Há a percepção de que "quem comete crimes é alguém que pertence a outra raça"

O discurso explícito contra pessoas de outras raças ou etnias é deixado a uma extrema-direita que tem pouco impacto, diz a investigadora Alice Ramos. "A ideia da ameaça está muito baseada em preconceitos".

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Investigadora destaca que “Portugal está a começar a registar uma maior abertura” à imigração DR

A investigadora do Instituto de Ciências Sociais – Universidade de Lisboa (ICS-UL), doutorada em Ciências Sociais, Alice Ramos, integra desde 1996 a equipa de investigação do programa Atitudes Sociais dos Portugueses do ICS que este ano  publica um segundo estudo sobre Migrações e Refugiados que envolve 20 países europeus. Os resultados encontrados relativamente às atitudes e percepções dos portugueses não diferem muito dos registados em 2002 e 2003.

Neste estudo, Portugal surge entre os países que mostram maior oposição aos imigrantes. Não a surpreende?
É um dos três países [logo a seguir à Hungria e República Checa] que apresentam maior oposição à imigração e de facto não me surpreende. Estas perguntas são feitas desde 2002 e Portugal sempre foi dos países com maior oposição. O importante é ver que Portugal está a começar a registar uma maior abertura, está dentro do conjunto de países que melhoram desse ponto de vista.

As pessoas que vêm de fora são mais vezes vistas como uma ameaça à segurança do que como uma ameaça à economia. Porquê?
O arrastão [há dez anos em Carcavelos] foi um caso típico. Quando a violência é perpetrada por alguém que é percebido como pertencendo a um grupo étnico diferente ou a uma raça diferente, é muito mais notícia do que se for perpetrada por alguém de raça branca. A notícia sai e esse aspecto é valorizado. Quando se trata da economia, as pessoas percebem que há desemprego para todos. E acabam por perceber que não são os imigrantes que dificultam ou lhes tiram o trabalho. Os imigrantes vêm fazer os trabalhos que as pessoas que estão cá não querem fazer. Assim como os portugueses, que antes emigraram para França ou para a Alemanha, faziam trabalhos que os franceses e os alemães não faziam. Eram porteiras, iam para a construção civil, para as fábricas, para os serviços de pessoal, para as limpezas. Relativamente à segurança, existe de facto uma imagem muito associada de que quem comete crimes ser alguém que pertence a outra raça ou a outro grupo étnico.

Ainda existe muito essa percepção em Portugal?
Em Portugal e não só. O que acontece é que, ao fim de tanto tempo, uma maior integração do imigrante e da realidade da imigração nos países europeus faz com que os imigrantes sejam menos vistos como uma ameaça, embora nós saibamos que muito desta percepção de ameaça está muito baseada em preconceitos, em estereótipos: se alguém é da etnia cigana terá características de alguém que se associa à etnia cigana. Estas pessoas estão muito mais marcadas pelo estereótipo.

O facto de Portugal ser dos países menos abertos à imigração, significa que é um dos mais racistas?
Não podemos dizer isso. O índice geral com as várias categorias de imigrantes mostra que estamos na média. É mais importante Portugal ter baixado muito do que Portugal ser ainda dos que manifestam mais oposição. Esta tendência de redução, além de a vermos em Portugal, só a verificamos na Suécia, na Alemanha, na Noruega. Os outros países mantiveram-se mais ou menos iguais. Veja-se o caso da Irlanda, pelo contrário, era dos países com maior abertura e agora está no mesmo nível de Portugal. Sobe muito.

A maior ou menor abertura à imigração tem vindo a alterar-se com os discursos da extrema-direita na Europa?
O discurso da extrema-direita tem um impacto fortíssimo na opinião das pessoas sobre imigrantes, exactamente porque a luta contra a imigração está na agenda dos partidos de extrema-direita.

E porque as pessoas estão receptivas a esse discurso?
Estão. Não é só nos países onde os partidos se situam mais à direita, é também nos países onde a direita tem mais visibilidade e onde o seu discurso chega a mais pessoas. Em Portugal, não temos um discurso de extrema-direita que se faça ouvir. Tivemos há umas semanas uma manifestação do PNR [Partido Nacional Renovador], mas são acontecimentos muito pontuais. Não temos os partidos de centro-direita, que estão dentro das regras da democracia, a fazer um discurso de extrema-direita. São os partidos de extrema-direita que fazem esse discurso contra as pessoas porque são negras ou porque são ciganas. Mas na Alemanha, na Áustria, na Hungria, na República Checa, na Finlândia, todos os países onde a extrema-direita é mais visível e é mais ouvida, isso tem um impacto muito grande nos cidadãos. As pessoas são permeáveis a esse discurso, sobretudo aquelas que não têm uma posição ideológica muito definida.

Nota: o "arrastão" de Carcavelos ocorreu há dez anos e não há 20, como estava escrito.