Opinião

A lengalenga do “populismo”

De que partido é candidato Trump? O dos dois Georges Bush. De que partido europeu faz parte Berlusconi? O de Merkel, Passos Coelho ou Rajoy.

Já está! Depois de duas eleições consecutivas que o deixaram em irremediável minoria, Mariano Rajoy será confirmado hoje à tarde como primeiro-ministro de Espanha pela mão dos novos dirigentes do PSOE. Uma das elites políticas mais corruptas que se conhece no Ocidente continuará aos comandos do Estado, pode obstaculizar a justiça, controlar o Tribunal Constitucional, gerir os orçamentos por mais que a oposição lhos queira alterar. No Parlamento, os socialistas estarão sempre a meio da ponte, entre o medo de abandonar mais vítimas do sofrimento social às mãos da esquerda que não se rende e o medo de que Rajoy amue e, achando que se o não deixa governar, force novas eleições que agravem a pasokização do PSOE.

Dividido como em poucas ocasiões, o PSOE tem justificado com o perigo do “populismo de esquerda” a sua recusa em convergir com a frente Unidos Podemos, descrevendo-a como versão ibérica do chavismo, verdadeiro “inimigo da democracia”. Este recurso facilóide ao populismo como ideologia daqueles que, basicamente, se opõem a Bruxelas, ao consenso neoliberal de uma certa interpretação da globalização e à hegemonia norte-americana no mundo, reedita, afinal, a velha lengalenga de que “os extremos se tocam”, como se as extremas-direitas e as esquerdas que se não rendem defendessem as mesmas coisas.

Sempre que as crises económicas - as inesperadas ou as deliberadas - propiciam esta economia de tubarões em que vivemos, e em que a exploração e o abuso atinge no mundo do trabalho proporções insuportáveis, o stress social produz stress político e força à polarização. No campo eleitoral, são os partidos do poder (as direitas liberal-conservadoras e/ou democratas-cristãs, e a social-democracia) que pagam o preço de terem produzido (ou deixado que se instalassem) as lógicas económicas que propiciaram a crise, e que, pior ainda, a gerem dentro dos governos, em Bruxelas e nos megabancos internacionais, de forma tão injusta que lhe chamam “reformas estruturais” e outros eufemismos do estilo. Em perda rápida de representatividade, as forças políticas deste centrão queixam-se daqueles a que, para sua conveniência, chamam os “populistas”, com a mesma deliberada ligeireza com que habitualmente falam do “terrorismo” dos outros. Como se, cavaleiros impolutos da democracia, não se tivessem comprometido já com um dos lados da contestação, justamente o lado (extremo-)direito. Se hoje muita direita se diz chocada com Trump, quanto tempo demorou a chocar-se com Berlusconi, o seu alter-ego italiano? De que partido é candidato Trump? O dos dois Georges Bush. De que partido europeu faz parte Berlusconi? O de Merkel, Passos Coelho ou Rajoy.

Repassemos o mapa europeu. A extrema-direita é hoje a força política mais votada em três países da UE (Hungria, Polónia e Bélgica) e na Suíça, onde, escusado será dizer, está no governo com partidos da direita clássica. É o segundo partido mais votado na Dinamarca e na Croácia. Com mais de 10% dos votos, governa com outros partidos civilizados de direita na Finlândia, Letónia, na Bulgária e, fora da UE, na Noruega. Na Eslováquia, melhor ainda, está dentro de uma coligação dirigida por um social-democrata! Hoje com cerca de 1/6 dos votos, a extrema-direita já esteve no governo com democratas-cristãos e/ou liberais na Áustria (onde pode vir a obter a Presidência da República) e na Holanda. Fora do governo, ela é hoje a força mais votada em França, a terceira na Grã-Bretanha, na Suécia e, segundo as sondagens, na Alemanha. E vamos em 15 dos 28 países da UE! Por todo o lado, partidos da chamada direita clássica incorporaram um discurso nacionalista, xenófobo/anti-imigrantes, racista. A sua escolha está feita. Com a extrema-direita pode-se sempre falar de austeridade desde que ela afete apenas as minorias e se se negue a Bruxelas o acolhimento de um só refugiado que seja.

Só na Europa do Sul (e, talvez, na Bélgica, França, Alemanha, República Checa) a resposta social à crise reforçou alternativas políticas à esquerda, produzindo, ainda assim, todas as contradições do caso Syriza, forçando o PS português a uma solução que, apesar das suas evidentes limitações práticas, em 40 anos ele sempre recusara. A mesma que o PSOE continua a recusar. Como aconteceu nos anos 30 e, depois, na II Guerra Mundial, é deste lado que se tem repetido que a democracia se defende promovendo a igualdade, e não propriamente esperando que quem vota Trump “volte à razão”. Mas qual razão?