Editorial

Educação: a evolução contínua

O sucesso obtido no PISA tem, todavia, um reverso: a taxa de retenção — um eufemismo para reprovação — dos estudantes que aos 15 anos ainda se encontram nos níveis anteriores.

Os resultados positivos dos estudantes portugueses no PISA — o maior teste à literacia em 72 países, que é feito de três em três anos — são um motivo de orgulho e de reflexão. Em seis edições do estudo, esta foi a primeira vez que os estudantes de 15 anos conseguiram resultados superiores à média da OCDE a Ciências e Leitura e resultados semelhantes ao do estudo anterior a Matemática. A evolução dos alunos portugueses nas três áreas em apreço é ainda mais surpreendente se tivermos em conta que Portugal se encontrava há 16 anos no antepenúltimo lugar nas duas primeiras e que só quatro países apresentavam piores resultados a Matemática. Estamos hoje mais perto de Singapura do que da República Dominicana ou do Líbano.

Discutir o mérito desta evolução é abrir uma caixa de Pandora da qual sairão muitos primeiros-ministros, muitos ministros, muitas reformas, paixões q.b. pela Educação, etc., como fez ontem Passos Coelho, ao reivindicar para o seu Governo os bons resultados obtidos neste triénio. Uma coisa é certa: Portugal foi o único país da UE que melhorou continuamente desde 2000, ao contrário do que tem acontecido com a Finlândia, cujo sistema de ensino tem sido considerado como um modelo a adoptar, e essa evolução não pode ser propriedade de alguém. Se o for, que o seja dos professores (uma classe profissional penalizada nos últimos anos) e dos alunos.

Como nota a OCDE, a evolução contínua não é separável dos recursos das escolas, das qualificações dos respectivos professores e da flexibilidade destes para adaptar o conteúdo das aulas de Ciências às necessidades dos alunos. E, convém sublinhá-lo, da retaguarda que cada um deles tem em casa. Por isso, não deixa de ser preocupante que mais de um quarto dos portugueses, segundo um estudo da Edulog, da Fundação Belmiro de Azevedo, afirme não ajudar os filhos com os trabalhos de casa.

O sucesso obtido no PISA tem, todavia, um reverso: a taxa de retenção — um eufemismo para reprovação — dos estudantes que aos 15 anos ainda se encontram nos níveis anteriores. Embora tenha diminuído entre 2012 e 2015, a percentagem de retenção até aos 15 anos em Portugal é o dobro da média dos países da ODCE, apenas superada pela da Bélgica e da Espanha. Numa aparente contínua reprodução social, o mais preocupante é isto: as retenções estão associadas ao contexto socioeconómico. Esperemos pelo próximo PISA.