Mario Anzuoni/Reuters
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Megafone

Um concerto do Bieber vale mais que a educação

A culpa deste comportamento incompreensível para tantos reside na negligência dos pais, que se esquecem que antes de um concerto do ídolo dos filhos, é mais importante o bem estar, a saúde e os limites deles

É quase meia noite e chove que se farta, é assim no resto do país, também é assim à porta do Meo Arena.

São na maioria adolescentes, alguns ainda na fase inicial da adolescência e cometem as maiores loucuras para ver o Justin Bieber. Loucuras ao ponto de dormirem à porta do local do evento por mais do que uma noite e logo quando a meteorologia os tramou e lhes deu os dias mais frios e chuvosos do ano. Faltam às aulas, interrompem o curso normal de um dia necessário e fazem filas que duram dia e noite, só para serem os primeiros a entrar.

Percebo que o artista possa gerar ondas de fanatismo e entendo os jovens, e porque é próprio da idade, fiquem iludidos com o primeiro contacto quase directo com o ídolo deles. A culpa menor até será a do artista. Mas onde é que estão os pais? Esqueceram-se de repente que ainda têm o poder tutorial sobre os filhos? Que são eles que optam pelo destino imediato destes?

Eles existem para travar as loucuras próprias de uma idade que não conhece a racionalidade e opta sempre pela excentricidade ou pela ilusão. É difícil entender como um pai ou uma mãe permitem que os filhos durmam debaixo de chuva, ao frio, e coabitem por dois ou três dias num metro quadrado com acesso a um pavilhão. Que possam adoecer e passar mal. É inconcebível e irresponsável.

Sei que os sonhos são importantes na vida das pessoas, na dos jovens ainda mais, que são eles que nos dão rumo quando desconhecemos o caminho. Mas estes jovens não vão receber a entrada directa para Harvard, um diploma das mãos do Presidente da Republica ou uma formação para melhores adultos ou melhores pessoas; eles vão assistir a uma hora de concerto, isto se o Justin Bieber não estiver mal disposto e num instante, por capricho, resolver actuar por meia hora. Porque ele não lhes corresponde os sonhos, não lhes acrescenta e daqui a quatro ou cinco anos começa a deixar de fazer sentido na vida deles.

Mas a culpa deste comportamento incompreensível para tantos reside na negligência dos pais, que se esquecem que antes de um concerto do ídolo dos filhos, é mais importante o bem estar, a saúde e os limites deles. É até preocupante e faz-nos pensar sobre a educação, que começa atrás das grades, das do palco, que se estende aos caprichos, sem consequência e só depois se chegue aos valores.

Chove ainda mais agora, do que quando comecei a escrever, devem estar menos de 10 graus e não me sai da cabeça que aqueles miúdos daqui a umas horas precisam mais de termómetros que de acalentar estes sonhos feitos de histeria. E nada me deixa mais desacreditado, quando reparo que a verdadeira culpa reside na irresponsabilidade dos pais, que desta forma nunca lhes permitirão ter um presente são e futuro bom.