América. A bem ou a mal

É fundamental não subestimar Trump. O seu mandato é claro e é nacionalista, proteccionista, isolacionista, unilateralista e até xenófobo.

Num livro de 2004, reeditado em 2012, América. A bem ou a mal: uma anatomia do nacionalismo americano, Anatol Lieven traça as raízes históricas que de forma profunda evidenciam o contraste entre dois “nacionalismos” que habitam os EUA. Um, “a Crença Americana”, de cariz cívico, que se baseia na democracia, no Estado de Direito, na inclusão, na igualdade social (que permite a ascensão económica) e na promoção desses valores de forma global, de modo quase messiânico. Outro, a “Antítese”, que alberga os derrotados e marginalizados do sucesso norte-americano, que abraça os protestantes brancos rurais e a sua revolta e aversão contra as elites internas e externas, os intelectuais e a cultura liberal (no sentido americano do termo) que os antagoniza e contraria o seu sistema de valores: família, religião e nação.

Como sustenta o autor, o primeiro nacionalismo é “benigno” e auxiliou a consolidação do poder e da influência dos Estados Unidos à escala mundial, servindo de arquétipo para outros países e permitindo que a América se tornasse uma potência ordenadora, apta a construir e defender a ordem internacional, bem como a inspirá-la com os seus valores e exemplo. Já o segundo é “um nacionalismo ferido e vingativo”, que incita ao isolamento e à exclusão do “outro” como reacção à adversidade. Esta pode vir, por exemplo, de um declínio económico, de poder, ou de atentados terroristas.

A vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais norte-americanas tem vários motivos. Desde logo, políticos, como o declínio da democracia em resultado do bloqueio do sistema político devido a factores como o governo ideologicamente dividido, a polarização, a generalização das primárias, o gerrymandering e a crescente importância do dinheiro para a ascensão ao poder. Depois, económicos, como a fraca criação de riqueza, o aumento das desigualdades (que estão a níveis pré-New Deal), a diminuição radical da mobilidade social, o elevado desemprego em algumas localidades e todo um conjunto de deserdados da globalização, dos acordos de comércio livre e da revolução tecnológica. Também as questões de identidade, seja ao nível da transformação da composição étnica, com o crescimento significativo das minorias étnicas (latino, afro-americanos e hispânicos) e o declínio dos WASP (White, Anglo-Saxon and Protestant), seja no plano dos valores, visível em exemplos como o conceito de família (as famílias monoparentais são já 26%), a legalização do aborto, os direitos dos homossexuais, a eutanásia e mesmo o consumo de drogas leves.

Mas o sucesso de Trump é também o resultado de uma vaga mais de fundo e que transcende os Estados Unidos: a vaga populista e em alguns casos extremista que se está a espalhar um pouco por toda a vasta área que vai da América até à Europa de Leste, abrangendo um conjunto variado de países, como a Hungria, a Polónia, a Áustria, a Finlândia, a Holanda, a Grã-Bretanha, a Grécia, a Espanha, entre outros. Esta tem na base a revolta dos representados contra a actual elite no poder que os primeiros consideram que já não os representam, mas antes estão preocupados em representar-se a si próprios, aos seus interesses, bem como dos grupos económico-financeiros que os apoiam. A questão já vem de trás, mas agravou-se com o colapso financeiro de 2007/2008, e consequente “grande recessão”, que levou a uma ruptura emocional e de confiança entre o povo e as elites.

Todavia, há um motivo para a vitória de Donald Trump que não sendo exclusivamente norte-americano tem nos EUA características específicas e é especialmente alarmante. Trata-se do nacionalismo “ferido e vingativo” de que falou Anatol Lieven. Este esteve traduzido exemplarmente no slogan de campanha do candidato republicano: a “América Primeiro”. Mas também no essencial do seu programa político, nomeadamente a defesa do proteccionismo, do isolacionismo e do unilateralismo e a ofensiva contra “os estrangeiros”, fossem eles hispânicos ou islâmicos, chegando ao ponto de sugerir a construção de um muro para proteger a América desse mal.

É fundamental não subestimar as consequências da vitória de Trump. Apesar da robustez da democracia americana, da existência da separação de poderes, dos “freios e contrapesos”, das instituições em geral e da tal responsabilidade que vem com o poder, o seu mandato é claro e é nacionalista, proteccionista, isolacionista, unilateralista e até xenófobo. Além disso, ele tem um enorme poder, pois a sua vitória foi pessoal (e não do Partido Republicano), tem a maioria na Câmara dos Representantes, no Senado, e vai nomear o juiz que lhe dará uma maioria conservadora no Supremo Tribunal.

Uma consequência de tudo isto será interna. Primeiro, ao nível da democracia, que obviamente não está em causa mas verá a sua qualidade diminuir. Segundo, no tratamento das minorias, que ao primeiro rombo na popularidade de Donald Trump (por exemplo, quando não puder cumprir várias das promessas que fez) serão usadas como bode expiatório. Terceiro, na relação com os imigrantes, quer na expulsão de muitos que estão ilegais, quer nas crescentes barreiras à entrada de novos.

Outra consequência será externa e a dois níveis. No precedente aberto, que banaliza e normaliza o voto em partidos nacionalistas ou extremistas em outros países, como a França, que terá eleições presidenciais para o ano. E na erosão da ordem internacional, uma ordem multilateral, plural, aberta, de comércio livre, alianças institucionais e organizações internacionais, posta em causa peça por peça pela proposta de política externa de Trump.

Logo no prefácio do seu livro, Anatol Lieven lembrou-nos algo que acabámos por esquecer. Que os sinais estavam todos lá e um dia o mecanismo corrector que muitos historiadores garantiram evitar a devastação no passado (como o McCartismo) iria fracassar. E acrescentou de forma significativa: “Apesar de a América manter uma esplêndida e acolhedora casa”, “tem uma família de demónios na sua cave”. Esses demónios estão agora à solta e prontos para assombrar outras geografias.

Instituto Português de Relações Internacionais - Universidade Nova de Lisboa