Assis duvida que “seja desejável” que o Governo chegue ao fim da legislatura

Aos microfones da Renascença, no programa Carla Rocha, o eurodeputado do PS não considera a duração da solução governativa um “êxito particularmente relevante”.

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Francisco Assis volta a crtiicar solução governativa de António Costa ADRIANO MIRANDA

O eurodeputado Francisco Assis, do PS, volta à carga para dizer que tem “fortes dúvidas” de que o Governo liderado por António Costa e com suporte parlamentar dos três partidos à esquerda do PS chegue ao fim da actual legislatura e que duvida que isso seja “desejável”.

“Tenho fortes dúvidas e, sobretudo, que seja desejável que o Governo chegue ao fim da legislatura”, declarou esta quinta-feira o ex-líder parlamentar do PS, que foi, desde a primeira hora, uma das vozes que contestaram a actual solução governativa.

"Entendo que as nossas divergências de fundo com o PCP e Bloco de Esquerda são de tal ordem em matérias fundamentais que não dão garantias de termos um Governo com uma verdadeira capacidade reformista", declarou o ex-líder parlamentar do PS, em Novembro do ano passado, apontando como exemplos de divergências de fundo as áreas da economia, das finanças, a União Europeia e "o próprio modelo de sociedade".

Um ano depois, no programa Carla Rocha - Manhãs da Renascença, no espaço de comentário que partilha com João Taborda da Gama, Francisco Assis disse que não considera a direcção da solução governativa um “êxito particularmente relevante”.

“Não me surpreendeu a longevidade [deste Governo] estava à espera que isso acontecesse. Tenho uma perspectiva crítica em relação a esta solução política, mas estava à espera que se aguentasse durante algum tempo”, sublinhou Assis.

O eurodeputado, que tem protagonizado alguns episódios de oposição ao modelo governativo, diz, no entanto, que o primeiro-ministro “revelou características políticas muito grandes, que o levaram a colocar-se uns patamares acima da solução política que ele próprio concebeu e está liderar”.

Apesar das críticas, Francisco Assis deixa elogios a António Costa pelo papel que tem tido em “questões decisivas” relacionadas com a Europa e mostra-se surpreendido. “Nesse sentido, surpreendeu-me a forma como conseguiu contornar as reacções negativas passadas pelo outros partidos [PCP e BE]”.“António Costa tem sabido manter uma linha de orientação e não tem cedido em nenhum aspecto essencial e isso merece o meu respeito”, disse Assis, que deixa uma profecia:” "É por aí [posições perante a Europa] que as contradições se vão manifestar”.

Francisco Assis, que se chegou a posicionar para ser uma alternativa a Costa, considerou uma “indignidade” o PS não apresentar um candidato à Câmara do Porto nas eleições autárquicas de 2017 e criticou a “indisponibilidade de princípio [manifestada por Rui Moreira] para a celebração de qualquer compromisso com os partidos políticos” para defender uma candidatura dos socialistas.

“Príncipe da ambiguidade esclarecida”

No artigo desta quinta-feira no PÚBLICO, Francisco Assis refere-se a António Costa, afirmando que ele "ficará para a história contemporânea, entre outras coisas, como um príncipe de ambiguidade esclarecida. Nele as palavras adquirem polivalência, mas nunca ganham autonomia”. Para o eurodeputado, “a hermenêutica" dos dicursos de Costa "deveria ser uma disciplina para levar a sério, não fora o excesso de credulidade ou de impreparação de grande parte dos analistas nativos”. “Como homem avisado que é, ele sabe que está a entrar na fase decisiva da sua acção como primeiro-ministro e como líder da improvável coligação das esquerdas. Por isso mesmo vai dando sinais à navegação que não devem ser desvalorizados”, lê-se no artigo intitulado António Costa, príncipe da ambiguidade esclarecida.

“Por mérito próprio, soube colocar-se acima da solução, por natureza contraditória, que concebeu e aplicou. Uma só coisa - mas essa coisa é muito importante - deve tirar-lhe o sono: a eficácia do demiurgo esgota-se me grande parte no instante em que a sua obra nasce. Depois a obra ganha asas, e adquire de tal forma vida própria que não raro se volta contra o próprio criador”, escreve Francisco Assis.