Entrevista

“O turismo está a crescer em Portugal mas cresce no segmento mais barato”

Dillip Rajakarier, presidente executivo do Minor Hotel Group, que comprou a cadeia de hotéis Tivoli, defende que "o problema é que quando temos os turistas mais baratos, não gastam dinheiro noutras coisas”.

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Dilip Rajakarier acredita que turistas “baratos provocam mais danos que benefícios” DR

O crescimento do turismo em Portugal é sustentável ou uma moda passageira?
Depende do compromisso do Governo em manter este crescimento sustentável. Porque hoje o país está focado em quatro ou cinco mercados chave: Reino Unido, Alemanha, França, Espanha e Brasil. É preciso olhar um pouco mais além porque estes mercados podem desaparecer. Se algo acontecer no Reino Unido ou em Espanha estão demasiado expostos. Sendo o turismo, hoje, uma actividade tão global, como é que então se promove Portugal na China, Índia, Médio Oriente, Ásia? Isto é essencial e o Governo tem, primeiro, de reconhecer [esta abrangência]. Depois, é preciso alocar os recursos, o marketing e as relações públicas para divulgar Portugal e dar incentivos a quem procura investir, algo que não aconteceu nos últimos anos porque muitos dos hotéis não são fantásticos, em comparação com outros fora do país.

É preciso elevar o standard?
É preciso elevar Portugal.

Porque é um destino demasiado barato?
É barato e é assim que tem sido percepcionado. É um dos destinos mais baratos da Europa. Não há mal nenhum em ser barato. O problema é que quando temos os visitantes mais baratos, não gastam dinheiro noutras coisas, em comida, bebida, spas, compras. Estes serviços são essenciais para o turismo e também para as receitas do Estado. Não se trata apenas de ter hotéis de luxo. Para atrairmos os turistas certos, dispostos a desembolsar 200 ou 300 euros, precisamos de ter hotéis e infra-estruturas. Os visitantes irão gastar mais e todos beneficiam. Penso que esta deve ser a prioridade.

Em termos de infra-estruturas, a maior necessidade é a das ligações aéreas?
Sim, a conectividade é importante. Veja o caso do Qatar, Abu Dhabi ou Dubai. Porque é que são tão famosos? Porque ficam à distância de uma única escala desde qualquer ponto do mundo. Mas se eu quiser organizar um evento em Vilamoura, onde estamos a fazer o centro de conferências, quem vier terá de fazer mais de uma paragem. Esse é o desafio que Portugal tem. O Governo tem de fazer algo para alargar a infra-estrutura e captar procura. Caso contrário irá sempre jogar o jogo dos preços baixos. Isso não é bom para o país. O custo de vida aumenta todos os anos, mas as tarifas dos quartos ou os salários dos trabalhadores não podem crescer ao mesmo ritmo. Como empresário, o que é que faço? Paro de investir nos hotéis, que se tornam menos atractivos.

No dia em que falamos há um protesto dos sindicatos da hotelaria que reclamam melhores salários, num contexto de recordes sucessivos de receitas. Os ordenados em Portugal são baixos?
Uma coisa é a aspiração dos trabalhadores, que acreditam que os seus salários devem evoluir mais rapidamente. Outra são os hoteleiros que se confrontam com o facto de os preços não evoluírem assim tão rapidamente. Tem de existir equilíbrio. Sim, o turismo está a crescer em Portugal mas, por vezes, cresce no segmento errado por vezes, no segmento mais barato. Se estamos a cobrar 30 ou 40 euros por quarto e eu investi, por exemplo, 200.000 euros, quanto tempo levarei a recuperar o investimento? Tem de ser uma parceria entre os trabalhadores e as empresas. Entendo as suas frustrações, mas ao mesmo tempo Portugal está a sair de uma crise e muitos perderam o emprego. Se não andarmos para a frente e não melhorarmos a economia entraremos de novo numa crise.

Há uma crescente apreensão dos moradores de Lisboa quanto ao aumento do turismo. Como é que se conjuga estes dois mundos?
Tudo se resume ao tipo certo de turistas. Se atrairmos visitantes dispostos a pagar 300 ou 400 euros por noite todos ficam contentes. O restaurante estará cheio, o autocarro estará cheio… Ninguém se vai queixar. Mas se atrairmos turistas “baratos”, que sujam a cidade… Na verdade, provocam mais danos do que benefícios. É preciso dar prioridade à qualidade em vez do volume. Não é só um problema de Portugal. Abrimos um hotel no Sri Lanka em Dezembro do ano passado e cobramos 800 dólares por noite. Chamaram-nos de loucos porque o preço por quarto no Sri Lanka é, no máximo, de 100 ou 200 dólares. Mas o nosso produto é fantástico, investimos 60 milhões de dólares e o que aconteceu? As villas, o produto mais caro e que custavam 1200 dólares a noite, foram as primeiras a vender.

Em Portugal qual seria a tarifa certa?
Mesmo que estabelecêssemos um standard nos 300 dólares é possível. É barato em comparação com outras capitais europeias. Em Londres as pessoas estão dispostas a pagar 600 libras por quarto e 50 libras por um jantar. Aqui gastam 120 euros - e em alguns dos nossos hotéis gastam 50 euros actualmente. Chamamos ao nosso hotel de Coimbra o “50/50”: 50 euros por noite, 50% de taxa de ocupação… É de loucos. É preciso elevar o standard e investir na experiência.