Último incidente grave em Almaraz foi o quarto na vida da central

Almaraz funciona desde 1981 e contabiliza mais de meia centena de incidentes, dizem os relatórios ?dos ambientalistas baseados na autoridade de segurança nuclear. Último incidente grave foi em Julho.

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Em 36 anos de história, há registo de mais de meia centena de incidentes em Almaraz NUNO VEIGA/LUSA

O incidente de nível 1 que ocorreu em Julho passado na central de Almaraz e que desencadeou uma série de contactos do Governo português com Espanha foi o quarto a ocorrer desde a sua entrada em actividade, no início da década de 1980. Na extensa lista de mais de meia centena de incidentes com os dois reactores da central, estes quatro são considerados os mais graves.

A preocupação crescente de ambientalistas e populações de Portugal e Espanha que se opõem à construção de um armazém de resíduos nucleares e à extensão de vida activa da central de Almaraz justifica-se pelo número e tipo de ocorrências registadas. O Movimento Ibérico Antinuclear (MIA) elenca falhas, avarias e anomalias e outras ocorrências que começaram ainda antes de a central, a 100 quilómetros da fronteira portuguesa, entrar em funcionamento.

Num histórico realizado há quase seis anos, a Greenpeace contabilizava nessa altura que Almaraz tinha sido sujeita a quatro mil modificações desde o seu arranque, algumas delas de “grande envergadura”, concluindo que “foi mal nascida”. O primeiro reactor entrou em funcionamento em 1981 e o segundo em 1984.

As incertezas acumulam-se em Almaraz, com incidentes, erros, paragens não programadas ou recargas fora da especificação, que, segundo o MIA, afectaram elementos essenciais de segurança. “A central funciona com margens de segurança insuficientes, dado que se permite que funcione com as bombas afectadas por um problema de desenho que pode causar uma falha no circuito terciário, o que impedirá este de extrair o calor do secundário e, por sua vez, do primário”.

Manter a central por mais anos a funcionar, já amortizado o investimento, permite aos seus donos receberem lucros líquidos de 161 milhões de euros por ano, segundo as contas do MIA, e adiarem os custos do seu desmantelamento e a decisão, sempre controversa, sobre o destino a dar ao lixo radioactivo produzido.

Os quatro incidentes mais graves

O primeiro incidente de nível 1, segundo a escala internacional de eventos nucleares, deu-se em Setembro de 1990, com a perda temporária do sistema de extracção de calor residual do núcleo durante 46 minutos, numa altura em que a central se encontrava parada.

Em Dezembro de 1991, verificou-se uma rotura da tubagem do circuito secundário do primeiro reactor, com um buraco de 10 centímetros de largura, com libertação de vapor de água a alta temperatura. Por essa altura, o Conselho de Segurança Nuclear (CSN) concluiu que a falha devia-se à “erosão e corrosão que o vapor de água provocava”. Vários transformadores foram afectados e a unidade parou, recorda o MIA.

Seis anos depois, em 15 de Janeiro de 1997, falhou o interruptor do transformador principal do segundo reactor, com paragem automática. Foi ainda detectado um atraso na inserção de três das 48 barras de controlo do núcleo.

Passaram nove anos até se dar o quarto incidente nível 1, em Julho passado. O CSN começou por o classificar como incidente de grau zero, mas mais tarde reconsiderou e passou-o para o nível 1. “O sistema de limpeza do trocador de calor do sistema de água de refrigeração de componentes esteve fora de serviço durante um tempo superior ao que se estabelece nas ETF (Especificações Técnicas de Funcionamento)”, concluiu a autoridade de segurança, reconhecendo que tinha existido uma violação dos limites operacional de uma central nuclear.

A escala internacional de eventos nucleares (INES, na sigla inglesa) prevê sete níveis de gravidade. O nível 1, em que se encaixam os quatro casos descritos, é tratado como “anomalia”. O nível máximo, de 7, equivale a um acidente muito grave, como o de Tchernobil, 1986, e Fukushima, 2011.

A grande maioria dos incidentes de Almaraz foi classificada no nível zero. Na terminologia do INES, tiveram “significado de segurança zero”, na leitura dos ambientalistas, suscitaram preocupação.

A água do Tejo

Almaraz usa a água da barragem de Arrocampo, na linha do Tejo para o arrefecimento. O relatório do MIA lembra o ano de 1999, quando numa das inspecções, o CSN detectou problemas no sistema de captação de água de serviços essenciais com possível insuficiência de refrigeração, com risco de acidente com fusão do núcleo do reactor.

Os ambientalistas apontam ainda um “incumprimento recorrente” dos limites de temperatura da água devolvida ao rio (a diferença de temperatura entre a água captada e a emitida não pode ser superior a 3 graus) e os seus efeitos sobre os ecossistemas.

Geradores de vapor

Os primeiros problemas dos geradores de vapor de Almaraz, considerados equipamentos principais, vêem de 1981 e derivam do seu desenho inicial, o que tem obrigado a várias intervenções na tubagem que impeçam especialmente a corrosão.

Pelo caminho, foram detectadas várias fugas de vapor. Três geradores do reactor mais velho acabaram por ser substituídos, mas as inspecções à nova tubagem, em 2009, encontraram de novo zonas de corrosão.

Uma lista de incidentes

Entre 29 de Novembro de 1983 e Setembro de 2016, os ambientalistas contabilizam mais de meia centena de incidentes, baseados nos relatórios do CSN. O primeiro foi uma contaminação química do circuito secundário do primeiro reactor. Há quatro meses, a autoridade de segurança revelou que a central de Almaraz usa peças produzidas numa fábrica com irregularidades nos dossiers de controlo de qualidade, embora considerasse que não constituíam motivo para as retirar de funcionamento. São “discrepâncias, modificações ou omissões nos parâmetros de fabricação ou nos resultados dos ensaios obtidos, e que não estavam reflectidas nos dossiers de fabricação dessas peças", segundo o CSN.

Ao longo destes 33 anos, Almaraz teve falhas de válvulas de escape dos geradores de vapor, das bombas de refrigeração, do interruptor do transformador, dos sistemas de refrigeração, de vigilância, escapes de gases radiactivos de tanques interiores, fugas de água radioactiva da piscina de combustível e de vapor, incêndios em equipamentos e fenómenos de corrosão nos circuitos primários, entre outros.