De Bruin-Heijn, que colecção é esta?

Com a abertura do Centro de Arte Quetzal, os milionários de Bruin-Heijn querem pôr o interior do Alentejo no circuito da arte contemporânea. A inauguração foi ocasião para se sondarem motivações e desvendar um pouco desta vasta colecção gerida de modo muito discreto.

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Desconhece-se o conteúdo e a quantidade de obras que contém a colecção De Bruin-Heijn; na primeira exposição do Centro de Arte Quetzal mostram-se obras de Pat O'Neill, Robert Heinecken e Trisha Baga ENRIC VIVES-RUBIO
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O centro de arte contemporânea está integrado na quinta que produz os vinhos Quetzal e Guadalupe ENRIC VIVES-RUBIO
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O centro de arte contemporânea está integrado na quinta que produz os vinhos Quetzal e Guadalupe ENRIC VIVES-RUBIO
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O casal Cees e Inge de Bruin-Heijn move-se com tanto protagonismo quanta discrição no mundo da arte contemporânea ENRIC VIVES-RUBIO
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A filha mais nova do casal Cees e Inge de Bruin-Heijn é a curadora do Centro de Arte Quetzal ENRIC VIVES-RUBIO

Sentada junto a um grande painel de azulejos que reproduz uma quetzal  a ave do paraíso que dá nome à quinta , Aveline de Bruin fala do seu projecto de abrir um centro de arte contemporânea na aldeia de Vila de Frades, perto da Vidigueira, como parte de uma ideia maior. “Este painel partiu de uma ilustração de Henriette Arcelin [ilustradora e ceramista francesa a viver em Portugal] e foi produzido na Fábrica Viúva Lamego, as almofadas deste banco são de uma artesã de Monsaraz, as cadeiras e as mesas feitas aqui no Alentejo, e este edifício foi desenhado pelos arquitectos portugueses Filipe Ferreira Alves, Margarida Direitinho e Nuno Ramos”.

Aveline está no restaurante da quinta, uma ampla sala rectangular com uma parede em vidro e uma varanda a dar para uma vinha, a imagem de marca da Quinta do Quetzal, que produz os vinhos Quetzal e Guadalupe. “A experiência de construir e decorar este edifício revelou-nos uma rede que gostávamos de aplicar ao centro. Esperamos poder ajudar a dinamizar o circuito da arte no Alentejo”, diz ao PÚBLICO a filha mais nova do casal Cees e Inge de Bruin-Heijn, milionários, holandeses, donos da Quinta do Quetzal e de uma das 200 maiores colecções privadas do mundo de arte contemporânea, segundo uma lista publicada em 2010 pela revista americana Art News. É deles o centro de Arte Contemporânea do Quetzal que abriu oficialmente esta quarta-feira.

Aveline de Bruin é a curadora da colecção e do centro de arte. São 450 metros quadrados de espaço positivo que se situam no mesmo edifício, por baixo do restaurante, e vão permitir ao público de arte em Portugal conhecer um pouco de uma colecção gerida de modo bastante discreto por este casal que nos últimos dias tem estado no centro de muitas atenções. Quem são, mas sobretudo o que fazem no interior de Portugal com um centro de arte moderna? Têm saído notícias, sobre a fortuna – feita sobretudo no mercado financeiro e avaliada em 1200 milhões de euros (números avançado pela revista Visão) – e o que os atraiu no país – bom clima, bom vinho, boa gastronomia. No dia da inauguração, alguns dos 250 convidados – artistas, galeristas, coleccionadores e curadores de arte – não sabiam responder a esta pergunta. “O casal de Bruin não começou a coleccionar arte agora. Têm uma colecção com muitos anos feita com critério e não por capricho”, referiu ao público o britânico James Lingwood, um dos directores da Artangel, em Londres, que em 2012 comissariou a restropectiva de Julião Sarmento em Serralves.

“A arte faz parte das suas vidas há muito tempo. Mas esta é uma colecção privada e, ao contrário do que acontece com uma colecção de museu, não temos uma perspectiva, uma visão de conjunto. Não há catálogo. Sabemos apenas que eles apoiam artistas um pouco por todo o mundo há muito tempo, e sei que têm grandes artistas holandeses, da Bélgica ou da Alemanha, sobretudo.” E James Lingwood cita alguns nomes que integram a colecção de Bruin-Heijn. O belga Luc Tuymans, a sul-africana Marlene Dumas, a austríaca Maria Lassing ou o britânico Ryan Gender. Mas há também obras dos portugueses Francisco Tropa e Julião Sarmento, que ontem confessou não saber qual será. “Sei também que estão muito dedicados a comprar obras e a apoiar artistas mais jovens”, acrescenta James Lingwood, que considera o facto de o centro estar num lugar como este mais um motivo para atrair o interesse de visitantes. “Está a duas horas de Lisboa numa paisagem incrível.”

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Aveline de Bruin é a curadora da colecção e do Centro de Arte Quetzal ENRIC VIVES-RUBIO

Cristina Lucas conheceu o nome dos de Bruin quando estudava na Holanda. A artista plástica espanhola estava entre os convidados da inauguração. “Eles fazem um grande trabalho de mecenato nas artes na Holanda. Atribuem bolsas, dão residências, compram obras a jovens artistas”, referiu, salientando que "são muito conhecidos e respeitados por lá, apesar da discrição que mantêm sempre”.

Desconhece-se o conteúdo e o número de obras que contém, mas Aveline de Bruin revela que são mais de 500 os artistas representados na colecção, com peças que vão sendo mostradas em alguns dos mais conceituados museus do mundo, como o MoMA, em Nova Iorque, a Tate Modern, em Londres, o Centro Pompidou, em Paris, ou o Reina Sofía, em Madrid. "Se as peças da colecção dos meus pais viajam por todo o mundo, achamos que podem também ser mostradas em Portugal, neste espaço, em exposições temáticas que tentamos que façam sentido neste contexto geográfico", continua a curadora do espaço, que revela ainda a filosofia que a guiou no centro de Vila de Frades. “Há mais quintas no mundo com esta combinação de arte e vinho. Eu gostava de ter aqui uma selecção que fosse um bocadinho pessoal, que não fosse evidente. E também que surpreendesse. Porquê estes artistas? Porque não alguém mais conhecido? Gosto do desafio. Temos na nossa colecção o trabalho de Pat O’Neill [n.1939] e achei que merecia ter uma boa mostra. Quase ninguém conhece o seu trabalho e é difícil mostrar filmes com espaço suficiente e em boas condições. Estou muito orgulhosa de o poder fazer aqui, com trabalhos das décadas de 60 e 70.” Juntou-o a outros dois artistas, Robert Heinecken (1931-2006), fotógrafo e artista americano, e Trisha Baga (n. 1985), artista de Nova Iorque conhecida pelo trabalho em multimédia e vídeo.

A exposição inaugural vai estar patente até Fevereiro e em Março seguir-se-á outra com nomes ainda por definir. “Gostávamos que as obras estivessem pelo menos seis meses, o que dá a possibilidade a muita gente de as conhecer”, diz Aveline, que confessa só agora estar a conhecer o universo das artes plásticas em Portugal. “Conheci artistas, galeristas e coleccionadores na Arco, em Lisboa, e aqui no Alentejo já tive contacto com a Fundação Eugénio de Almeida. Espero que a rede comece a funcionar, que se estabeleçam parcerias, diálogo. Há cada vez mais artistas a vir viver para Portugal, porque há um grande dinamismo e continua a não ser caro. E há muito espaço”, ri, enquanto acrescenta: “Espero que funcione o boca-a-boca, que as pessoas comentem e venham. Este é um sítio pensado para quem já está familiarizado com a arte e para os que nunca tiveram esse contacto.”

A esperança de Aveline de Bruin era a mesma de muitos dos que se encontravam esta quarta-feira na Quinta do Quetzal. Não escondiam curiosidade acerca dos de Bruin, tentando perceber o que a abertura deste centro pode trazer não apenas ao Alentejo, mas ao país das artes. “O mundo da arte é muito pequeno”, diz Aveline. Os pais movimentam-se nele com tanto protagonismo quanta discrição. Cees foi é administrador do museu Stedelijk, em Amesterdão, e Inge foi membro do júri do prémio Baloise, fez parte do comité do MoMA para os Novos Média New e da assembleia do centro de artes Wiels, em Bruxelas. Além disso, ambos apoiam a formação de artistas na Rijksakademie, em Amesterdão. “Vamos querer fazer isso aqui no Quetzal. Teremos residências para artistas num edifício que está neste momento em obras e ainda não tem data de abertura prevista”, adianta Aveline que, sobre a motivação da família para abrir um centro de arte contemporânea numa paisagem de vinhas, perto de uma aldeia com menos de mil habitantes do interior de Portugal, diz que é o prolongamento de uma relação muito familiar com o país. “Os meus pais vieram cá de férias há 40 anos e nunca mais deixaram de vir. E depois houve esta quinta e o vinho, e havia a oportunidade de a potenciar com outra coisa que eles tinham: a arte. É bom para o vinho que aqui se produz”, ri.