Nem Cézanne nem Zola

Danièle Thompson perde uma meditação inteligente sobre a arte (e dois grandes actores) num filmezinho de cartão postal.

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Há em Cézanne e Eu uma meditação sobre a arte que merecia um bocadinho mais do que esta concretização muito burguesinha, muito cartão postal de filme de prestígio.

O tema do novo filme da veterana Danièle Thompson é à superfície a amizade de infância entre o escritor Émile Zola e o pintor Paul Cézanne ao longo da segunda metade do século XIX, mas a argumentista e realizadora parece na verdade estar a encenar a compreensão dolorosa de que o tempo passa para todos da mesma maneira e se encarrega de normalizar e acalmar as ousadias da juventude.

A “chave” de Cézanne e Eu está nas cenas (aliás extraordinariamente escritas e interpretadas) em que Zola e Cézanne, já na casa dos 50, se entregam a uma espécie de “ajuste de contas” ressabiado e recriminatório; um ressente-se do sucesso do escritor que atribui em parte ao seu aburguesamento derivado à necessidade de sustentar a família, o outro ressente-se do idealismo pouco pragmático do pintor, que perseguiu a pureza da arte sem fazer cedências à diplomacia. Fosse Cézanne e Eu apenas essas cenas de jeu de massacre a que Guillaume Canet e Guillaume Gallienne emprestam uma tensão notável, e teríamos aqui um belo filme. Infelizmente, não é; e essas cenas perdem-se pelo meio de um banalíssimo drama de prestígio com o seu quê de compacto de série televisiva, que parece cumprir todas as paragens obrigatórias da saga literária ou do biopic sem grande convicção, com saltos narrativos algo aleatórios e personagens secundárias que nunca passam do boneco.

É, de certo modo, um filme que sonha com a grandeza artística de um Cézanne mas se contenta em ficar-se pelo pragmatismo de um Zola, e acaba por não ser nem um nem outro.

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