Ricardo Araújo Pereira e seis alunos falam de bibliotecas e dos “crominhos que adoram ler”

O humorista e seis estudantes estiveram juntos há dias a preparar a sua participação no Fórum dos 20 anos de Rede de Bibliotecas Escolares. É nesta sexta-feira, na Gulbenkian. E Marcelo Rebelo de Sousa também vai.

Seis alunos, dos 11 aos 18 anos, encontraram-se há dias com o humorista Ricardo Araújo Pereira para lhe explicar por que é que uma biblioteca escolar é tanto uma “mini-casa” como uma janela para o mundo. Nesta sexta-feira estão novamente juntos para uma conversa mais alargada, numa conferência, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, que assinala os 20 anos da Rede de Bibliotecas Escolares.

Às vezes, há destes encontros numa biblioteca de escola: um escritor faz uma palestra, partilha histórias, responde a perguntas dos alunos. Mariana Carvalho, 18 anos, “acabadinha de entrar na faculdade”, lembra-se bem desses momentos na sua escola secundária: “Para mim, era o melhor de tudo. Conheci alguns escritores que adoro: o Afonso Cruz, o José Luis Peixoto — a melhor palestra que já ouvi na minha vida!”

No dia em que o PÚBLICO fala com Mariana, quinta-feira da semana passada, ela e outros cinco alunos estão sentados à volta de uma mesa cheia de livros com o humorista Ricardo Araújo Pereira, na biblioteca da Escola Básica Francisco Arruda, em Lisboa. Estão a preparar a sua participação num painel da conferência da Gulbenkian — o mesmo painel onde, para além dos jovens e do humorista, estará o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

O grupo de jovens foi escolhido a dedo — com alunos de Lisboa, Beja, Abrantes, do Porto e de Castro Daire — pela sua actividade nas bibliotecas das respectivas escolas. A Ricardo Araújo Pereira cabe embalar uma conversa que se quer livre, e perceber afinal o que há de especial nestes espaços.

Gonçalo Dinis, 17 anos, aluno da escola secundária Filipa de Vilhena, no Porto, descreve a biblioteca como um espaço onde se podem debater ideias. Carolina Rainho, 18 anos, prefere destacar o carinho das professoras bibliotecárias. Mariana, a “caloira”, recorda as iniciativas de leituras que ajudou a organizar para os alunos mais novos, e explica que a biblioteca da escola é um espaço de todos e para todos: não é só o lugar dos “crominhos que adoram ler”, diz Mariana, “e eu identifico-me como uma delas, não tenho problema”.

Aos 12 anos, Gonçalo Félix acaba de se mudar para uma nova escola, em Beja. O encontro em Lisboa desta sexta-feira também vai servir para poder jantar com a mãe: a professora de Filosofia foi colocada numa escola em Oeiras. Desde que participou como monitor numa actividade da biblioteca, Gonçalo assumiu o papel de empurrar (literalmente) muitos colegas para as estantes. “Eles olhavam mais para os computadores. Queria que olhassem um bocado para os livros”, desabafa. “Na actividade hoje de manhã antes de vir para Lisboa a bibliotecária disse: ‘Querem que apresente mais livros?’ E eles disseram todos: ‘Não!’ Queriam ir para o intervalo. E eu disse: ‘Não, isto não vai ficar assim.’ E disse que queria mais. Ficaram todos lá. Ficaram chateados comigo. Mas alguns depois já não quiseram ir para o intervalo. Fiquei contente”, conta. Para ele, a biblioteca escolar é lugar de trabalho, “com regras”, mas também de lazer e divertimento. “É uma mini-casa, mas na escola.”

A experiência do humorista

A leitura, essa, sempre foi companheira de Ricardo Araújo Pereira. “Sou filho único, não tinha mais nada para fazer”, conta aos alunos. “Quando somos miúdos não temos poder nenhum de intervenção sobre o mundo, zero. Os pais é que mandam, o governo manda nos pais e nós estamos no fim da linha. Quando descubro as palavras, descubro que podemos mudar as coisas através delas.”

A primeira biblioteca que realmente o marcou, recorda, foi já na Universidade Católica, onde costumava deambular pelas estantes da Biblioteca Universitária João Paulo II. Os alunos ouvem, atentos, a história que aí vem: “Era péssimo para os estudos, mas óptimo para uma pessoa como eu que estava mais interessada em ler coisas”, conta. “Porque no C de Comunicação, onde tinha de ir buscar um livro para a aula, também estava o C de China, poesia chinesa. E pensei: ‘Espera, isto é mais giro.’ Um livro leva a outro, outro leva a uma colecção…”

“Livro puxa livro”, acrescentaria Raquel Chaves, de 11 anos, aluna da escola EB2 de Castro Daire. Raquel parece saída de um livro infantil: uma menina devoradora de livros, de resposta pronta, que quer ser bióloga de investigação e, pelo meio, ler todos os livros do mundo. A saia ao xadrez, as meias até ao joelho, a gravata amarela e o chapéu de abas azul, completam o figurino. Ouçamos a Raquel: “Os livros estão em cadeia. Poesia, Ficção, História, estão todos interligados, porque todos se baseiam num ponto: unir todas as pessoas à volta da leitura. À volta de um livro. De todos os livros.”

Para ela, a biblioteca nunca foi um lugar estranho: a mãe e a avó começaram desde cedo a levá-la às bibliotecas locais, lêem juntas muitas vezes. Raquel gosta de “toda a literatura portuguesa”, sobretudo de romances históricos. Neste momento está a ler o 1808, do jornalista e escritor brasileiro Laurentino Gomes, sobre a fuga da família real portuguesa para o Brasil. “A versão juvenil?”, pergunta uma das professoras presentes. “Não, a outra”, responde Raquel.

Descreve a biblioteca da sua escola como um espaço acolhedor: “Sentimo-nos abraçados pela nossa biblioteca.” Sabe que há crianças que “desprezam os livros”, mas não percebe bem como isso pode ser possível.

Para quem tem como profissão escrever piadas, diz Ricardo Araújo Pereira, ler é a melhor escola. “Não conheço outra maneira de exercitar a imaginação que não seja essa”, afirma. “E a partir do momento em que o que me interessa são as palavras, a biblioteca é o meu espaço.”