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Duterte compara guerra contra as drogas nas Filipinas ao Holocausto

O Presidente filipino disse que ficaria “feliz” em massacrar milhões de toxicodependentes, tal como Hitler fez com os judeus. Grupos judaicos estão chocados.

Rodrigo Duterte durante a visita ao Vietname
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Rodrigo Duterte durante a visita ao Vietname Kham/Reuters

A Lei de Godwin estabelece que à medida que uma discussão online, numa caixa de comentários de um jornal ou numa simples publicação de Facebook, se alonga, aumenta a probabilidade de algum dos intervenientes aludir a Adolf Hitler ou ao Holocausto. O controverso Presidente filipino, Rodrigo Duterte, trouxe uma nova aplicação desta lei da Internet para o campo do discurso político com uma pequena diferença – normalmente os alvos das comparações com os nazis tentam distanciar-se dessas declarações.

Duterte decidiu comparar a luta sangrenta que lançou contra o tráfico de droga nas Filipinas ao massacre dos judeus e outras minorias perpetrado pela Alemanha nazi durante a II Guerra Mundial. Aparentemente, foi o próprio Duterte que por sua iniciativa referiu, durante uma conferência de imprensa no Vietname, que tem sido apresentado como um “primo de Hitler”, por causa da forte perseguição policial promovida por si contra traficantes, consumidores ou apenas pessoas que frequentam os mesmos círculos de alvos das operações e apenas tiveram azar.

“Hitler massacrou três milhões de judeus”, começou por dizer Duterte. Se ficasse por aqui, o Presidente filipino seria logo alvo de críticas, uma vez que a generalidade dos estudos historiográficos sobre a chamada “Solução Final” apontam para seis milhões de judeus mortos. Mas Duterte foi mais longe. “Existem três milhões de toxicodependentes [nas Filipinas]. Ficaria feliz em massacrá-los.”

Duterte continuou a falar de uma forma incoerente e deu sinais de se considerar um Hitler das Filipinas. “Se a Alemanha teve Hitler, então as Filipinas teriam…”, disse, enquanto apontava para si próprio. Duterte tomou posse no final de Junho e não perdeu tempo em lançar uma impiedosa guerra nas ruas do país contra o tráfico, recorrendo a execuções extrajudiciais e promovendo a formação de “esquadrões da morte”. Calcula-se que tenham morrido 3100 pessoas em três meses.

As declarações do líder filipino causaram choque junto das comunidades judaicas em todo o mundo. “A comparação entre toxicodependentes e as vítimas do Holocausto é imprópria e profundamente ofensiva”, disse o director de comunicação da Liga Anti-Difamação, um grupo sedeado nos EUA, Todd Gutnick, citado pela Reuters. “É desconcertante que qualquer líder queira imitar um monstro destes”, acrescentou.

O chefe do projecto de Terrorismo e Ódio Digital do Centro Simon Wiesenthal, o rabi Abraham Cooper, disse que as declarações de Duterte são “ultrajantes”. “Duterte deve um pedido de desculpas às vítimas pela sua retórica nojenta.”

O Presidente filipino não se tem mostrado minimamente perturbado pelas críticas que lhe têm sido apontadas por outros líderes. Ainda este mês, o Presidente dos EUA, Barack Obama, cancelou uma reunião bilateral com Duterte, depois de este se ter referido a Obama como um “filho da puta”. Antes, Duterte tinha chamado “filho da puta gay” ao embaixador norte-americano em Manila.

Quando não ofende directamente outros líderes, Duterte tenta colocar na mesma categoria as falhas alheias. “EUA, União Europeia, podem chamar-me o que quiserem. Mas eu nunca fui hipócrita como vocês. Há migrantes a fugir do Médio Oriente e vocês permitem que eles morram, e estão preocupados com a morte de mil, dois mil, três mil [pessoas durante a guerra ao tráfico nas Filipinas]?”, afirmou.

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