Nuno Lopes ganha prémio de melhor actor da secção Horizontes em Veneza

No discurso, o actor agradeceu às pessoas do bairro da Jamaica e da Bela Vista e dedicou o prémio a, Marco Martins, o realizador do filme São Jorge.

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Nuno Lopes

O actor Nuno Lopes recebeu o prémio melhor actor da secção Horizontes do Festival de Veneza, que se abre às novas tendências do cinema mundial - tem um júri diferente, distinto do da secção oficial. Interpreta, em São Jorge, um boxeur que, no cume da crise financeira em Portugal, trabalha para uma empresa que cobra dívidas difíceis – é um tipo com dívidas que, para as pagar, ameaça quem tem dívidas por pagar, é a história de um boxeur que, para subsistir, para ficar com o filho, para poder ficar com a mulher, imigrante brasileira tão esmurrada pela vida quanto ele, passa do estatuto de observador do que acontece à sua volta no Portugal da intervenção da troika para o de cobrador.

No discurso, o actor dedicou o prémio ao seu melhor amigo, Marco Martins (a segunda colaboração cinematográfica entre os dois, depois de Alice, em 2005, e depois de vários projectos teatrais em comum), e também às pessoas do bairro da Jamaica e da Bela Vista, onde se passa a longa-metragem.

O filme, trabalho de ficção a partir de uma investigação documental, fazia já com a sua notável síntese uma dedicatória porque criava um espaço de visibilidade para elas. E Nuno Lopes sublinhou em Veneza que se os políticos ouvirem estas pessoas, que são das mais pobres de Lisboa, como seres humanos e não apenas como números, "talvez se possa começar a falar da Europa". Foi em nome dessa visibilidade que o filme, a colaboração com Marco Martins, e a sua personagem de boxeur existiram: a ficção a ir ter com o documentário, esses rostos dos bairros problemáticos da Bela Vista e da Jamaica, em Lisboa.

Por isso, como o actor disse ao PÚBLICO, se este prémio é importante para ele a “nível pessoal”, cumpre-se no palco de Veneza o desígnio do filme. Para além do prémio, Nuno Lopes, que durante uma semana foi espectador dos filmes do festival, levou com ele fortes memórias de filmes como Une Vie, de Stéphane Brizé, Safari, de Ulrich Seidl e La Region Salvaje, de Amat Escalante. Como já tinha ficado com ele o dia em Cannes, há uns anos, em que foi dos poucos “a aplaudir de pé” Post Tenebras Lux, de Carlos Reygadas.

O júri da secção Horizontes era formado pelo crítico norte-americano Jim Hoberman, pelas actrizes Nelly Karim, Valentina Lodovini, Moon So-ri, pelo crítico José Maria (Chema) Prado, e pelo realizador Chaitanya Tamhane.

Nuno Lopes é um santo no inferno