Opinião

E se os europeus acordassem…

Trump impõe à União Europeia uma tarefa homérica, precisamente no momento em que está fragilizada, mas é a sua sobrevivência que está em causa.

Em 2008, Toni Morrison apoiou Barack Obama porque ele tinha wisdom, sabedoria, uma mistura de bom senso e valores com inteligência, qualidade essencial para o exercício da governação. Trump é o oposto de Obama: fala e age sem sabedoria e assim irá continuar. Seria um erro grave menosprezar a ameaça que representa para a paz mundial.

Trump é a tentativa de travar duas tendências irremediáveis, o fim da supremacia branca na América e o declínio da hegemonia dos Estados Unidos. Juntar uma visão racista com nacionalismo cria uma ideologia altamente perversa — um país cujos nacionais sejam identificados com o "outro" pode ser um inimigo. Trump fez campanha contra os hispânicos e faz ultimatos ao México, os muçulmanos são o inimigo, a China o principal adversário, numa estratégia de confronto que identifica Putin como um aliado. Contrariar a estratégia Trump exige não só recusar liminarmente os seus pressupostos como combatê-la ativamente.

Para a União Europeia, contrariar Trump, que apostou já na sua fratura com o apoio ao "Brexit", implica preservar a sua unidade, mas aceitar o seu declínio relativo. Preservar a unidade da União exige uma enorme mobilização cidadã em defesa dos valores da humanidade comum ameaçados por Trump e seus aliados da extrema-direita europeia, nomeadamente em França, mas também na Alemanha.

Aceitar o declínio implica procurar nos países que emergiram, como a China, a Índia e o Brasil, parceiros para um multilateralismo eficaz e inclusivo num mundo pós-ocidental. A mais complexa questão será a relação com a política agressiva de Putin, a quem Trump estende a mão. Uma política de abertura sincera, mas crítica, com a Rússia é fundamental, mesmo não sendo fácil.

Ao mesmo tempo, os Estados da União terão que assumir maiores responsabilidades na construção da paz regional. Para isso, o projeto de uma defesa comum europeia deve ser concretizado a partir da iniciativa franco-alemã, numa perspetiva aberta que inclua a Turquia. Para tal, necessita da capacidade militar e diplomática do Reino Unido, o que deve ser tido em conta na negociação do “Brexit”, onde a União tem que ser firme na questão migratória, mas generosa em todas as outras questões.

Finalmente, implica o diálogo com as instituições americanas, nomeadamente com o Congresso. Resta um vasto campo para a sociedade civil agir a nível global, nomeadamente com organizações americanas, onde encontrará parceiros que partilham os mesmos valores da liberdade e de luta contra o racismo.

Trump impõe à União Europeia uma tarefa homérica, precisamente no momento em que está fragilizada, mas é a sua sobrevivência que está em causa. Director de Projectos no Arab Reform Initiative (ARI)

O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico