Crítica

Fulgores da música setecentista em Queluz

Mais do que uma noite inesquecível no ciclo Noites de Queluz – Tempestade e Galanterie, que decorre até ao dia 29.

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O gambista Vittorio Ghielmi DR

Giuliano Carmignola, figura notável do violino barroco, mas também intérprete exímio de outros repertórios, deixou o público que enchia a Sala do Trono do Palácio Nacional de Queluz ao rubro na última quinta-feira com as suas interpretações de concertos de Carl Ph. Emanuel Bach (1714-1788) e Felice Giardini (1716-1796) no âmbito do programa Um virtuose italiano na Inglaterra georgiana. Mas o ciclo Noites de Queluz – Tempestade e Galanterie tem sido pródigo noutros momentos dignos de nota. Logo na abertura, a 1 de Outubro, a estreia moderna da Serenata L’Endimione, de Niccolò Jommelli (1714-1774), revelou uma obra com momentos de grande engenho dramático na relação entre a música e o libreto de Metastasio e entre os programas que se seguiram avultam propostas invulgares como a que unia um instrumento que caiu em desuso a partir de meados do século XVIII com outro que avançava em passos largos em direcção ao futuro. Mais especificamente, o pianoforte Clementi de 1810, pertencente ao espólio do palácio, tocado por Florian Birsak, tornou-se parceiro do gambista Vittorio Ghielmi em O Crepúsculo da Viola da Gamba.

Uma das missões do Divino Sospiro – Centro de Estudos Musicais Setecentistas de Portugal (CEMSP), que organiza este ciclo com a Parques de Sintra – Monte da Lua, prende-se justamente com a recuperação do património musical relacionado com o Palácio de Queluz, onde a Serenata L’Endimione foi interpretada em 1780 para celebrar o dia onomástico de D. Pedro III, consorte de D. Maria I. A interpretação do Divino Sospiro, com direcção de Massimo Mazzeo, esteve em franca sintonia com a encruzilhada estilística que emerge da partitura, na qual a herança barroca abre caminho, por vezes de forma surpreendente, aos novos voos do Classicismo no plano melódico, harmónico e da orquestração. Entre os seus pontos altos conta-se o magnífico “arioso” acompanhado pelas flautas que evoca o sonho de Endimione. Os desafios vocais da obra, incluindo as extensas árias e os elaborados recitativos acompanhados escritos originalmente para vozes de castrati, foram superados com destreza pelas cantoras Lucia Napoli (Endimione), Milena Georgieva (Diana), Bárbara Barradas (Amore) e Margarida Pinheiro (Sílvio), destacando-se as intervenções de Napoli e Barradas.

Um ambiente bem diferente, pelo seu carácter subtil e intimista, percorreu o recital de Vittorio Ghielmi e Florian Birsak. A combinação de dois timbres oriundos de mundos aparentemente opostos, como o da viola da gamba e o do pianoforte Clementi (cuja recuperação foi retomada pelo CEMSP após uma década de silêncio do instrumento), resultou afinal num diálogo fecundo através da música de Carl Friedrich Abel, Andreas Lidl, C. Ph. E. Bach e J. Ch. Bach, mesmo se em parte dos casos o que se pedia ao instrumento de teclado era uma realização de baixo contínuo e não uma escrita pianística idiomática. Esta emergiu das Sonatas de J. C. Bach e Clementi (op. 5, nº4 e op. 8, nº1) que Bisark tocou a solo com elegância, bom gosto e acuidade técnica. Mas foi graças à sedutora sonoridade e à profunda sensibilidade de Ghielmi, bem como à forma como faz cantar o instrumento e transmite meticulosamente cada nuance do discurso musical e da ornamentação, que esta se tornou uma noite inesquecível.

Se compositores  como os irmãos Bach e C. F. Abel eram comuns entre o programa anterior e o apresentado no dia 20 por Carmignola e a Accademia dell’Annunciata, a abordagem interpretativa era bem diversa. Tal deve-se não só a questões estilísticas e aos géneros musicais escolhidos, mas também à personalidade dos intérpretes. Para além da influência exercida pelo carisma de Carmignola e pela sua técnica estonteante, esta orquestra fundada em 2009 com o intuito de permitir aos jovens instrumentistas uma formação avançada em colaboração com intérpretes experientes na música antiga tem como líder Riccardo Doni, cravista e organista de Il Giardino Armonico desde 1994. Também ele possui uma musicalidade assente numa vitalidade rítmica propulsiva e em contrastes bem marcados de colorido e dinâmica. Se durante a primeira parte a coesão do conjunto teve algumas oscilações (sendo que as condições de temperatura e humidade da sala não são as ideais para as cordas), depois do intervalo o grupo mostrou como pode tocar ao mais alto nível. Quanto a Carmignola, brilhou como é habitual nos excelentes concertos de Felice Giardini (1716-96), violinista italiano activo em Londres nascido há 300 anos, cuja importante produção tem vindo a ser revelada nos últimos anos.

A decorrer até 29 de Outubro, o ciclo Noites de Queluz dará ainda a ouvir os agrupamentos Helianthus Ensemble e La Gaia Scienza.