Opinião

A CRESAP morreu, longa vida à CRESAP

A presidência da CRESAP, assumida nos últimos quatro anos pelo Prof. João Bilhim, é a prova de como pode não ser condição essencial, para um bom desempenho público, um excelente percurso académico.

O Prof. João Bilhim, ouvido nos últimos dias no Parlamento, demonstrou o quão errada foi a sua nomeação, a sua ausência de sentido institucional, a falta de crédito para receber confidências e partilhar opções.

A primeira nota, muito relevante, liga-se com o facto de se ter consolidado a ideia que o Governo optou, por sectarismo, pela não manutenção de Bilhim na CRESAP, que ele próprio estaria disponível para continuar. Ora, da audição parlamentar resultou que João Bilhim atingiu o limite de idade para o exercício de funções públicas e ele próprio nunca havia mostrado qualquer disponibilidade para se manter, para continuar. Bilhim foi cúmplice de uma ideia falsa, a de que o Governo havia feito um “saneamento”. Lamentável.

A segunda nota, ainda mais relevante, prende-se com o facto de, mesmo depois de ter cessado funções e haver uma estrutura de direção em funções, Bilhim ter decidido ir à comissão parlamentar. A razão conheceu-se logo na primeira pergunta que o PSD lhe colocou – “como foi nomeado Presidente da CRESAP?” A esta pergunta respondeu Bilhim que o havia sido por convite de Pedro Passos Coelho e por indicação de António José Seguro. Quero aqui afirmar, como disse energicamente na comissão, que não acredito em Bilhim. Tolero que Pedro Passos tenha falado informalmente com o anterior líder do PS sobre a matéria, mas nunca me passará pela cabeça que o secretário-geral do PS tivesse aceitado, ingenuamente, participar num processo de escolha que seria limitador da ação política futura do PS na oposição, que seria sempre utilizado pelo PSD e pelo CDS com garantia para a sua permanente desautorização da CRESAP.

A terceira nota, fundadora da sua personalidade e visão, liga-se com a confirmação que Bilhim, sendo militante do Partido Socialista, nunca aceitaria um lugar só pelo seu mérito, pelo seu percurso, pela sua criação académica, pelo seu exercício universitário. Precisava, no seu profundo ser, de uma confirmação partidária – o PS, seu partido, devia dar-lhe o seu ok para que fosse nomeado para um lugar eminentemente técnico, um cargo acima dos partidos. Ou seja, o presidente da CRESAP que afirmava, em 2012, querer despartidarizar a administração, havia sido ele próprio nomeado num processo dúbio de acerto e de concedência partidária. Foram lamentáveis as suas palavras.

Na audição parlamentar João Bilhim disse que nunca pediu nada a ninguém. Por momentos recordei o convite que Bilhim, enquanto presidente do seu instituto superior, fez ao Prof. António José Seguro e ao Dr. Miguel Relvas para se dirigirem à academia elaborando pensamento sobre o Sistema Eleitoral e a Qualidade da Democracia. Esse convite foi em 2009, no tempo em que o futuro se aproximava aceleradamente. Se António José Seguro, que há anos pensava a matéria, fazia sentido, se António Filipe, Pedro Soares e Pedro Pestana Bastos eram relevantes para o debate, ninguém entendeu a presença de Relvas. A nomeação da CRESAP, em 2012, veio a revelar como gestos anteriores limitam e implicam as decisões posteriores, que não se pede nada a ninguém, quando se oferece antecipadamente palco e palavra.

António José Seguro e o PS, partido a que Bilhim diz pertencer, não mereciam o frete que este fez ao PSD e ao CDS. O crime compensa. Bilhim, centenas de vezes desautorizado por estes partidos, demonstrou que lhe faltou sempre muito para tão relevante lugar.

Depois deste tempo a CRESAP/Bilhim morreu. Longa vida à nova CRESAP. Que se afirme como terá que ser, que afirme independente e decente na aceitação do seu património fundador.

Gestor e secretário nacional do PS entre 2004 e 2010

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