Daesh reinvidicou atentado de Berlim, mas não se sabe quem foi o autor

Polícia libertou o suspeito detido por falta de provas. Refugiados na Alemanha temem represálias, por causa do clima de suspeição.

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Velas e flores em memória das vítimas não pararam de chegar à praça Breitscheid durante todo o dia Hannibal Hanschke/REUTERS

Dor e interrogações. Foi assim que Berlim ficou, 24 horas depois de um camião ter avançado sobre um mercado de Natal, esmagando quem apanhou pela frente – pelo menos 12 pessoas morreram, 48 ficaram feridas, 14 delas com gravidade. A polícia alemã teve de libertar o único suspeito detido, um refugiado paquistanês, por falta de provas. O verdadeiro autor do atentado, que foi reclamado pelo Daesh, está ainda à solta.

Naved B., de 23 anos, foi capturado pouco depois de o camião ter investido contra o mercado de Natal da praça Breitscheid, junto à igreja memorial Kaiser Wilhelm, meio em ruína desde a II Guerra Mundial, tal como a deixaram os bombardeamentos dos Aliados, para recordar esses tempos de cólera. Mas a polícia admitiu desde cedo que podia não ter o homem certo – que, aliás, dizia ser inocente.

As testemunhas que tinham visto o condutor sair do camião afinal não o tinham mantido sempre debaixo de olho. E, diz a revista Spiegel, uma vez que a polícia está a considerar que o condutor polaco do camião foi morto a tiro, esperava encontrar vestígios de pólvora na roupa ou nas mãos do suspeito – o que não se verificou. “As análises forenses até agora não provaram a presença do suspeito durante os crimes na cabina do camião”, disse o Procurador Federal, em comunicado.

Ao fim do dia, a agência de propaganda do Daesh reivindicou o ataque. O autor “é um soldado do Estado Islâmico e executou a operação em resposta aos apelos de escolher alvos nos países da coligação” que combate a organização no Iraque e na Síria. No entanto, parece tratar-se de uma reivindicação oportunista e não de um atentado organizado pelo Daesh.

Por toda a Europa, a segurança foi reforçada nos típicos mercados de Natal, e nos locais onde se juntam muitas pessoas. “Mas não se podem transformar estes mercados em fortalezas”, disse Klaus Kandt, o dirigente máximo da polícia estadual berlinense. “Nunca conseguiremos eliminar completamente o risco.”

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A chanceler Angela Merkel, o Presidente Joachim Gauck e outros membros do Governo na missa em memória das vítimas Michael Kappeler/REUTERS

O condutor polaco do camião chegou à capital alemã e falou com a sua mulher pelas 15h de segunda-feira, segundo revelam os dados do GPS, disse o seu primo e proprietário da empresa para a qual trabalhava, Ariel Zurawski. “Às 15h45 pode-se ver o camião a andar para trás e para a frente, como se alguém estivesse a aprender a conduzi-lo. Percebi que havia alguma coisa errada”, disse, citado pela Reuters.

Se se confirmasse que um refugiado recente – Naved B. tinha chegado à Alemanha no fim do ano de 2015 – era o autor do atentado, ia acontecer algo muito feio, avisou a chanceler alemã. “Seria algo particularmente difícil de suportar para nós”, afirmou Angela Merkel. “Seria especialmente repugnante para muitos alemães que diariamente se envolvem na ajuda aos refugiados, e contra as muitas pessoas que precisam mesmo da nossa protecção e tentam integrar-se no nosso país”, declarou a chanceler, que ao fim do dia se juntou à missa em memória das vítimas, na igreja de Kaiser Wilhelm, junto ao local do atentado.

O ministro do Interior, Thomas de Maiziére, reiterou à televisão ZDF a convicção de que se trata de um atentado terrorista – mas não é possível ainda compreender quais as suas motivações políticas. Aliás, o mesmo aconteceu com o ataque de Nice, em que o então ministro do Interior francês, Bernard Cazeneuve, disse que o homem que matou 86 pessoas com um camião, que tinha alguns problemas de saúde mental, se radicalizou de forma “extremamente rápida”.

O receio é o de que este ataque marque o momento decisivo da viragem da política de “boas vindas” alemã em relação aos refugiados – ainda que o suspeito tenha sido libertado. “Se o culpado for um refugiado, a política de ‘portas abertas’ de Merkel terá uma mudança decisiva”, escreveu no Guardian Josef Joffe, director do semanário alemão Die Zeit.

Em 2015, cerca de 800 mil refugiados do Médio Oriente entraram na Alemanha, graças a um gesto de boa vontade com origem no passado negro do país – “um acto de redenção histórica” do nazismo, chama-lhe Joffe. Mas esse desejo de expiação começa a fraquejar, e começam a ser impostos limites, que tendem a agravar-se com os receios do terrorismo. “A Alemanha, que até agora tem tido sorte, juntou-se agora ao clube de alvos do terrorismo no Ocidente”, escreveu o director do Die Zeit.

Os refugiados na Alemanha percebem que correm perigo, pelo ódio que este ataque está já a suscitar, nas redes sociais e não só. Por exemplo, um grupo de extrema-direita quer fazer uma manifestação quarta-feira a começar no Zoo, perto do local do atentado, sob o lema "Fechem as fronteiras – sangue nas mãos de Merkel", diz o jornal Berliner Zeitung.

“Estamos preocupados com a forma como os alemães vão olhar para nós depois deste atentado”, disse ao Guardian Ibrahim Sufi, um sírio de 26 anos. “Não temos nada a ver com este crime”, disse Ammar Wazzaz, outro refugiado sírio, de 45 anos, de Idlib. “Estamos muito gratos à Alemanha.”