Crítica

A excelência previsível de Mitsuko Uchida, com uma surpresa final

Para o encore, a pianista ofereceu ao público da Gulbenkian a primeira audição mundial de uma peça do compositor, maestro e clarinetista alemão Jörg Widmann.

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RICHARD AVEDON

A pianista Mitsuko Uchida apresentou no passado domingo na Gulbenkian um programa dedicado a dois compositores que têm ocupado um lugar de destaque na sua já longa e prestigiada carreira: Mozart e Schumann. Todavia, a combinação do repertório escolhido parecia, à primeira vista, algo inusitada pela oposição entre estéticas e exigências técnicas muito diferenciadas. Mozart estava representado pela Sonata nº16, em Dó Maior, K. 545, uma pérola do estilo galante, também conhecida como “Sonata fácil” e destinada pelo compositor “aos principiantes”. De Schumann, foram escolhidas duas obras de fôlego de grande complexidade, bem emblemáticas do universo romântico e percorridas por uma enorme variedade de ambientes e emoções: o ciclo Kreisleriana, op. 16, e a Fantasia em Dó Maior, op. 17.

Todo o conjunto viria porém a ganhar sentido e o equilíbrio de um grande arco quando a pianista anunciou ao público uma inesperada surpresa como encore: a primeira audição mundial de uma peça inspirada na “Sonata Fácil” de Mozart, da autoria do compositor, maestro e clarinetista alemão Jörg Widmann. A estreia oficial está programada para 18 de Janeiro na monumental Elbphilharmonie, o extraordinário complexo cultural inaugurado na semana passada em Hamburgo, cuja sala de concertos tem sido anunciada como um prodígio da acústica. O público da Gulbenkian teve assim o privilégio de ouvir a Sonatina Facile de Widmann em primeira mão por uma intérprete de eleição, a quem a partitura é dedicada e que a levará em digressão nos próximos meses.  

Apesar da sua aparente acessibilidade, a Sonata K. 545, de Mozart, bem conhecida de todos os estudantes de piano, não deixa contudo de colocar exigências técnicas (a sua textura deve ser transparente e meticulosa como uma filigrana) e artísticas ao intérprete. Uchida transmitiu-a com acuidade, fazendo uso da sua toucher cristalina, de fraseados graciosos de grande nitidez e de dinâmicas bem doseadas. A homenagem que Widmann prestou a esta obra com a sua composição respeita os três andamentos da partitura original (Allegro-Andante-Rondo:Allegretto)  em termos de duração e do material temático, os quais vão sendo glosados e transformados com uma liberdade próxima da improvisação e por vezes com algum sentido de humor. Afasta-se da sua matriz de tempos a tempos, mas regressa sempre a ela, permitindo ao ouvinte reencontrar o fio da composição. Ao longo da obra, o conceito de “facilidade” é subvertido, já que os seus elementos são submetidos a um tratamento virtuosístico e a efeitos inesperados, por vezes abruptos. Mitsuko Uchida demonstrou uma estreita afinidade com a partitura, interpretando-a de forma extremamente convincente e eloquente.

No que diz respeito a Schumann, a pianista mostrou a sua habitual solidez como intérprete através de uma leitura cuidada da Kreisleriana e das suas idiossincrasias estruturais, evidenciando os diferentes planos sonoros e dando coesão a um discurso feito de múltiplos contrastes cuja fluidez nem sempre é fácil de gerir. Foi porém a seguir ao intervalo que Uchida mostrou uma entrega emocional mais intensa, que contribuiu para uma interpretação notável da Fantasia op. 17, uma obra de ousada arquitectura musical que o próprio Schumann designou como “longo grito de amor”, reflexo da sua exacerbada paixão por Clara Wieck. Após a tensão crescente da marcha do segundo andamento, tocado com veemente energia e desenvoltura, a pianista logrou momentos de introspecção profunda e grande beleza de sonoridade no andamento final, momento alto de um recital que parecia inicialmente ir tomar um rumo convencional, mas que acabou por trazer gratas surpresas, infelizmente perturbadas com frequência por sons de telemóveis e outros ruídos do público.