Reportagem

No festival Semibreve a electrónica coube no teatro e na capela

O Semibreve é cada vez mais uma paragem obrigatória para a música electrónica de vanguarda. Kara-Lis Coverdale, Kaitlyn Aurelia Smith, Moritz von Oswald e Laurel Halo aqueceram a sexta edição, que teve início sexta e termina este domingo em Braga.

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Christina Vanztou Adriano Ferreira Borges
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Kaitlyn Aurelia Smith Adriano Ferreira Borges
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Kaitlyn Aurelia Smith Adriano Ferreira Borges
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Laurel Halo Adriano Ferreira Borges

De olhos no tecto ou de olhos fechados. Observando o público que encheu a Capela Imaculada do Seminário Menor para assistir à actuação de Christina Vantzou no Semibreve, a sua disponibilidade contemplativa para a música da artista norte-americana assemelhava-se à de qualquer habitual sessão de música sacra. No meio das contas das fraquezas da carne e das fragilidades do espírito vogava, afinal, o concerto preparado por Vantzou para trio de cordas, harpa e electrónica, em que explorou tanto as suas composições quanto arranjos para temas de Laurie Spiegel ou dos Daft Punk.

É de louvar a aposta do Semibreve em procurar outros palcos para a sua programação de electrónica de vanguarda e artes digitais fora dos dois pólos naturais (Theatro Circo e GNRation), desafiando os músicos a apresentar-se em espaços cujas características acústicas (e a imensa beleza desta capela moderna) obrigam a dialogar com essa especificidade. Neste caso, com o extra de não ignorar o forte peso religioso de Braga, ao mesmo tempo que se contraria o conservadorismo da cidade sintonizando-a com propostas de clara afoiteza.

Talvez a imponência da Capela Imaculada ou a sua presença numa igreja tenha inibido Vantzou de se mostrar mais aventureira junto ao altar, sobretudo quando os primeiros minutos, entregues a uma música de câmara desacelerada que a artista parecia, com subtileza, colocar numa órbita espacial hipnotizante, deram depois lugar a uma intervenção mínima, quebrando praticamente os laços entre a sua electrónica e os instrumentos tradicionais interpretados pelo português Ensemble Harawi.

A música de ambição celestial terá estado, porventura, mais presente no concerto de abertura do Semibreve, sexta-feira, no Theatro Circo, pelas mãos da canadiana Kara-Lis Coverdale, exímia explorada de uma sonoridade entrincheirada entre o sonho e o medo. Naquela que terá sido a mais aprofundada noção composicional no Semibreve, a transposição de um ambiente para o seguinte não se limitava a fazer suceder vários ciclos harmónicos e rítmicos, antes reverberava uma noção narrativa da música, suspensa, por vezes, para ser sugada por uma voz seca surgida num dramatismo belíssimo.

Mais tarde, e também no dia seguinte, assistiríamos a outros bons exemplos de como no contexto de um festival como este (com electrónica quase sempre interpretada a solo ou na companhia de um artista visual) a construção narrativa de um espectáculo é fundamental. No pequeno auditório do Theatro Circo, Ron Morelli colocou em prática uma curiosa estratégia de contenção da música, partindo de um universo marcadamente obsessivo e reducionista, para seguir depois todo um guião de libertação e expansão, enquanto Jonathan Uliel Saldanha se valeu de esquissos de vozes, fanfarras, gaitas de foles (seriam?) e voos de insectos (seriam?) para encaminhar uma atmosfera intrigante até um cenário cada vez mais pesado e castigador, como se protagonizasse em palco e em público um ajuste de contas com memórias de lugares.

Uma mentira cada vez maior

Menos sorte teve Tyondai Braxton. Filho do seminal saxofonista Anthony Braxton, Tyondai tem carregado esse pesado apelido nos domínios da música electrónica e da música orquestral. No Semibreve, a solo, começou por colocar em palco ambientes sonoros capazes de fazer pensar nuns Animal Collective híper-vitaminados, saltitando depois de padrão em padrão musical, conduzido sempre por uma insaciável sofreguidão rítmica. O concerto começava a transformar-se e a distender esta opção inicial quando um problema técnico encurtou a sua actuação. Ficámos sem perceber se o momento era de respiração para uma nova correria ou se começava, de facto, a desdobrar uma radical mudança de paisagem.

Antes, a abrir a noite de sábado, Rashad Becker e Moritz von Oswald apresentaram Fathom, um exigente espectáculo mimalista, construído em torno da repetição de uma mesma nota ao piano por Oswald, captada e transformada electronicamente, saturando o rastilho inicial até deixar de ser reconhecido ou se tornar apenas uma deturpação do som original. Como se a cada nova nota o objectivo fosse transfigurá-la até que se tornasse numa mentira cada vez maior.

Na véspera, Kaitlyn Aurelia Smith assinou o concerto mais acessível de todo o programa, numa sequência de temas próximos da canção, permitindo-se mergulhar aqui e ali numa abstracção menos limitadora. Agarrando-se ao seu ideário de sons da selva e um catálogo de vozes entre uma fisicalidade africana e um tom demasiado etéreo para ter origem geográfica, proporcionaria também um bonito espectáculo visual ao explorar as espantosas possibilidades do sintetizador Buchla, captado por uma câmara que permitia ao público seguir os passos das suas mãos freneticamente pedindo sons à máquina.

Os finais de noite passaram sempre pelo GNRation, primeiro com um Andy Stott excessivamente académico (entregue a uma sonoridade sombria e uma decomposição de cada ritmo como se o quisesse quebrar e explicar antes de deitar fora e passar a outro) e uma Nídia Minaj demasiado peça solta para que a demonstração do “kuduro avançado” da Príncipe Discos pudesse resultar mais exuberante. Na sala de Braga, o grande feito viria do set de Laurel Halo, caminhada exemplar por ritmos escavacados e evocações de Detroit como cidade-fantasma (o tecno da cidade em versão descarnada) até um final robusto comemorado em delírio.

O Semibreve esteve sempre com lotações esgotadas ou perto disso, afirmando-se cada vez mais como um ponto de encontro obrigatório para um público especializado português, espanhol ou britânico, mas também como chamariz para mais e mais curiosos à procura de uma música empenhada em criar experiências únicas.

O PÚBLICO está no Semibreve a convite do festival