O Deus e o rapazinho assustado: eis Nick Cave

Entre a morte de um filho e o nascimento de um disco, Nick Cave encontrou-se com a câmara de Andrew Dominik. One More Time with Feeling documenta uma figura xamânica – a três dimensões.

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Nick Cave, australiano, lembrado numa conferência de imprensa do 73.º Festival de Veneza por Andrew Dominik, origem neo-zelandesa, mas vida em Melbourne, Austrália, quando Andrew estava nos seus 20 anos: “Ele era como Jesus.” Era amado e odiado. As raparigas de Melbourne lutavam para decidir qual delas era o assunto de uma canção de Nick Cave. E Andrew sempre olhou para Nick como quem olha para alguém a quem as coisas acontecem primeiro – porque Cave é mais velho –, à espera dos conselhos das canções. Num dia de Julho do ano passado, Andrew recebeu um telefonema de Nick. Algo lhe tinha acontecido primeiro: a morte de um filho, Arthur, 15 anos, quando caiu de um penhasco em Brighton, onde a família vive.

Nick tinha um disco para editar, The Skeleton Tree (lançamento esta sexta-feira, dia 9). Não estava seguro de que conseguiria suportar a barragem jornalística em torno das canções do seu luto. Achou que um filme, que teria no centro um pequeno concerto a apresentar o álbum, permitiria a exposição e a protecção justas, porque se trataria de direccionar os seus pensamentos a uma só pessoa. Andrew Dominik encontrou então um “God” (“Deus”) e um “scared little guy” (“rapazinho assustado”). Encontramo-los aos dois, ao Nick Cave Deus e ao Nick Cave “rapazinho assustado”, em One More Time with Feeling, documentário a preto e branco e a cores, em 3D (exibido em Veneza fora de concurso), que não esconde um embaraço e é comovente nisso: como, depois da performance das canções, que preencheria pouco mais de meia hora de filme, falar de um disco e não falar de Arthur, como não chegar à fronteira do “grief porn” quando no centro está uma família a quem aconteceu um brutal descarrilamento?

Andrew e Nick estão vigilantes, cada um às tantas assume que não sabe bem o que está ali a fazer. Nick confessa mesmo: no passado recusar-se-ia a falar assim sobre si. Sente-se que o 3D, que tenta esculpir as imagens, encontrando um equivalente para a espacialização do som, talvez tenha sido uma ajuda: uma técnica a servir de filtro distanciador, e deve ter sido esse o seu papel também na rodagem, em que se vêem Susie Bick, a mulher de Cave, e outro filho do casal, Earl, várias vezes curiosos, inquisitivos em relação à câmara.

Mas não nos iludamos, diz Andrew Dominik: o filme para Nick Cave “não teve nada de terapêutico, a não ser momentaneamente”. Foi “apenas uma forma de ele colocar um pé à frente do outro”, de caminhar, porque lida com os traumas da sua vida metendo-se ao trabalho – foi o que também fez a mulher, Susie. Dentro de uma carrinha, em casa, no estúdio, Nick não perde a sua silhueta xamânica, preocupa-se com os cabelos, mas vemos o homem, que encontra olheiras onde antes elas não estavam, confessar que as suas canções proféticas não podem nada contra o que lhe aconteceu.

Nick procura uma narrativa. As suas canções antes tinham narrativas, colocar nelas uma história era forma de controlo. Agora não. Para o novo disco confessa que até deixou ir as palavras, que sempre vigiou, pelas quais sempre sentiu respeito e medo, por aquilo que elas podiam revelar de si. Às tantas Nick Cave olha para a câmara: sim, ele, Arthur, está aqui (aponta ao coração), e as pessoas dizem-lhe que isso deve ser um consolo, “mas a verdade é que ele não está, porque está morto”. Sobre as palavras, descobriu que elas não conseguem dizer nada que o salve de uma zona circunscrita com a qual, por mais elásticos que sejam o tempo, a memória, vai sempre chocar. Resume assim, e afinal as palavras dizem muito: “Everything is not ok but it’s also ok”.

Nick Cave e Andrew Dominik fizeram um acordo antes de One More Time with Feeling: o realizador retiraria do filme aquilo de que o cantor não gostasse, mas Nick permitiria o acesso de Andrew a tudo o que ele quisesse. No final houve “mixed feelings”. Nick não gostou de se ver, só gostou de ver Susie. Susie não gostou de se ver, só gostou de ver Nick. Warren Ellis, cúmplice nos Bad Seeds e co-autor, com Nick, de bandas-sonoras (entre as quais a de um filme de Andrew Dominik, O Assassínio de Jesse James pelo Cobarde Robert Ford), gostou de os ver aos dois, e assim One More Time with Feeling pôde existir como Andrew Dominick quis.