Portugueses na ONU esperam que Guterres seja líder consequente

É grande a expectativa no primeiro secretário-geral português. Dele espera-se que seja capaz de fazer dos problemas oportunidades.

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Funcionários da ONU no edifício-sede das Nações Unidas, em Nova Iorque Spencer Platt/Getty Images/AFP

Na liderança das Nações Unidas, Ban Ki-moon fez aprovar o Acordo do Clima de Paris. Aprovou os novos 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, que determinam a agenda mundial para o período entre 2020 e 2030. Durante o seu mandato, o Conselho de Segurança também passou importantes resoluções sobre a Coreia do Norte, a Síria ou o conflito israelo-palestiniano. Agora, esperam os funcionários portugueses da organização, António Guterres será o homem que fará esses compromissos acontecer.

“Se Ban Ki-moon foi o secretário-geral do diálogo e da negociação, que fez um excelente trabalho ao aprovar estes importantes acordos, a expectativa agora é que António Guterres seja o líder que os faça acontecer”, diz Pedro Conceição, economista-chefe do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. “Os acordos existem, é preciso que se traduzam na realidade. É, sem dúvida, o final de um ciclo e início de outro.”

Pedro Conceição é funcionário da ONU há 15 anos. Depois do ganense Kofi Annan e do sul-coreano Ban Ki-moon, o português será o terceiro secretário-geral para quem trabalha. “Todos os secretários-gerais têm o seu estilo de liderança e imprimem um cunho muito pessoal ao cargo”, diz. “Mas todos têm esta função, que torna o cargo tão importante, de ser uma voz moral que faz cumprir os acordos, mesmo quando há eleições e surgem novos líderes e novas políticas.”

Helena Afonso, que trabalha no Departamento das Nações Unidas para os Assuntos Económicos e Sociais (DESA, na sigla em inglês), diz que a turbulência na comunidade internacional veio reforçar o sentido de missão da organização e do seu líder. “Sente-se a necessidade de promover cada vez mais a resolução de problemas através do multilateralismo, por oposição às tendências crescentes de bilateralismo e regionalismo.” A portuguesa acredita que “os países têm mais do que nunca a necessidade de cooperar entre si a uma escala cada vez maior, se querem vencer problemas como as alterações climáticas, pandemias ou a pobreza e desigualdades”, e é nesta capacidade de “catalisador de acção global que a ONU tem de assumir um papel de liderança forte”.

Novo ambiente mundial

António Guterres assume o cargo no dia 1 de Janeiro, mas o trabalho de preparação para estes desafios começou há mais de uma década, no dia 1 de Junho de 2005. Nuno Crisóstomo trabalha no centro de operações da Unicef, um serviço disponível 24 horas por dia que responde a casos de emergência com crianças em todo o mundo, e passou por mais de 70 países nos últimos 15 anos. “Cerca de metade dos refugiados, em qualquer situação, são crianças. Por isso trabalhámos muito com o engenheiro Guterres quando ele foi alto-comissário para os Refugiados”, lembra o português. “E isso é verdade em muitos outros casos. A sua experiência no alto comissariado exigiu que trabalhasse com muitas das diferentes agências e departamentos da ONU. Essa colaboração é vista sempre como muito positiva, por isso há uma apreciação que vem de trás, que não nasceu com esta campanha ou eleição, e que gera boa vontade à sua volta.”

Nuno Crisóstomo acredita, por isso, que os maiores obstáculos para Guterres serão externos. “Assistimos a alguns votos de protesto e é provável que continuem. Guterres vai ter de operar neste novo ambiente internacional e por isso é tão importante esta ideia de consenso à sua volta.” O especialista acredita que Guterres “vai ter de enfrentar desafios que são novos para a organização” e que “isso não é apenas mau, porque representa uma oportunidade para haver mudanças”.

Uma dessas oportunidades, acredita o economista Pedro Conceição, pode nascer no discurso contra o aumento das desigualdades. “As Nações Unidas falam deste problema há bastante tempo: há uma acumulação de riqueza num extremo que não se traduz num aumento da qualidade de vida no outro extremo”, explica. “Algumas das frustrações com estes padrões de crescimento económico, que têm respostas em programas da ONU, podem agora encontrar novos, e surpreendentes, aliados.”