Os cigarros normais vão desaparecer? A indústria tabaqueira acredita que sim

Se o enorme investimento feito pelas tabaqueiras nas alternativas aos cigarros clássicos resultar, os fumadores passarão a usar tabaco aquecido. Médicos alertam para o perigo desta substituição.

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A responsável da Direcção-Geral de Saúde, Emília Nunes, alerta que o tabaco aquecido pode ser mais prejudicial do que os cigarros electrónicos NELSON GARRIDO

 Demonizadas por venderem um produto que provoca doenças graves, cercadas por legislações cada vez mais restritivas, as grandes tabaqueiras querem salvar o seu negócio... acabando com os cigarros clássicos. Paradoxal? Parece, mas este caminho para um mundo livre de fumarada  — no longo prazo, claro — está a ser desbravado pelas mesmas multinacionais que continuam a arrecadar milhões e milhões com os velhinhos maços de tabaco.

Portugal foi um dos primeiros países escolhidos para servir de teste e de rampa de lançamento para um dos produtos que a Philip Morris International (a PMI, de que a Tabaqueira é subsidiária no nosso país) acredita ser o futuro do colossal negócio: um dispositivo que tenta mimetizar ao máximo a inigualável experiência proporcionada pelo cigarro tradicional, enquanto, em simultâneo, promete ser “potencialmente” muito menos nocivo para a saúde. O iQOS (I quit ordinary smoking) é um aparelho,com o preço de 70 euros, que se assemelha a um pequeno telemóvel e funciona como um carregador de uma caneta onde se enfiam os heatsticks, uma espécie de mini cigarros que incluem filtro, tabaco e se vendem em maços de 20 unidades, por 4,70 euros. Estes heatsticks são aquecidos na caneta e libertam um aerossol. A Tabaqueira adianta que, num ano, conquistou perto de 10 mil consumidores. Mas a ambição é, no limite, conquistar todos os fumadores.

Philip Morris pode deixar de fabricar cigarros

Foi o próprio presidente executivo da PMI que admitiu, numa polémica entrevista à BBC, em Novembro passado, que a empresa poderá no futuro deixar de fabricar cigarros tradicionais, à medida que o mercado de produtos alternativos for conquistando terreno. No futuro, a simples imagem de acender um cigarro e fazer fumo desaparecerá, portanto. Mas os viciados em nicotina não. Este é um produto para os fumadores inveterados, os que não querem ou não conseguem largar o cigarro, alega. Não é um cigarro electrónico, porque estes funcionam com líquidos que podem ou não conter nicotina e produzem vapor.   

Qual é o segredo destes novos produtos, então? É simples: em vez de queimar, como no cigarro convencional, em que a combustão chega aos 800 graus Celsius, aquece-se folha de tabaco a uma temperatura inferior (250º a 350º) no dispositivo. João Travassos, presidente da Associação Portuguesa de Vaping, não acredita que este produto tenha pernas para andar neste mercado tão exigente: “Não sabe a nada, é pouco prático, é caro.  Dizem que é um produto alternativo ao tabaco mas não deixa de ser tabaco”. Travassos acredita que o futuro passa é pelos cigarros electrónicos: “Até a minha mãe, que fumava dois maços, usa agora líquidos com vários sabores, sem nicotina. Os e-cigars são menos nocivos”.

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Não há coincidências: o novo produto da Tabaqueira, que se segue a outras experiências que não resultaram no passado, está a ser divulgado em Portugal numa altura em que no Parlamento se discutem alterações à legislação actual. Mudanças que, a concretizar-se, vão equiparar estes produtos aos cigarros clássicos e, portanto, interditar o seu uso em espaços públicos fechados e a publicidade a estes artigos.

A PMI alega que o iQOS é “90 a 95% potencialmente menos nocivo” do que os cigarros convencionais. O “potencialmente” não surge por acaso. Não há por enquanto estudos independentes. Os únicos estudos disponíveis foram efectuados pelos mais de 400 cientistas e especialistas contratados pela multinacional, que afirma já ter gasto perto de 3 mil milhões de euros na investigação, desde 2008. A PMI não está sozinha nesta corrida. O conceito heat not burn (aquecer não queimar) já tem muitos anos. Pelo caminho ficaram muitos produtos. As outras grandes tabaqueiras, como a British American Tobacco (BAT), com o glo e o glo Ifuse, a Reynolds American (que acaba de ser comprada pela BAT) e a Japan Tobacco (com o Ploom e o PAX), têm investido muito nesta área.

A Reynolds foi a primeira, em 1988, com o Premier. Seguiu-se o Eclipse, que emergiu das cinzas do anterior. “O fumo desaparece. A sua namorada não”, rezava o slogan. Com o tempo, vários novos produtos, tabaco aquecido e também cigarros electrónicos — porque as tabaqueiras renderam-se entretanto também a estes dispositivos — foram surgindo, falhando e dando lugar a sucedâneos.  O iQOS é apenas mais um, enfatizam os críticos. Mas o grande passo, para a PMI, foi a entrega, em Dezembro, do dossier com os resultados dos estudos à FDA (agência norte-americana que regula a segurança de medicamentos e de outros produtos).

Cepticismo dos médicos

Os médicos que lidam com doenças graves causadas pelo tabagismo olham para estas tentativas da indústria tabaqueira com cepticismo. Notam que as tabaqueiras apenas “estão a fazer o que sempre fizeram — vender produtos que causam dependência”. “São novas formas inteligentes e apelativas de não desligar as pessoas do hábito, do gesto e da cultura de fumar”, lamenta o pneumologista Carlos Robalo Cordeiro. Também o especialista em saúde pública Henrique Barros, que deixou de fumar aos 42 anos, é muito crítico: “Não há tabaco que faça bem ou menos mal. Esse foi sempre o discurso deles”. Hilson Cunha Filho, da Confederação Portuguesa de Prevenção do Tabagismo, admite que, até ao momento, os resultados dos estudos apresentados “são promissores”. O problema, frisa, é que “não foram replicados pela comunidade científica idónea”. 

A indústria invoca a redução de risco, mas essa “não pode ser a questão principal”, contrapõe João Boléo Tomé, coordenador da Comissão de Tabagismo  da Sociedade Portuguesa de Pneumologia. “Dizer que a manteiga tem 50% menos lípidos não a torna um produto sem lípidos, (...) mas passa uma ideia positiva ao consumidor. No caso do tabaco e da nicotina está demonstrado que não há um nível seguro”, defende. E acrescenta: “É ingénuo pensar que após um século a vender e promover um produto que mata metade dos seus consumidores, [a indústria tabaqueira] agora queira subitamente preocupar-se apenas com a saúde. Isto já aconteceu em muitas outras ocasiões no passado (os cigarros light, os cigarros de baixo teor de alcatrão, etc)”. “É uma guerra muito complicada”, corrobora a pneumologista Ana Figueiredo, para quem os novos produtos do tabaco tornam “mais complicado fazer a desnormalização do hábito de fumar”.

Também Emília Nunes, responsável pelo programa antitabágico na Direcção-Geral da Saúde, não acredita que o iQOS seja “uma alternativa segura ao consumo de tabaco”. “Ainda não há estudos publicados, por entidades independentes, e sem conflitos de interesses com a indústria, que permitam conhecer com exactidão o tipo e a quantidade de substâncias cancerígenas, tóxicas ou mutagénicas existentes no aerossol”, frisa. Nesta equação entram ainda os cigarros electrónicos, que conheceram um boom em Portugal em 2013, para depois perderem mercado. Emília Nunes nota que os riscos destes até são inferiores: “Embora a investigação sobre as emissões e os riscos dos cigarros electrónicos ainda esteja em curso, os riscos dos produtos de tabaco por aquecimento são certamente superiores aos decorrentes do consumo dos electrónicos, devido ao facto de conterem tabaco na sua composição”.