Uma Casa da Música com vista para o Elba e o futuro

A Elbphilharmonie de Hamburgo, projectada pelo atelier suíço Herzog & de Meuron, é inaugurada oficialmente no dia 11 de Janeiro. Visita guiada a outras obras de archi-stars mundo fora.

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Grande auditório tem 2.100 lugares AFP
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Elbphilharmonie de Hamburgo CARSTEN KOALL/ EPA
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Elbphilharmonie de Hamburgo AFP

Apesar do contexto de crise económica que vem assolando quase o mundo inteiro, desde os países do sul da Europa até às economias maioritariamente dependentes do mercado petrolífero, os tempos são ainda da arquitectura-espectáculo em várias paragens. E isso vai poder observar-se ao longo deste ano, tendo em vista alguns dos muitos projectos que deverão ser concluídos e inaugurados.

O mais próximo, em termos de calendário, é o da Elbphilharmonie, em Hamburgo (Alemanha), o polémico projecto do atelier suíço Herzog & de Meuron, cuja inauguração oficial está agendada para 11 de Janeiro com um concerto da NDR Elbphilharmonie Orchestra, dirigida pelo maestro Thomas Hengelbrock.

Mas os habitantes e visitantes da cidade vizinha do rio Elba podem já, por estes dias, usufruir da fantástica arquitectura dos archi-stars suíços, já que as três diferentes salas de espectáculos (com 2.100, 550 e 150 lugares) do novo equipamento estão já em funcionamento, acolhendo um programa inaugural que inclui sucessivas actuações da companhia da coreógrafa alemã Sasha Waltz, uma récita com a cantata Carmina Burana e até, no dia 12, um concerto de câmara intitulado Saudade – Fado, pela Symphoniker Hamburg.

Os visitantes não precisam, contudo, de comprar bilhete para poderem usufruir do novo edifício: basta subir a escada rolante em curva e aceder a uma plataforma que se oferece como passeio público e permite ver a cidade a partir de uma perspectiva inédita; ou então conhecer por dentro parte deste edifício que o jornalista do Guardian, Rowan Moore, descreve como oferecendo “uma sequência visual e arquitectónica do outro mundo”, que começa com esse panorama sobre a cidade e o rio, e pode terminar com a experiência única de se entrar e sentar num dos lugares do grande auditório, que Moore descreve como “uma bolha dentro de uma cave”, mas onde vê também “uma onda, um barco, uma tenda, um icebergue”...

Quem, de facto, vê imagens do novo edifício compreende a miríade de sensações e associações que se podem fazer. Trata-se de um volumoso cristal, de formas e contornos assimétricos, construído sobre a sólida estrutura (como um rochedo) de um velho armazém de chá, café e cacau, construído nos anos 1960 – e agora transformado em parque de estacionamento.

O projecto vem já de 2003, quando a Câmara de Hamburgo aceitou o projecto de Herzog & de Meuron, então com um orçamento de 77 milhões de euros. Sucessivos acrescentos ao desenho e à volumetria inicial fizeram disparar os custos para dez vezes mais (segundo o Guardian, o orçamento final chegou aos 860 milhões), e o processo de construção não foi isento de polémica, que começou com contestação na cidade e chegou mesmo ao Tribunal Europeu. Mais de uma década depois, Hamburgo tem finalmente a sua “Ópera de Sidney”, que é arquitectonicamente um verdadeiro “tour-de-force” – como diz o jornalista da BBC Jonathan Glancey –, e que liga o passado com o presente e o futuro da cidade de Hamburgo.

Num relance rápido às novas arquitecturas nas quatro partes do mundo, assinale-se a conclusão, este ano, de outro projecto de Herzog & de Meuron: uma também icónica torre de habitação em Manhattan, no bairro de Tribeca, a 56 Leonard, com 60 andares, 145 luxuosos apartamentos e piscina, solário, teatro e outros serviços complementares, tudo com vista para o rio Hudson. Um projecto que – diz o Financial Times – concilia a “intensidade da vida urbana de um arranha-céus” com a atmosfera de modernas villas da Califórnia.

Mais perto de nós, outro arquitecto distinguido com o Pritzker, Renzo Piano, deverá finalmente ver concluído o Centro Botín em Santander, norte de Espanha. Trata-se do complexo cultural da Fundação Banco Santander, que o arquitecto italiano compôs com duas partes ligadas por passagens, com a preocupação de que a sua altura não ultrapassasse as árvores dos Jardins de Pereda e não tirasse a vista para o mar.

Galerias de exposições, auditório, salas de conferências e espaços de trabalho constituem este edifício de cor branca, com revestimento em cerâmica, cujo terraço permite ver a baía e a cidade.

Nos antípodas da discrição da obra de Piano está, como não podia deixar de ser, o hotel Tower, que a recém-desaparecida Zaha Hadid projectou para a Cidade dos Sonhos, na ilha de Cotai, Macau. Mais parece uma escultura futurista que um hotel, este edifício orgânico que tem 40 pisos, 780 quartos, uma piscina no tecto, um casino e todos os outros ingredientes que o integram nesta cidade do jogo, que desde há alguns anos vem rivalizando com Las Vegas.

Finalmente, a página online do Louvre Abu Dhabi abre com a indicação de que este é o ano da inauguração da extensão do famoso museu de Paris, mas sem anunciar data. Trata-se da concretização de um projecto anunciado já em 2007, para o qual foi escolhido o francês Jean Nouvel. “Quis que este edifício oferecesse a imagem de um território protegido, pertencendo ao mundo árabe e a esta geografia”, disse o “Pritzker” francês na apresentação do projecto.

Inicialmente agendada para 2012, a conclusão do edifício derrapou também até agora, ano em que irá abrir um polémico e muito debatido circuito de franchising de grandes instituições museográficas ocidentais no mundo árabe – a seguir virá o Guggenheim Abu Dhabi –, que, neste domínio, parece estar a sofrer de “uma febre de ocidentalização muito acelerada”, nota o arquitecto e curador Nuno Grande, comissário da exposição Les universalistes, que a Gulbenkian apresentou no ano passado em Paris.

E há um nome português ligado a um novo museu, anunciado para abrir também este ano. Trata-se de Sandra Guimarães, que integrou a equipa de artes plásticas de Serralves, e vai ser directora de programação e curadora-chefe do novo Museu Remai Modern, na cidade canadiana de Saskatoon – que tem como núcleo principal uma colecção de mais de quatro centenas de litogravuras e de cerâmicas de Picasso.