Editorial

O frenesim de José Sócrates

Por estes dias, o ex-líder do PS tem a agenda cheia. Mas não se trata de um mero acaso.

Primeira pergunta: porque é que, subitamente, o ex-primeiro-ministro retomou uma bem preenchida agenda política? Segunda pergunta: e porque é que o PS lhe está a dar uma ajuda? Vamos aos factos. No espaço de menos de uma semana, a agenda de José Sócrates foi marcada por dois actos públicos e um privado. Este último teve a forma de um jantar de amigos, e, segundo o jornal i, o objectivo foi “trocar ideias sobre a estratégia política” do mais mediático arguido da Operação Marquês. Quanto aos actos públicos, o primeiro desenrolou-se ontem, ao fim da tarde, na “Universidade de Verão” que marca a rentrée da FAUL, a mais poderosa estrutura organizativa do PS. Sócrates teve honras de abertura de uma iniciativa na qual participam alguns ministros e figuras de proa do partido, mas para a qual, sintomaticamente, António Costa não foi convidado. O segundo acto acontece hoje, sob a forma de almoço, e a intenção é homenagear o ex-líder socialista, embora se desconheçam os fundamentos e o âmbito de tal homenagem, nem quem se vai sentar ao lado do homenageado.

Aparentemente, tudo isto é bizarro. Sócrates continua a braços com a Justiça – ainda há poucos dias a procuradora-geral da República dilatou o prazo da investigação por mais meio ano – pelo que, politicamente, continuam válidas as razões pelas quais António Costa decretou uma espécie de distância higiénica entre o PS e tudo o que tenha a ver com o processo judicial em curso. Sócrates nunca aceitou esta postura de Costa, mas o PS cumpriu essa exigência de não contaminação, afastando o ex-líder de qualquer participação em actos partidários. Até agora, momento em que, deliberadamente, a FAUL quebrou a regra não escrita, mas repetida ad nauseam pelo actual secretário-geral: “À política o que é da política, à justiça o que é da justiça”.

Parece óbvio que Sócrates quer aproveitar o momento de especial fragilidade do juiz Carlos Alexandre, na sequência da sua desastrosa entrevista à SIC, para surgir numa posição de força, quer perante a opinião pública, quer perante a própria justiça. Ao mostrar que não está só e que pode contar com apoios suficientemente fortes para lhe patrocinarem o regresso à política, Sócrates levanta dúvidas sobre as graves acusações que lhe são imputadas e ganha espaço para retomar a sua tese favorita: a de que é uma pobre vítima de maquinações cujo objectivo essencial sempre foi atingir o PS, decepando-o do seu mais forte candidato presidencial – ele próprio.

Curiosamente, os ganhos de curto prazo de Sócrates assentam que nem uma luva nos dividendos de médio prazo dos críticos de Costa no PS. Também estes aproveitam o momento mais vulnerável do líder – a polémica do imposto sobre património imobiliário, as pressões de Bruxelas, as difíceis negociações com PCP e BE sobre o Orçamento… – para assinalarem o seu inconformismo face à actual orientação do partido, que embora silenciado, sempre existiu. É por isso que ajudam Sócrates. Mas a quebra desse silêncio ressentido pode anunciar o fim da sua trégua com Costa.