O fado de costas para o rio, virado para Alfama

Durante duas noites, o Caixa Alfama espalha o fado por um dos seus bairros de eleição. Do cartaz fazem parte Carminho e Ricardo Ribeiro, assim como as jovens revelações Sara Correia e Maura Airez.

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Maura Airez dr
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Sara Correia dr

Este ano, na sua quarta edição, o Caixa Alfama tem uma novidade que pode parecer uma questão menor. Mas não é. Esta noite, quando Gisela João, Ricardo Ribeiro e Carminho subirem ao palco principal do festival que assenta arraiais num dos mais castiços bairros lisboetas – cujas ruas são cenários naturais de canções populares e onde qualquer par de janelas aberto leva a viajar no tempo com os intérpretes clássicos da canção de Lisboa –, darão as costas ao rio e enfrentarão aquela paisagem de ruas, casas e escadinhas. “As pessoas vão estar de frente para o rio e eu vou estar virada para toda a Alfama”, antecipa Carminho ao PÚBLICO. “Vai ser, de certeza, bastante emocionante.”

Para qualquer fadista, a presença no Caixa Alfama representa estar rodeado dos pares, mas também cantar para um público conhecedor, bem consciente das suas preferências. Que o diga Ricardo Ribeiro, que enquanto percorria as ruas do bairro nos últimos tempos foi não apenas beijocado por senhoras que o conhecem desde miúdo a cantar nas colectividades, como recebeu delas pedidos claros para que cantasse Porta do coração ou Fama de Alfama e o aviso de que, ao fazê-lo, cada uma destas espectadoras assumirá que aquele fado lhe é dedicado.

Cantar em Alfama é “jogar em casa” para Carminho e Ricardo Ribeiro. Os dois cresceram e fizeram-se fadistas naquelas ruas. Ele cantou desde pequeno no Grupo Desportivo Adicense, no Tejolense Atlético Clube ou no Clube Lusitano, onde o fado se ouvia no seu contexto mais genuíno, e onde sorvia o conhecimento de referências obrigatórias como Fernando Maurício, seu primeiro herói. Ela andava sempre atrás da mãe, a também fadista Teresa Siqueira, que por ali teve a sua afamada casa de fados, a Taverna do Embuçado (criada originalmente por João Ferreira-Rosa e reaberta em 1993 pelos pais de Carminho).

Se a noite de ambos passará, em primeiro lugar, pela apresentação dos seus últimos discos – Canto, no caso de Carminho, Hoje É Assim, Amanhã Não Sei, de Ricardo Ribeiro –, reconhecem que a ocasião é especial e se presta a um alinhamento menos comum. “Estou a preparar um concerto especial porque não deixa de ser o bairro que me viu crescer no fado”, confirma Carminho. “Quero escolher bem que fados vou cantar e certamente haverá algum dedicado a Alfama.” Ribeiro põe a tónica na espontaneidade, prevendo que o público peça fados que não estejam previstos. “E há fados que vou cantar e que trazem à memória muitas coisas que passei ali. O público é mais exigente, tem de se estar atento, porque aquele povo gosta de fado.”

Para Carminho, a hipótese de dedicar algum fado à sua mãe ou a Beatriz da Conceição, a sua “grande influência, uma das últimas personagens emblemáticas de uma geração e que acabou por dirigir como uma maestrina o fado tradicionais e as suas regras”, está também em aberto.

Duas revelações

Falecida em Novembro de 2015, Beatriz da Conceição será homenageada nesta edição do Caixa Alfama, através de um espectáculo-tributo a uma voz única no fado e vista como um farol da tradição. Do elenco desse espectáculo, marcado para este sábado no Palco Caixa (antes de Raquel Tavares e depois de Filipa Cardoso) fazem parte as promissoras Sara Correia e Maura Airez, apontadas ao PÚBLICO por Ricardo Ribeiro e Carminho como jovens fadistas a exigir atenção imediata. Sara Correia, “uma rapariga com carga fadista”, elogia Ricardo Ribeiro, tem 23 anos, e confessa-se “uma tradicionalista”. “Foi a cantar fados tradicionais que comecei. Não querendo dizer que não cante fado canção, a minha praia é o tradicional.”

Seguindo os passos de uma tia, Sara estreou-se no fado aos sete anos. “Comecei a experimentar e deu nisto”, resume. Muito rapidamente, aliás, o seu talento foi notado, depois de participar em vários concursos e arrebatar o primeiro prémio da Grande Noite do Fado em 2007. Com apenas 15 anos, era já convidada a juntar-se ao elenco profissional da Casa de Linhares, em Alfama, partilhando as suas noites com Celeste Rodrigues, Maria da Nazaré e Jorge Fernando, com quem aprendeu “realmente o que era o fado”. Actualmente, canta no Fado em Si e no Páteo de Alfama, assumindo como as suas maiores referências Amália Rodrigues, Fernanda Maria e Beatriz da Conceição. Em breve, ouvi-la-emos num álbum com produção de Diogo Clemente (Mariza, Carminho), em que se aventurará a dar voz a um dos clássicos amalianosFoi Deus.

Referida por Caminho como “uma miúda que anda a cantar muito bem e num processo de escolha de reportório”, Maura Airez tem apenas 17 anos e só há muito pouco se descobriu como fadista. Filha do ex-futebolista argentino do Benfica Mauro Airez, cresceu com fado em casa, graças a um avô nascido na Mouraria, frequentador habitual das sessões de fado no bairro. “Só há um ano é que comecei a interessar-me mais pela nossa cultura e pela nossa música”, admite. Esta aproximação, que desde então tem revelado uma afirmação fulgurante, deu-se pela participação no Festival Model & Talent, em que desfilou como modelo, mas onde tinha de prestar provas de um talento. Decidiu cantar, arriscou um fado, e depois de vencer a eliminatória portuguesa conquistou igualmente a vitória na Turquia, perante participantes de outros 59 países.

Percebeu então que “cantar fado é diferente”, vem-lhe de dentro, mexe-lhe com as emoções de uma forma mais arrebatada. E depois dessa revelação, frequentou escolas de fado, começou a apresentar-se em algumas casas de fados – é residente na Tasca do Chico – e diz-se “a aprender o máximo possível”, ao mesmo tempo que prepara a gravação do primeiro álbum. Referências não lhe faltam, de Beatriz da Conceição, Hermínia Silva e Lucília do Carmo a Carminho, Ana Moura ou Ricardo Ribeiro. E acima de todas as outras, naturalmente, Amália.