Opinião

O susto passou, mas como foi possível Trump chegar tão longe?

Hillary teve dificuldade em se afirmar como alternativa nos segmentos do eleitorado mais afetados pela globalização

Hoje, depois dos três debates televisivos entre os dois candidatos à presidência dos EUA, parece mais remota a possibilidade de Donald Trump ganhar as eleições e mais alta a probabilidade de Hillary Clinton vir a ser a próxima Presidente norte-americana. Antes disso, porém, e durante várias semanas, as sondagens davam conta de uma contínua subida das intenções de voto em Trump e de uma dramática redução da vantagem inicial de Hillary.

Já libertos do susto que que representaria Trump como Presidente dos EUA, importa perguntar como foi possível que este tivesse chegado tão longe? Como foi possível que se tivesse afirmado como o candidato republicano, derrotando nas primárias opositores com mais experiência política e iguais ou mais amplos recursos de poder e de influência? Como se justifica a sua popularidade, apesar dos comportamentos grosseiros e da manifesta falta de preparação para o exercício de funções públicas e políticas? Como foi possível que, numa sociedade democrática tão zelosa dos valores da liberdade, muitos manifestassem disponibilidade para eleger um líder autoritário declaradamente capaz de todas as arbitrariedades e desrespeitos pelo estado de direito? Como foi possível, usando sistematicamente a mentira, convencer tantos eleitores?

Quando se analisa o discurso de Trump percebe-se que ele explora os sentimentos e as perceções de cidadãos que sofreram os efeitos da evolução da economia norte-americana nas últimas décadas, no contexto da globalização: destruição de emprego gerada pela deslocalização de indústrias tradicionais, redução dos níveis de rendimento das famílias trabalhadoras e aumento das desigualdades. Efeitos que têm uma incidência maior em estados do “cinturão de ferrugem”, como o Ohio ou Indiana. A sociedade norte-americana é, hoje, uma sociedade mais desigual e mais dual, com uma maior concentração, numa pequena minoria, de todo o tipo de recursos: financeiros, de conhecimento, de poder. Desta evolução dá-nos bem conta Robert Reich no seu último livro, Saving Capitalism: For the Many, Not the Few.

Durante parte da campanha eleitoral, as mentiras e os delírios nacionalistas de Donald Trump pareciam constituir bálsamos para a frustração e a desilusão política dos mais afetados por aquela evolução. Hoje como no passado, situações de crise financeira, de desemprego, de desigualdade extrema e de ausência de esperança no futuro são propícias à adesão a discursos populistas, que fazem a apologia da antipolítica, dos fechamentos nacionalistas e xenófobos, que apresentam soluções simplistas baseadas na exploração do desespero ou do desencanto. Foi num contexto com características semelhantes que emergiu e se afirmou o nacional-socialismo de Hitler.

Apesar de Hillary Clinton afirmar, ao longo de toda a campanha e em todos os seus discursos, a intenção de tomar medidas políticas de distribuição e redistribuição da riqueza, visando reduzir as desigualdades e proteger os mais discriminados por razões de idade, sexo ou etnia, a verdade é que teve dificuldade em se afirmar como alternativa nos segmentos do eleitorado mais afetados pela globalização. Aparentemente, não foi capaz de mobilizar os mais atingidos pela crise e de inspirar confiança e esperança no futuro. Aparentemente, não teve resposta convincente para o problema do desemprego, nem para a quebra de rendimentos e degradação das condições de vida da classe média. Aparentemente, não teve propostas credíveis para os problemas da regulação do sistema financeiro, parecendo estar, aos olhos de muitos, capturada pelos interesses de Wall Street.

As dificuldades enfrentadas por Hillary Clinton e pelos democratas nos EUA são semelhantes às que enfrentam os partidos socialistas e sociais-democratas na Europa. Está em causa a capacidade da social-democracia para, de forma convincente, colocar na agenda política respostas à crise financeira, ao crescimento das desigualdades, à degradação das expectativas e das condições de vida das classes médias, aos riscos da globalização. Só a demonstração dessa capacidade permitirá reduzir a margem de afirmação das propostas populistas.

Duas notas finais sobre a campanha. A primeira, sobre a forma clara de envolvimento dos meios de comunicação social na campanha presidencial, tomando partido e declarando a sua orientação editorial no contexto da campanha. A segunda, sobre os debates. Nesta campanha, os três debates televisivos acabaram por provocar a derrocada de Donald Trump. Funcionaram como reveladores da verdadeira mentira. Ou seja, da verdadeira natureza do candidato, do seu carácter e dos seus propósitos políticos. No confronto com Hillary, ficou mais evidente o espírito antidemocrático e autoritário, a disposição para colocar em causa princípios básicos da democracia, como quando ameaçou mandar prender a sua adversária política caso fosse eleito. Como ficou mais evidente o vazio das propostas políticas e a inconsequência das avaliações, e mais clara a insensibilidades às questões de interesse coletivo. Nem sempre os debates políticos, mesmo informados e centrados nas políticas, cumprem esta função clarificadora. Desta vez foi interessante verificar como a ação dos meios de comunicação e os debates políticos acabaram por ser decisivos na revelação, se não da verdade, pelo menos da mentira.

Professora universitária, ex-presidente da Fundação Luso Americana para o Dsenvolvimento (FLAD)

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