Bertrand Tavernier: “Bato-me contra a ascensão da ignorância”

Uma viagem pelo cinema francês do século XX em nove filmes esquecidos, citados num documentário de amor e partilha. A partir de desta segunda-feira na Cinemateca, em Lisboa, na Festa do Cinema Francês.

Fotogaleria
Bertrand Tavernier em Paris DR
Fotogaleria
Cartaz de Este Homem é Perigoso, de Jean Sacha (1953) DR
Fotogaleria
Cartaz de Falbalas, ou Noivado Sangrento, de Jacques Becker (1945) DR
Fotogaleria
Noivado Sangrento, de Jacques Becker (1945) DR
Fotogaleria
Le Crime de monsieur Lange, de Jean Renoir (1935) DR
Fotogaleria
Jean Gabin em La Nuit est mon royaume, de Georges Lacombe (1951) DR

Mesmo ao telefone, a energia e o entusiasmo de Bertrand Tavernier são indesmentíveis. “Vivemos numa época onde predomina a admiração vazia, o dandyismo sarcástico, onde vejo pessoas em cargos públicos que não defendem o património, que se desinteressam das coisas,” diz o realizador de O Juiz e o Assassino, À Volta da Meia-Noite ou A Filha de d’Artagnan. “As pessoas que estão à cabeça do serviço público têm um desprezo, uma ignorância total, um desinteresse sobre o passado do cinema francês.” É por isso que o veterano realizador francês, antigo crítico e assessor de imprensa, cinéfilo empedernido, realizou Uma Viagem pelo Cinema Francês. Este documentário estreado no festival de Cannes dá o mote a um dos ciclos da Festa do Cinema Francês, a decorrer na Cinemateca Portuguesa entre hoje (segunda 10) e dia 18. Nove filmes ao todo, assinados por nomes como Jacques Becker, Jean Renoir, Claude Sautet, Claude Chabrol ou Jean-Pierre Melville. Nove filmes todos citados no filme de Tavernier, que será exibido em encerramento no dia 18, antes de uma estreia portuguesa prevista para o início de 2017.

É uma viagem pessoal pelo cinema francês, um pouco nos moldes daquela que Martin Scorsese fez pelo cinema italiano, e que Tavernier diz ter encetado numa intenção de “partilha” dos seus gostos, como cineasta, cinéfilo e amador de cinema (no sentido original da palavra). “Não sou um guia de museu,” diz Tavernier, “nem um historiador do cinema. Sou um cineasta que sentiu de súbito que tudo aquilo que o alimentou, que mudou a sua vida, está à beira de ser esquecido porque as altas instâncias deixaram de se interessar. Bato-me contra a ascensão da ignorância, contra o desprezo do passado. E isto não quer dizer ser passadista!” sublinha. “Vejo imensos filmes franceses contemporâneos que acho excepcionais. Cineastas como Xavier Giannoli [Marguerite], Stéphane Brizé [A Lei do Mercado], Jacques Audiard [De Tanto Bater o Meu Coração Parou], Arnaud Desplechin [Reis e Rainha] são notáveis, e vejo-os como continuadores dos cineastas que evoco no meu filme.”

Um cinema vivo e enérgico

Tavernier detém-se na sua Viagem pelo Cinema Francês principalmente no “cinéma de papa” ou na “qualidade francesa” - a produção “média” realizada entre 1940 e 1980 que a doutrina crítica da “política dos autores” ignorou e contra a qual a Nouvelle Vague autorista se ergueu, e que com o passar do tempo se tornou objecto de historiografia e reavaliação; os nomes com o qual o realizador, nascido em 1941, cresceu e aprendeu a amar o cinema. Tavernier fala recorrentemente do actor Jean Gabin (“absolutamente extraordinário a fazer tudo o que lhe pedissem”), ou dos realizadores Jean Renoir, Julien Duvivier e, sobretudo, Jacques Becker, cineasta “que levámos um tempo absurdo a admitir que era um autor ao nível dos maiores”. “Existe em França uma espécie de veneração pelo cinema americano, o que compreendo perfeitamente, mas ao mesmo tempo há um desinteresse e um afastamento de um cinema francês que eu acho prodigiosamente vivo e enérgico. Em muitos países, é como se o cinema francês não existisse antes da Nouvelle Vague. É como se disséssemos que o cinema americano é Coppola, Scorsese, Robert Altman, Tarantino e ignorássemos por completo Howard Hawks, John Ford, Lubitsch, Preminger, Fritz Lang, Chaplin...”

Os filmes do ciclo da Cinemateca abrangem 30 anos – o mais antigo é Alô Berlim? Aqui Paris de Duvivier, de 1932 (segunda 17 às 15h30), o mais recente L’Oeil du malin, um dos filmes menos vistos de Claude Chabrol, estreado em 1962 (sexta 14 às 19h) – e detêm-se em obras menos conhecidas ou raridades. A lista inclui Noivado Sangrento de Becker (1945), melodrama ambientado no mundo da moda (segunda 10 às 19h), Le Crime de monsieur Lange de mestre Jean Renoir (1936, terça 11 às 15h30), ou Deux hommes dans Manhattan de Jean-Pierre Melville (1958, sábado 15 às 21h30). (O programa completo pode ser consultado em www.cinemateca.pt.)

Tavernier defende em particular Este Homem é Perigoso de Jean Sacha (1953, quarta 12 às 19h), pertencente a uma série de adaptações realizadas nos anos 1950 de romances policiais de Peter Cheyney, com Eddie Constantine no papel do detective Lemmy Caution – um equivalente das “séries B” americanas de pequeno orçamento. “É um filme de uma originalidade formidável, que sinto estar próximo de realizadores americanos como Anthony Mann, Joseph H. Lewis ou o Robert Aldrich dos primeiros tempos,” explica. “Tudo filmado com uma lente focal de 18/55 como Orson Welles fazia, numa época em que isso não se praticava no cinema francês, com qualidades de invenção de encenação, com uma graça nos diálogos, que eram ignoradas pela crítica oficial.”

Reabilitar o olhar

Embora Uma Viagem pelo Cinema Francês não tenha ainda tido a sua estreia oficial em França (esta quarta-feira, dia 12), as primeiras críticas e reacções desde a sua revelação no festival de Cannes em Maio são extraordinárias. Tavernier evocou em entrevistas mensagens de elogio de outros realizadores, e fala ao PÚBLICO do e-mail que recebeu de Serge Toubiana, ex-director da Cinemateca Francesa, que o felicitava por ter “reabilitado o olhar” sobre estes filmes. “São coisas que me deixam contente, sobretudo porque foi um projecto muito difícil de montar. O filme foi recusado por duas vezes em concursos de subsídio do CNC [equivalente francês do ICA], estive 14 meses à espera de um encontro que nunca tive com os responsáveis da Studiocanal… Este filme só existe porque a Gaumont e a Pathé, duas das grandes casas do cinema francês, decidiram que era essencial que ele existisse.” E nem esse apoio tem facilitado a sua extensão para uma série televisiva de nove horas - “temos um orçamento extraordinariamente pequeno e continuamos à procura do financiamento que nos permita terminá-la. Não sei se vamos conseguir...” Mas Tavernier não desiste, até porque foi precisamente contra estas limitações que se bateu nos seis anos que Uma Viagem pelo Cinema Francês levou a terminar. “Se o meu filme permitir que estes outros filmes sejam mostrados, nas cinematecas, na televisão, nos festivais, em DVD, então terá servido para alguma coisa.”