Torne-se perito

O “amigo russo” chega a Istambul para se reunir com Erdogan

A Síria é o grande problema entre os dois líderes, que se reaproximaram depois do golpe falhado – a Rússia trata melhor os turcos do que a UE, defende o seu Presidente.

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A Turquia acaba de pedir à União Europeia para se decidir de uma vez: os turcos, disse Recep Tayyip Erdogan, estão no “fim do jogo” da adesão, um jogo com décadas. É neste contexto que aterra esta segunda-feira em Istambul o líder da Rússia, Vladimir Putin, com quem Erdogan iniciou em Junho um processo de reaproximação – depois do golpe falhado de 15 de Julho, fez questão de deixar pela primeira vez o seu país para uma viagem a São Petersburgo, num sinal de que estava (e está) muito zangado com as hesitações europeias na condenação à tentativa de o derrubar.

“Se a União Europeia vai tornar a Turquia num membro de pleno direito nós estamos prontos. Mas eles devem saber que chegámos ao fim do jogo”, afirmou Erdogan na abertura da sessão parlamentar em Ancara, há uma semana. Outubro, lembrou, é o mês em que tem de ficar resolvida a questão do fim dos vistos para os turcos que visitem os países do bloco, como previsto no acordo para o seu Governo travar a saída de refugiados para o Egeu a caminho da Grécia. “Não há necessidade de contornar obstáculos ou de acrobacias diplomáticas. A escolha é deles, continuar com ou sem a Turquia.”

O pretexto para a visita de Putin a Istambul (a última vez que esteve na Turquia foi na Cimeira do G20, em Novembro de 2015) é o Congresso Mundial da Energia, mas os dois líderes vão aproveitar para discutir temas do agrado de ambos e outros que envolvem muitas discordâncias, como a Síria. Putin vai chegar dias depois de a Rússia ter vetado uma nova resolução do Conselho de Segurança da ONU para pôr fim aos bombardeamentos na cidade de Alepo.

As relações entre os dois países tiveram uma crise que começou pouco depois da última ida de Putin à Turquia, quando caças turcos derrubaram um avião russo na fronteira síria, depois do aparelho violar o espaço aéreo turco. A crise foi dura e envolveu trocas de palavras muito azedas – para os turcos, uma das consequências foi a diminuição dos turistas russos, isto numa altura particularmente grave para o turismo –, mas Erdogan finalmente pediu desculpas, em Junho. Um mês depois, o golpe falhado aproximou-os em definitivo.

A ideia da visita é “acelerar” a cooperação bilateral na área da energia, com discussões em particular sobre o gasoduto que vai levar gás da Rússia até à Europa via Turquia, turismo, agricultura e economia. Mas a Síria (e o Iraque também) é uma espinha atravessada numa relação complexa. Fragilizado internamente, Erdogan deixou até de exigir a saída de cena de Bashar al-Assad para procurar apaziguar as diferenças com o seu novo “amigo russo”.

Ancara quer neste campo relançar as negociações sobre o cessar-fogo negociado entre Washington e Moscovo, nunca completamente cumprido e enterrado há semanas. Quanto ao Iraque, um aliado dos russos que não tem as melhores relações com a Turquia, a conversa, a existir, também não será fácil. Aproxima-se a operação para tentar expulsar os radicais do Daesh da grande cidade iraquiana de Mossul – os turcos querem participar e exigem aos Estados Unidos que não haja curdos envolvidos. Bagdad está mais interessada em exigir a Ancara que retire os seus militares da base de Bashiqa; os russos apoiam esta exigência.

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