Análise

As tendências e os congressos do jornalismo

Uma profissão que discute sem saber se está virada para o passado ou para o futuro, assumindo apenas a crise que vive no presente.

Foto
Nelson Garrido

Na véspera do Congresso dos Jornalistas foi divulgado o Digital News Project 2017, um relatório sobre inovação do Reuters Institute. O seu autor é Nic Newman, que estará em Lisboa no painel de dia 14 para discutir a Viabilidade Económica e os Desafios do Jornalismo.

Grande parte do relatório centra-se nas novidades tecnológicas que aumentam as possibilidades do jornalismo. Em destaque no documento estão as aplicações de voz (que darão origem aqui no PÚBLICO a novos produtos muito brevemente), o vídeo, os serviços de mensagem, os algoritmos e a realidade virtual aumentada. Mas o primeiro tema em evidência é a tendência problemática de notícias falsas que tem vindo a crescer graças às redes sociais. O grau extremo desta situação verifica-se nos Estados Unidos, onde as notícias falsas são uma realidade cujo impacto nas eleições americanas tem sido reconhecido por muitos analistas.

Portugal ainda está longe deste cenário, embora existam vários meios que distribuem conteúdo na Internet e aparentam ser projectos jornalísticos credíveis sem que tenham as preocupações editoriais dos meios de referência. E como no Facebook as “notícias” parecem todas iguais, é fácil enganar os consumidores. Uma outra tendência que começa a emergir em Portugal é a de movimentos de crítica aos media, normalmente a coberto do anonimato, que visam condicionar o exercício informativo livre – o que normalmente é seguido pela criação de títulos com orientações políticas vincadas que passam uma visão não isenta da realidade e servem de berço a projectos políticos populistas. Em resposta a ambos, será de esperar que aumentem os esforços dos meios de comunicação para melhor detectar as informações falsas e melhor verificar o discurso dos actores públicos.

Em Portugal os jornalistas não se reuniam oficialmente desde 1998. Nesse sentido, o Congresso de Jornalistas desta semana segue uma tendência internacional: nos últimos anos o número de eventos sobre jornalismo e comunicação tem aumentado de dimensão e importância, reflectindo a crise dos media e a procura de soluções para essa crise.

Um dos mais importantes é o Festival Internacional de Jornalismo, que decorre em Perúgia durante cinco dias, com entrada gratuita, reunindo grande parte da comunidade jornalística europeia. A edição de 2016 teve 259 sessões, várias delas em simultâneo, a maioria dedicada a questões práticas da produção jornalística.

Também o congresso anual da Online News Association tem aumentado de importância. Reunindo mais de dois mil profissionais, tem um modelo orientado para práticas e baseado em workshops – são mais de 80 sessões que decorrem em paralelo com uma feira de inovações em que estão presentes universidades e empresas que apresentam produtos e serviços para o jornalismo.

Em comparação, o Congresso dos Jornalistas de Lisboa é fértil em discussões teóricas e parco em abordagens práticas. Há apenas workshops sobre literacia estatística e sobre a Pordata produzidos pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, que continua o trabalho de divulgação já iniciado em várias redações nacionais.

Também no programa geral é possível ver alguns temas repetidos em relação ao congresso de 1998. Temas como o Estado do Jornalismo, Ensino, Regulação, Ética e Deontologia, Independência foram discutidos em 1998 e voltarão a sê-lo agora. Onde também se nota o tom deste congresso é no painel final, que pretende projectar o futuro e no qual terão assento os actuais responsáveis pelos grupos de media portugueses. Em contraste, no congresso da Online News Association as tendências de futuro são habitualmente apresentadas pela futurista Amy Webb, que resume o impacto das alterações tecnológicas no trabalho diário do jornalista.

A transição do analógico nos media, que é inevitável, continua a processar-se de forma lenta – demasiado lenta para uma indústria virada do avesso com a adesão dos consumidores ao digital. Em Portugal esse é um problema geral: dos líderes da indústria, mas acima de tudo dos jornalistas, que continuam em grande medida distantes do digital.

Os novos projectos jornalísticos que têm surgido em Portugal nos últimos anos são por natureza digitais. O Observador e o Eco serão os exemplos mais notórios, a par do maior investimento digital que todos os meios fizeram – acompanhando a vontade dos leitores em deixar de consumir as notícias em papel e passar a fazê-lo em meios digitais. Mas a maioria dos jornalistas no activo dedica-se ainda ao analógico e mesmo a formação das novas gerações tem pouco em conta o digital. E isso estende-se ao modelo de negócio: os meios de comunicação foram incapazes de antecipar o impacto da Internet e deixaram-se ultrapassar na inovação, perdendo com isso relevância na sociedade. E hoje os meios que exploram apenas o digital sentem o problema acrescido de depender de uma indústria publicitária cujo modelo de negócio empurra os valores para próximos do zero – só lucra quem tem acesso a uma escala de relevância enorme, como o Google e o Facebook, que dominam o mercado publicitário digital.

A sustentação económica do jornalismo está longe de estar resolvida e terão de ser as sociedades democráticas a decidir se querem ter jornalismo livre ou não. Se o quiserem, como a qualquer outro serviço, terá de ser pago.