da República desejar “estabilidade”. Até hoje, todos os presidentes da República desejaram “estabilidade”. Outra coisa, inteiramente diferente, é o palácio de Belém assinar uma inédita PPP (Parceria Presidente Primeiro-ministro) com o palácio de São Bento, nos seguintes termos: o segundo vende ao primeiro toda a argumentação acerca do espectacular estado do país; o primeiro compra essa versão e vende-a a todos os portugueses como se fosse sua e, portanto, “neutra”. Mais. Esta PPP até já vem com o seu credit default swap incluído, na figura do comentador e conselheiro de Estado Marques Mendes, que tem vindo cada vez mais a desempenhar o papel de avalista mediático do Presidente – e conspirador ocasional.

Para o caso de alguém ainda não ter reparado, Marques Mendes está para Marcelo como Marcelo está para António Costa: são caixas de ressonância uns dos outros. Com uma diferença. Enquanto Marcelo e Costa namoram às claras, Marcelo e Mendes andam a namorar às escuras. Eu comecei a desconfiar disso com as “descobertas” de Marques Mendes no caso da Caixa Geral de Depósitos e fiquei absolutamente convicto com as violentas acusações de “cata-vento” a Passos Coelho no caso da TSU. A palavra traía a sua origem. Marques Mendes é o novo bff (best friend forever) de Marcelo. As suas agendas estão demasiado coladas para ser um mero acaso. Este domingo, Mendes cedeu o seu tempo de comentário para a entrevista a Marcelo Rebelo de Sousa, e veio mais tarde, à frente da lareira de casa, expor a interpretação oficial das palavras do presidente, que depois passaram em loop nos noticiários da SIC.

Chamem-me esquisito: Marcelo como padrinho de Costa; Mendes como delfim de Marcelo, já em aquecimento para as presidenciais de 2026; cartas escondidas na manga; relações alimentadas de forma mais ou menos obscura e teatralizada; nenhum deles a assumir com um mínimo de lucidez as tremendas dificuldades do país e a complexidade da actual situação governativa; chamem-me esquisito, de facto, mas não estou a gostar nem um bocadinho de uma magistratura da confluência que em nome da “estabilidade” afecta os contrapesos do regime, com primeiro-ministro, Presidente e principal comentador da nação unidos por um fio invisível enquanto Portugal vai resvalando para o buraco. Esta Parceira Presidente Primeiro-ministro é como as outras PPP: desnecessária, imprudente e caríssima para o país.