Opinião

Caro ministro poeta ministro

Força Luís Miguel, pois o que cessa, de algum modo continua, não só pela lei da inércia mas porque está lá o farol dessa identidade complexa do que foi o teatro, do que foi o vosso trajecto, do que ainda poderá propulsionar.

A Cornucópia é um caso de amor ao teatro e o seu fim, a negar, seria o fim de um teatro que se tentou firmar num país que inscreve permanentemente o fácil — decisionismo, autoritarismo, em método — como meta de cozinhas imediatas e detesta o futuro se ele se apresenta qualificado e duro de roer, construção nada realizável por gesto administrativo, quando é feito de cumplicidades a estender, orgânicas articulações, entre gentes e território, por meio de exércitos de capitães — chateia a metáfora militar, mas Gramsci pensava além dela.

[O teatro é um monstro de articulações, autor, elenco, cada actor, cenógrafo, encenador, maquinistas, iluminador, espacializadores de som, arquitectos, pintores, cenaristas, costureiras, projectores de precisão, espalhadores e perseguidores, coisas pesadas, filtros, lindíssimos, carregadores, escadas, engradados, pano cru, tarlatana, cola branca, madeira e ferro, brocados e corpetes, muitos pregos, parafusos aliás, poliuretano, pé direito, escada telescópica, teia, panos negros, bastidores, cicloramas e tanta outra diversidade de coisas que mostra e vive dentro, que a realidade, comparada com ele, empequenece — em boa verdade é tudo o que o real é mais o que ele, teatro, imagina e mesmo aquilo que não é, nem existe, o teatro pode ser.]

A Cornucópia é mais do que o que foi, e é-o agora, pois deu substância e sinalizou esse teatro que será a melhor origem do teatro por vir, que pode legar continuando a ser o que é, pelo que é de obcecadamente crítico, clarificação do futuro como humanidade livre, pelo que significa de assunção da herança, da diversidade das estruturas dramáticas, da depuração dos dispositivos cénicos e cenários, acontecimentos de arquitectura, pelo reportório, pela persistência nos clássicos numa altura em que o que está a dar é fazer súmulas físicas, resumos prêt à porter, teatro para meio olho de um único espectador, porno-fracturante, teatro de fazer até o que lá está pondo lá outra coisa qualquer, popularucha, performativo-espontânea e principalmente rápida — a velocidade tomou conta de um labor lento, lento ao ponto de em certos teatros em que se ensaia repetidamente até à descoberta do que se procura, se habitarem os textos, e as formas, em namoros colectivamente profissionais de muitos meses, como era o caso no Berliner: há experiências que não podem depender de uma corrida para a estreia em linha de montagem e resposta fotogénica da cena para efeitos de marketing —corpos publicitários fluindo à velocidade da luz colorida que inebria, pavlovizados os gestos em clichés reconhecíveis —, embora outras devam e possam ser rápidas, dependendo disso.

Não há, portanto, uma regra e qualquer homogeneização dos sistemas de produção será uma formatação abusiva, bullying administrativo, um empobrecimento, uma forma de impor o mesmo, o idêntico, o mimeticamente reconhecível como o teatro que querem impor como padrão pós pós moderníssimo, não o podendo ser, nem o sendo — não esqueçamos os 25 séculos, Ésquilo e Édipo, nem as arquitecturas teatrais no tempo, nem as formas espectaculares geradas pela sua continuidade e rupturas, sempre em luta contra incêndios e censura, puritanismo ou economia, nem o século de encenação, poéticas da cena, desde Antoine a Crimp, passando pelos esquecidos Kantor e Artaud, por Brecht e Beckett, Strehler e Chéreau, Brook, Ostermeier e tantos outros em tantos outros mundos de línguas e tradições diversas. É uma arte de artesanatos, do corpo imperfeito e amodelar, de perfeccionismos desejados sempre traídos pela imperfeição dos corpos, poéticos e frágeis, teatro dos olhares o Marivaux, da palavra e das conjuras de poder dos de cima e suas ambições, Shakespeare, de mostrar demonstrando na economia e na história, Brecht, do gesto testamentário e existencial, Beckett, da língua alegre e explosiva em parto de si mesma, Vicente, concretizado pelo coro heterodoxo do timbre singular das vozes de cada actriz e actor, pelo acidente imprevisto, pela branca, pela tensão sem controlo — tu não podes saber como vai bater o teu coração quando queres dizer o que dizes com tal modulação vocal à boca ou ao fundo da cena. Não é?

Portanto um teatro, não esse que se assume como servo de um mercado inexistente por pura adaptação ao que os poderes querem ouvir dentro da ideologia bruxelense-americanizada, porque realmente têm a cabeça assim feita, mas o outro, intensamente humano e de “humorismo fora de tom” — Pirandello — anacrónico e inadaptado e por isso mesmo profundamente contemporâneo e humano — não fixas a realidade senão afastando-te dela, fora do seu tempo e do seu espaço, do seu tempo-espaço, noutro ponto da história e escapando a ser vítima das ilusões da estória.

Se me atrevo a falar é porque estava lá, no Laura Alves, nesse Misantropo em casa de outro teatro, comercial, no Capitólio, ao Parque Mayer, A Ilha dos escravos, no Ah Q dos socalcos, com o Orlando Costa e o Passos, o Jorge, aquele cenário depurado e em socalcos e linhas suaves inventado pela Cristina Reis, nossa referência constante, tão para ver do sítio de onde se vê, no Casimiro e Carolina do Horvath, e estive lá, na Comédia do Rei Bamba e muitas vezes, na sala, a ver, a conhecer o que me revelavam, Shakespeare, Ricardo III, e ainda ontem, 44 anos depois da primeira vez, Appolinaire.

Caro poeta: o que o ministro tem de fazer só uma reforma profunda da estruturação do teatro em Portugal permitirá, desde o sistema concursal, sem rosto que o esclareça, plataforma electrónica sempre a cair no lugar do diálogo, profundamente restritiva até na exposição do que queres projectar e plena de repetições e imprecisões conceptuais — instrumento repressivo tal como está a funcionar — à identidade diversa de cada projecto numa convergência político-teatral capaz de uma ideia de país e gentes, territórios e assimetrias, desertos de iliteracia e acção cultural.

O futuro do teatro é o futuro da língua, da qualidade hermenêutica da língua, das suas potencialidades como inteligência cognitiva na cabeça de cada um pela sua diversidade geneticamente cultural e pelo poder que confere, como língua materna, colhido na amamentação verbal. Esse futuro é também o futuro da diversidade dos projectos, de cada projecto culto e consistente, imperfeito mas autêntico, ético-estético e banhado numa força projectual artisticamente informada, crítica e verdadeiramente propulsora idealmente, no quadro do projecto que o poder, em democracia, tem de ter, justamente como componente a estruturar na democracia para inscrição do teatro no seu corpo. O teatro é um outro da política e nasceu com a democracia. Ele aí está como forma superior do exercício da política porque força crítica e sondagem verdadeira do mais profundo da vida e da crítica da estruturação sistémica das desigualdades, também como sensibilidade a partilhar num mundo em que o seu aberto só ensina a estupidez que entretém e a violência. A escola do seu ver é uma escola sensível em assembleia, em comum. É um periscópio e uma sonda, um revelador analógico presencial, um espelho que deforma para formar. Do que precisamos? Desse país que tarda em vir e que se chama aprofundamento daquela democracia que nasceu em Abril.

Senhor ministro: o poder não governa por concurso apenas, delegando em formas arbitrárias e muitas vezes pouco transparentes de decisão, sem massa crítica que as qualifique, governa sim com projecto. O teatro necessita de ser um todo nacional numa lógica de serviço público artístico qualificado. E um todo inserido no mundo global e suas partes, de Espanha ao Brasil e a Cabinda, aos Açores, passando por Itália, ou pela Suécia, porque não? E se é preciso mais dinheiro, é também necessária coragem. Só uma poda criteriosa faz florescer e frutificar o que tem de vir como democracia qualificada enquanto teatro, escola e criação, como qualquer jardineiro sabe, sendo necessário também que à boa terra e ao bom estrume chegue a boa água. E também lá onde as paisagens, com pessoas dentro, vivem um pouco solitárias e os incêndios ocorrem tragicamente: o desleixo paga-se muito caro. Nem só de turismo se alimentam as criaturas e em boa verdade nada há de mais gourmet que muitos dos fragmentos da Rubena. Quem os saboreou que diga. Infelizmente na escola não se lê, Vicente é mais que pisado.

Força Luís Miguel, pois o que cessa, de algum modo continua, não só pela lei da inércia mas porque está lá o farol dessa identidade complexa do que foi o teatro, do que foi o vosso trajecto, do que ainda poderá propulsionar. Ainda andamos atrás do Stanislavski, vê lá tu, quando experiências mais interessantes nem sequer fazem ainda onda.

Actor e encenador

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