Risco sísmico em Lisboa: "É como estar em cima de um barril de pólvora"

Mário Lopes, investigador do Instituto Superior Técnico, esteve numa reunião com deputados da assembleia municipal e criticou a inércia do poder político face ao tema.

Um cenário como o de 1755 não é assim tão improvável, defendeu o especialista
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Um cenário como o de 1755 não é assim tão improvável, defendeu o especialista Reuters/HO

Erros vários, má fortuna, indiferença. “Se tivermos a repetição de 1755, um terço de Lisboa fica em escombros [e ninguém parece verdadeiramente preocupado com isso]”, lamenta Mário Lopes, professor do Instituto Superior Técnico que há décadas estuda sismos e como prevenir os seus efeitos. O especialista diz que o assunto só não é encarado de frente por falta de vontade política.

“O problema sísmico não se resolve a nível técnico. Isto é, como muitos outros problemas do país, um problema político”, disse Mário Lopes esta quarta-feira aos deputados das comissões de Urbanismo e Mobilidade da Assembleia Municipal de Lisboa. “Nós estamos em cima do problema. É como estar em cima de um barril de pólvora e a mecha estar a arder”, afirmou o especialista, que encontra muitas semelhanças entre a capital portuguesa e Amatrice.

Naquela cidade italiana, abalada várias vezes entre Agosto e Dezembro do ano passado, “não vai ficar uma única construção de pé” e isso deve-se sobretudo a reabilitação urbana mal feita. “O que se faz é um peeling aos edifícios e o resultado é este”, disse o docente universitário, enquanto mostrava aos deputados fotografias de Amatrice destruída. “É uma reabilitação como a que nós fazemos aqui em Lisboa”, atirou.

Mário Lopes deu o exemplo de Nórcia, uma cidade a cerca de 60 quilómetros de Amatrice, também fortemente abalada por terramotos em 2016. O investigador explicou que, nos últimos 40 anos, quase todas as infra-estruturas de Nórcia tiveram obras de reforço sísmico, o que contribuiu para que as consequências tenham sido muito menos graves ali.

Em Lisboa, lamentou, nem as construções novas, nem as reabilitações têm em conta o risco de terramotos. “A Baixa é um marco da história da humanidade que nós próprios temos andado a destruir”, disse, referindo-se à remoção das chamadas "gaiolas pombalinas" e ao aumento do número de pisos sem o reforço das bases dos edifícios. “Isto é a receita para o desastre.”

“Pontes são mais seguras do que os prédios”

Mário Lopes, vice-presidente do Instituto de Engenharia de Estruturas, Território e Construção do Técnico e, durante muitos anos, presidente da Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica (SPES), já muitas vezes discutiu estes temas com o poder político – mas até agora sem grande sucesso. “Isto não é um conjunto de aldrabões que inventaram aqui umas patranhas para ganhar algum dinheiro à custa da reabilitação urbana, isto é um problema de todos os portugueses”, disse.

Recordando uma intervenção do professor universitário no Parlamento, há uns anos, que a deixou “aterrorizada”, a deputada municipal do PSD Rosa Carvalho da Silva perguntou a Mário Lopes se as duas pontes de Lisboa também corriam risco de colapso em caso de sismo. A resposta do especialista provocou burburinho entre os presentes: “Está-se mais seguro em cima da Ponte 25 de Abril ou da Vasco da Gama do que em muitos prédios de Lisboa.”

O problema é tanto de legislação – que não estabelece regras claras para reabilitações –, como de fiscalização das obras, disse o docente. Os deputados municipais não fizeram comentários ou perguntas sobre esse tópico, mas Mário Lopes insistiu uma vez mais que “é fundamental que o Estado dê o exemplo”, uma vez que “o problema não existe no inconsciente das pessoas”.

Esta foi a primeira de um conjunto de reuniões sobre o risco sísmico de Lisboa promovidas pela Comissão de Urbanismo da assembleia municipal. No fim, os deputados querem publicar um relatório com as conclusões de todas as audiências.