Crítica

O rei vai nu

Tom Ford comete todos os erros que seriam de esperar de um primeiro filme. Só que Animais Nocturnos é o segundo.

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Animais Nocturnos será certamente sincero, mas não é por isso que o rei deixa de ir nu
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É possível um estilista de moda dar um bom cineasta? A pergunta parece ter o seu quê de preconceituoso, mas a verdade é que Tom Ford provou liminarmente que sim, com Um Homem Singular (2009), um dos mais devastadores melodramas dos últimos anos e o papel da carreira de Colin Firth. Quem não tiver visto essa obra-prima – assim mesmo, com todas as letras e cinco estrelas – olhará para Animais Nocturnos e verá apenas… um estilista de moda armado em cineasta, um filme cheio de estilo a mascarar a ausência de substância, uma indulgência diletante que talvez devesse ter ficado por casa. Que o mesmo é dizer que Tom Ford, ao segundo filme, caiu nas armadilhas e equívocos todos que fintou com uma pirueta na estreia, como se Um Homem Singular não tivesse existido. É algo de tanto mais inexplicável quanto se percebe que este é, outra vez, um filme extremamente pessoal para o seu autor, que injecta nesta história em formato de “boneca russa” muito de si próprio, das suas raízes no Texas ao modo como vida e arte se confundem e interligam.

Uma galerista de sucesso (Amy Adams), prisioneira de uma “gaiola dourada” por casamento com um “senhor do mundo” à beira da falência, recebe pelo correio um manuscrito escrito pelo ex-marido (Jake Gyllenhaal), que lho dedicou; o livro, sobre um homem normal que numa viagem de carro com a mulher e a filha é atacado por um gangue de arruaceiros, torna-se aos poucos num roman à clef sobre o seu casamento. Mas desta trama urdida pelo romancista Austin Wright, Ford faz um enorme e frágil soufflé, prestes a esboroar-se ao primeiro toque, incapaz de se sustentar sozinho assim que sai do forno. É pena que assim seja, porque o estilista continua a ter jeito com os actores (e aqui tem um leque de luxo, do qual se destacam o eternamente grande Michael Shannon e Laura Linney, cujos pequenos papéis secundários quase exigem só por si a visão do filme). Mas o seu empenho não desfaz a sensação de termos aqui um embrulho que enche o olho com o seu requinte para revelar que a caixa no seu interior não tem absolutamente nada lá dentro. Animais Nocturnos será certamente sincero, mas não é por isso que o rei deixa de ir nu.