Crítica

Olha o robot

Rogue One é um blockbuster competente mas inútil que reduz o “universo” de George Lucas a mais um franchise coleccionável para fazer concorrência aos super-heróis.

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Depois do recomendável reboot de A Guerra das Estrelas faz agora um ano com O Despertar da Força, Rogue One é o primeiro filme “autónomo” e independente das nove aventuras originalmente concebida por George Lucas, e o filme que decide se a criação de George Lucas continua a ter pernas para andar ou se a sua absorção pelo império Disney a transformou numa mera linha de montagem.

Rogue One foi entregue ao britânico Gareth Edwards (cuja Godzilla provou ser um dos mais inteligentes blockbusters americanos recentes), e segue as aventuras de Jyn Erso (Felicity Jones, de A Teoria de Tudo) na tentativa de obter os planos de uma arma de destruição maciça do Império. Não é preciso fazer nenhum spoiler alert para perceber que esta história, que decorre no período temporal que medeia entre A Vingança dos Sith e a Guerra das Estrelas original, não é assim tão autónoma como isso. E aí reside todo o problema de Rogue One e a resposta à pergunta que colocámos logo a abrir este texto: a Disney reuniu muita gente talentosa (só nos actores, para além de Jones, Mads Mikkelsen, Forest Whitaker, Jiang Wen ou Diego Luna) para se limitarem a encaixar num mecanismo pré-existente, para cumprirem aquilo que se espera deles e nada mais.

Porque Rogue One é precisamente isso: um filme para cumprir expectativas, um “Tapa-buracos” para preencher um vazio narrativo no “universo”. Um objecto sem alma nem inspiração, puramente funcional, onde todas as cenas remetem inevitavelmente para os outros filmes da série, no qual toda e qualquer personalidade – dos actores, dos técnicos, dos argumentistas, onde se conta Tony Gilroy, o autor da série Bourne e realizador de Michael Clayton – é estrangulada para que nada saia fora dos carris.

Rogue One é um filme sobre uma rebelião e sobre a esperança que a faz nascer onde não há nada de rebelde nem de pessoal. Quando a personagem mais humana do filme é o robot K-2SO, vocalizado com infinita graça com Alan Tudyk (geek alert: sim, esse de Firefly), fica revelado que Rogue One é a submissão de Star Wars ao poder do franchise hollywoodiana.

Gostasse-se ou não, havia alma e alguma personalidade nos outros filmes da série; deles sobra apenas aqui o vistão dos efeitos visuais e alguns momentos intrigantes (um ou outro plano mais trabalhado, um ritmo de montagem menos frenético do que habitual, algumas cenas de acção filmadas de modo legível e inteiro) que sugerem um outro filme, que talvez Edwards tenha querido fazer antes da Disney impôr uma série de alterações e re-filmagens. Como as pipocas, Rogue One é um balde cheio de calorias vazias, que enche o olho e distrai durante duas horas e se esquece assim que acaba. Habituámo-nos a mais de Star Wars, mas parece que é assim que vai ser daqui para a frente.